Crítica | Lady Bird: A Hora de Voar

Por Matheus Fiore

Direção: Greta Gerwig
Estados Unidos – 2017
Nome Original: Lady Bird
Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein & Jordan Rodrigues.

Ao sair da cabine de “Lady Bird”, o comentário mais comum entre quem também assistiu ao filme era algo como “eu me emocionei porque me identifiquei com a personagem”.Acredito que essa emoção tem motivos para além da simples identificação. Claro, todos se veem representados neste coming of age sobre uma adolescente que lida com seus primeiros conflitos existenciais, sua vida amorosa, suas amizades e problemas familiares. Mas há mais no filme de Greta Gerwig.

A identificação ocorre, mas a emoção parte de um fator especial. “Lady Bird” mostra, principalmente, os conflitos da protagonista com sua mãe, que não apoia suas aspirações e critica suas escolhas – algo natural em uma relação entre filha rebelde e mãe coruja. O grande ponto, porém, é trazer algo que nós, “filhos”, raramente (ou nunca) temos acesso em nossa juventude: o ponto de vista da mãe, que nos mostra o quanto ela sofre e se preocupa.

“Lady Bird” traz uma mãe exigente, controladora e às vezes cruel, mas que sempre age transpirando amor por sua filha – repare como a atriz Laurie Metcalf, que interpreta Marion, a mãe de Lady Bird, nunca imprime raiva ou agressividade em sua atuação, apenas pesar, preocupação e, no pior dos momentos, tristeza. No auge de sua juventude, porém, Christine “Lady Bird” McPherson não percebe isso. Assim como nós, quando jovens, não percebemos. Justamente por isso, em alguns dos momentos mais intensos da obra, Gerwig escolhe pôr sua protagonista de lado por alguns segundos, dando atenção justamente a Marion.

Gerwig não se satisfaz em contar uma história sobre o conflito entre mãe e filha ou sobre as aventuras e desventuras de uma adolescente. A diretora e roteirista aproveita seu longa para inserir, em todos os seus personagens, sutilezas que os definem. Cada pessoa apresentada ao longo da projeção traz, em algum momento, um tímido elemento que expõe sua insegurança. “Lady Bird”, então, é um filme capaz de mostrar como as incertezas surgem na juventude, mas permanecem na vida adulta. O primeiro plano da obra, inclusive, é um retrato perfeito disso: Lady Bird e sua mãe dormem juntas, em posições semelhantes, uma virada para a outra. São duas figuras que, apesar de se enfrentarem diretamente, se assemelham em comportamento.

Se nos jovens a incerteza surge em forma de impulsos e mudanças bruscas de comportamento, nos mais velhos, as dores são interiorizadas. Temos apenas vislumbres, como um personagem que apresenta sinais de depressão, ou outra que fala de maneira lamentosa sobre sua mãe alcoólatra, e por aí vai. Em “Lady Bird”, vemos um estudo sobre a vida como uma passagem repleta de incertezas e fracassos. A jornada da protagonista não é sua formação acadêmica, mas sua formação humana.

Greta Gerwig por trás das câmeras no set de “Lady Bird”.

Pelo fato de os adultos e dos jovens terem os mesmos questionamentos, mesmo que com abordagens diferentes, isso impede o filme de ser um simples conflito entre gerações. Gerwig consegue fazer com que seus personagens mais velhos não pareçam figuras de um mundo distante, mas de um mesmo universo, apenas mais calejadas e experientes. Isso se reflete até na composição das jornadas e atitudes dos personagens: há o pai que, sem saber, tem um mesmo objetivo que seu filho; há o homem choroso que, se sentindo incompreendido, se senta em um canto e sofre ao lado de uma adolescente – que também se sente incompreendida. Há sempre um elo entre as gerações diferentes em “Lady Bird”.

Apesar de ter uma estrutura demasiadamente convencional, a forma como os eventos são abordados acompanha a efemeridade da juventude. Amizades “relâmpago” que surgem e desaparecem em poucos dias resolvem-se em poucos diálogos, como se fossem fragmentos da memória da personagem de Saoirse Ronan. Lady Bird aposta em cortes secos, interrompendo até a trilha sonora, destacando a liquidez da vida adolescente da protagonista. O figurino também é peça fundamental para ajudar na construção dos relacionamentos de jovem. Notamos, por exemplo, o uso comum de uma jaqueta jeans tanto por ela quanto por seu pai, com quem tem um bom relacionamento, quando ele a leva para a escola. Com a mãe, por outro lado, as vestimentas são sempre diferentes.

A jogada mais ousada de Gerwig é, na segunda metade da obra, subverter clichês do coming of age. O clássico baile de formatura, que costuma ser o fechamento de narrativas do estilo, aqui é apenas um momento de passagem. Gerwig aposta no amadurecimento de sua personagem, e faz seu público assistir à quebra de tudo em que a protagonista acredita. Vemos desde o primeiro grande vôo de Lady Bird (que surge como a mais bela metáfora do filme), até o que ocorre depois: a desconstrução da persona adolescente e, enfim, o surgimento de Christine.

“Lady Bird” é um grande filme porque, ao trabalhar com sutilezas, ir vai além do que é visto habitualmente em histórias do gênero. A obra de Greta Gerwig traz não só nuances que permitem ao espectador ter um escopo maior que o da protagonista, compreendendo tanto seus dilemas quanto os de quem com ela entra em conflito – no caso, sua mãe -, como também a subversão das expectativas e sonhos da própria Lady Bird. É um filme sobre amadurecimento e sobre as incertezas inerentes à nossa existência, que faz questão de fugir do conforto e conflitar sua protagonista com a realidade.

Porque amadurecer não é simplesmente ser feliz e independente; é ainda ter as mesmas incertezas, mas aprender a viver com elas.

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