Canto Vertov | Lady Macbeth, a ave de rapina

Por Leonardo Carvalho
Reino Unido – 2016

Sem perder tempo com diálogos explicativos na apresentação e indo direto ao pote, “Lady Macbeth”, adaptação da obra de Nikolai Leskov, traz uma cerimônia de união entre duas pessoas. Logo depois, também sem perder tempo, estamos no principal cenário do filme, a casa, e sabemos que se trata, pela cenografia e figurinos, de um ambiente de séculos remotos.

Tão remotos são os séculos que o casamento citado acima foi um casamento comprado, típico da época. Não que não exista tal tipo de ação hoje em dia, mas é muito mais incomum. Enfim, sem mais delongas, deve-se dizer que o casamento entre Katherine e Alexander foi um casamento comprado por este e seu pai, Boris, em troca de um pequeno pedaço de terra.

Pai e filho tratam a protagonista feito um animal, dizem a hora que ela pode dormir e deve acordar, concedem fortes tapas no rosto da moça, além de Alexander pedir para que ela fique de costas para ele, de frente para a parede, com o intuito de masturbar-se com a visão nua da moça. Não é muito bem explicado o motivo de ele não se relacionar sexualmente junto a ela.

De cara percebe-se uma insatisfação da moça, não apenas insatisfação, mas um cansaço voltado àquela situação. Certamente por obrigações dos patrões, uma escrava da casa supervisiona o cotidiano de Katherine através de um regime pouco confortável para a protagonista. Por exemplo, para a acordar a sua senhora, a escrava abre as cortinas violentamente para que o sol entre no cômodo; em outro exemplo, quando a coadjuvante amarra a armação do vestido da sua senhora, vemos a forma agressiva como ajeita o traje no corpo de Katherine, o momento é desconfortável.

Em níveis mais primários, esteticamente, a ótima atuação de Florence Pugh absorve o cansaço de Katherine com seus olhos caídos, com expressões pouco saudáveis. Em níveis mais complexos, é possível observar a centralização da senhora no enquadramento, não sendo o centro das atenções de forma positiva, mas sim negativa, parece ser o alvo de desconto de toda aquela agressividade. Mais para a frente pensaríamos, ao contrário, que ela seria o centro das atenções, uma Lady Macbeth com raízes em Shakespeare, não mais uma vítima da situação em que vive.

Ainda falando de tais complexidades, percebe-se que dentro daquela casa, na maior parte da vezes ao longo de toda a narrativa, a câmera está impecável em seu equilíbrio, precisamente estática, mal treme durante as filmagens. Quando ela está fora daquela casa, porém, a câmera treme com mais frequência, parece estar livre, mais à vontade. A ideia passada é a de um verdadeiro enquadramento quando está na casa, um verdadeiro “enquadrar”, presa no quadro, no quadro rigidamente estático, presa naquelas quatro linhas, ou seja, prisioneira daqueles homens naquela residência.

Aos poucos, como foi já antecipado mais acima, Katherine vai se tornando uma mulher mais fria, mais calculista, embora obcecada com uma coisa, ela está se tornando a Lady Macbeth de Shakespeare. Katherine, ao matar Boris, mostra-se indomável na conquista do que quer, e o que ela quer é o poder, um aspecto abstrato concretizado em duas formas no longa-metragem: em um criado, com quem a protagonista tem relações sexuais, e na própria casa, o ambiente-base para a cristalização da sua posição de força.

A figura principal torna-se manipuladora, mata friamente Boris aos olhos da escrava, e com seus olhares macabros, frios, a pobre escrava entende que não pode pronunciar a sua voz contra a sua senhora, e não o faz, pois que em uma cena ela grita, grita ferozmente como um desabafo por ver a morte do ex-senhor, não consegue ligar justificativas em matar alguém, mesmo alguém ruim, que despreza e destrata, mas a voz não sai de jeito nenhum. Depois, quem sofre com as ações de Katherine é o próprio homem com quem casou forçadamente, Alexander, morre a pauladas desferidas pela mulher.

Os motivos de tudo isso já foram citados, como a insatisfação pelos maus tratos, além de um aspecto ainda mais importante, a tentativa de deslocamento de poder. Quando ambos os homens citados várias vezes aqui neste texto, sobretudo o filho, tentam de alguma forma impedir a ascensão do poder de Katherine, ou melhor, de Lady Macbeth, ela logo freia tais impedimentos, machuca e mata, por isso, às vezes, a câmera desestabiliza pelos fortes impactos, movimentos de morte dentro da residência, a rigidez da estaticidade, portanto, tem seus desnivelamentos.

Isso acontece, também, quando chega um menino em que a cuidadora alega ser filho do ex-marido morto de Katherine, em que esta teria de fornecer, judicialmente, abrigo ao garoto. Lady Macbeth, sem pensar duas vezes, mata a criança friamente, sufocando-a com um travesseiro, e quando acusada de assassinato pelo criado com quem tinha relações sexuais, ela acusa de volta, e ganha a razão, acusa até a escrava, que nada teve a ver com a morte, é uma verdadeira ave de rapina de Nietzsche.

É uma verdadeira ave de rapina de Nietzsche quando este discute, em sua formidável “Genealogia da Moral”, sobre a questão do ressentimento e inversão de valores. No filme, Lady Macbeth é a mais forte, embora tentem fazer, em uma sociedade patriarcal, que ela seja a mais fraca, a ovelha, não a ave de rapina, mas ela não cria o ressentimento e não inverte seus valores, continua sendo a mais forte e passa por cima das ovelhas para que consiga alcançar seus objetivos.

Katherine, ou Lady Macbeth, traz ainda seus planos sensuais, muito como a personagem shakespeariana, e firma sua natureza de uma forte femme fatale. Ela cresce gradualmente com o passar da narrativa, ameaça por seus olhares, não hesita em machucar quando se trata de uma ameaça a seu poder, mas diferente da personagem da peça de Shakespeare, ela tem um final feliz junto à obsessão.

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