Crítica | Eu, Tonya



Por Matheus Fiore

Direção: Craig Gillespie
Estados Unidos – 2017
Nome Original: I, Tonya
Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan & Allison Janney

A história de Tonya Harding, patinadora olímpica que teve sua carreira arruinada após ter seu nome vinculado a um crime, é, por seus puros acontecimentos e desdobramentos, uma tragédia. Nascida e criada em Portland, no interior dos Estados Unidos, Tonya cresceu em uma família desestruturada e extremamente agressiva. Por entender que a violência era parte do amor de sua mãe, Tonya procurou essa mesma brutalidade em amores ao longo da vida. “Eu, Tonya” refaz os passos da patinadora, contando com o ponto de vista de todos à sua volta para criar, com a liberdade proporcionada pelo cinema, uma obra que encontra lirismo no trágico e retrata a normatização da violência.

Mas o objetivo do diretor australiano ​Craig Gillespie não é, nem de longe, romantizar as agressões físicas e psicológicas sofridas por Tonya. Gillespie traz uma personagem resistente, e mostra como, mesmo vivendo sua vida em ambientes coercivos, a “redneck” (termo utilizado na América para denominar o estereótipo de pessoas brancas do interior) conseguiu alcançar algum sucesso. Mesmo que este fosse tão efêmero quanto as tréguas entre ela e seu marido.

“Eu, Tonya” não é uma história de finais felizes. Acompanhamos a vida de uma mulher guerreira, mas que sempre tem sua trajetória eclipsada ou freada por elementos que estão além do seu poder. Desde o preconceito com o visual “caipira” que fazia os jurados darem notas baixas nas competições, até as intromissões de seu marido e amigos em sua vida profissional (que são, inclusive, os responsáveis pela destruição de sua carreira). Tonya é uma personagem que precisa enfrentar as dificuldades naturais da profissão, preconceitos e violência.

Imprimindo variação na construção da narrativa, Gillespie e o roteirista Steven Rogers apostam em um filme multi-narrado. Por isso, assistimos à uma obra que alterna a jornada de Harding com os comentários, ambientados décadas depois, da própria patinadora – além de sua mãe, treinadora e ex-marido. Todos os comentários são baseados em depoimentos reais, e a montagem imprime humor a todos eles por encaixar de forma que um anule o outro – o que, consequentemente, torna os personagens pouco confiáveis. É normal em “Eu, Tonya”, por exemplo, que Tonya Harding comente sobre a violência de seu ex-marido para, pouco depois, o mesmo falar em depoimento que, na verdade, ela é quem era agressiva – e as imagens retratarão as duas verdades.

Utilizando esses variados pontos de vista, “Eu, Tonya” ganha uma aura “Rashomon”, na qual é impossível chegar à verdade absoluta em casos nos quais os depoimentos são conflitantes. É manifesto, porém, que para todos os personagens do longa, a violência é elemento formador de suas personalidades. As cenas de agressões são sempre acompanhadas por músicas, câmeras em slow-motion e demais ferramentas que tornem aquela brutalidade natural.

Mesmo com sua recorrência, a violência em momento algum é elemento edificante ou benéfico para as personagens. Tonya é uma mulher, de certa forma, alienada pela brutalidade. A pista de gelo é, por exemplo, o único lugar onde a personagem se sente segura de seu marido e mãe – algo que é transmitido com o uso recorrente de câmeras lentas e planos no contra-plongée (de baixo para cima), que retratam a patinadora como figura imponente dentro da pista. Se por um lado, isso a permite ser uma atleta de alto nível, por outro, a impede de ter uma vida pessoal tranquila.

A fotografia acompanha com eficiência a força de cada ambiente na vida de Tonya. Quando mora com sua mãe, por exemplo, o filme faz uso de cenários menos iluminados que, pelos planos fechados que dominam essas cenas, tornam o ambiente sufocante para a patinadora. Nessa relação entre Tonya e sua mãe, porém, o roteiro desperdiça oportunidades interessantes. Quando há a chance de aprofundar a crueldade de LaVona Golden, mãe da protagonista vivida por Allison Janney, há apenas sugestões de seu desenvolvimento que logo são esquecidas para que a trama continue seu desenvolvimento sem “paradas”.

Se a estilização no estilo “O Lobo de Wall Street” é elemento definidor da estética de “Eu, Tonya”, que utiliza do mesmo jogo de narração e montagem para imprimir didatismo e humor às mais trágicas situações, na hora de subverter o tom e transformar a obra em um drama, porém, a narrativa encontra problemas. Quando recebe uma notícia que mudaria a vida de sua personagem para sempre, Margot Robbie tem a oportunidade de entregar a atuação de sua vida – e entrega -, mas é prejudicada por uma trilha sonora crescente e barulhenta, que mastiga a dramaticidade do momento. Como resultado, não há um choque de realidade. Era, necessariamente, o momento de colidir a bolha de Tonya com o mundo, e a obra prefere manter o máximo de elementos ficcionais possíveis, sufocando o drama.

Como uma obra de arte, “Eu, Tonya” ainda tem muitos predicados notáveis. A normatização da violência surge não como um empecilho direto na trajetória da protagonista, mas como algo rotineiro e moldador. Obviamente, não foi algo bom para a patinadora que teve sua carreira encerrada de forma lamentável, mas ainda encontra sentido principalmente se lembrarmos que, na cronologia da obra, a Tonya “do futuro” nunca divide espaço com sua mãe ou ex-marido. Ciente do mal por eles trazido, Tonya Harding precisou escolher seu próprio rumo e, para isso, isolou-se das figuras do passado.

“Eu, Tonya” pega uma história trágica e a conta de forma irônica, beirando a sátira, imprimindo leveza ao drama. É uma abordagem não muito comum para uma biografia. Como bom cinema, ousa, e abre mão das supostas obrigações com a realidade para divertir e transportar o espectador para um universo tragicômico.

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