Crítica | The Square: A Arte da Discórdia

Por Matheus Fiore

Suécia – 2017
Direção: Ruben Östlund
Elenco: Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West, Terry Notary & Christopher Læssø.

Se todo filme é um documento de seu tempo, The Square: A Arte da Discórdia é o documento do século XXI. Pouquíssimos filmes até hoje retrataram tão bem a falência da sociedade moderna em paralelo aos rumos da arte como faz a nova obra do sueco Ruben Östlund. A história acompanha Christian (Claes Bang), um curador do Museu de Arte Moderna de Estocolmo. Christian está preparando uma grande exposição, e, para isso, lida com a questão promocional do evento, enquanto lida, paralelamente, com as questões de sua vida pessoal. No meio dos dois compromissos, o curador ainda corre atrás de recuperar bens roubados em um golpe que levou em uma praça.

A narrativa se constrói em cima de ironias, transformando The Square em uma interessante sátira. A projeção abre, por exemplo, com uma entrevista que Christian concede à uma jornalista americana, Anne (Elisabeth Moss). O ambiente não poderia ser mais propício: uma sala que traz uma exposição que consiste em pilhas de cinzas. A ironia se completa quando Anne encerra a entrevista dizendo “that’s all we have” (isso é tudo que temos), enquanto, na parede da sala, há a frase “you have nothing” (você não possui nada). É quase como um prenúncio da visão que Östlund trará acerca da arte e de seu esvaziamento ao longo das décadas.

A arte, aliás, é só um dos temas trazidos em The Square. A obra trata do meio artístico como um todo e constrói nele uma relação de hipocrisia com a condição humana. Os artistas e curadores demonstram tanto apreço por obras que falem sobre a crueldade do mundo, mas diariamente passam por pessoas sem-teto pedindo ajuda nas ruas e simplesmente ignoram. Com tais elementos, Östlund permite que seu filme evolua: The Square é, também, um estudo sobre a desumanização, sobre a perda de sensibilidade. Tanto na arte quanto na sociedade.

É interessante como Östlund mantém seu ponto de vista crítico desde o início. Acompanhamos Christian, um personagem mesquinho e arrogante, e vemos sua gradual conquista de consciência acerca da situação dos miseráveis em seu país. A câmera, porém, sempre está ciente de sua existência. Östlund faz questão de usar como transição cenas de sem-teto pedindo dinheiro nas ruas ou no metrô, ressaltando que o problema sempre esteve lá, o protagonista só demorou para perceber.

Mas não há maniqueísmo: Östlund também é capaz de tirar o véu de frieza criado pela sociedade contemporânea e mostrar que há, em Christian, um ser humano capaz de sentir empatia. The Square retrata a jornada do curador até a recuperação de sua humanização, que vai desde a aceitação da condição social da Suécia (o país tem um grande número de imigrantes romenos em suas ruas, que vivem próximos ao metrô para evitar o frio das ruas).

Para a arte moderna, sobram críticas. Muitas críticas. Debochando do conceito extremista de que “tudo é arte”, Östlund traz, no museu, obras extremamente insípidas e que nenhum sentimento provocam em quem as consome, mesmo que, aqui, recorra a clichês como questionar se a presença de um simples objeto no museu faz dele arte – e nunca aprofundar ou discutir tal conceito. A ideia de vazio permeia todo o universo diegético do filme, algo que percebemos ao notar como os enquadramentos tendem a centralizar todos os elementos de relevância narrativa e deixar as laterais vazias, criando um vazio que abraça os personagens e fortalecendo essa visão de esvaziamento de sentido.

Aliás, em The Square, tudo é mais interessante que a arte. Afinal, a arte é o reflexo da sociedade, é a voz do artista, logo, em uma sociedade fracassada e fria, as obras serão o reflexo. Östlund traz isso de forma alegórica, como quando um guindaste tenta remover uma grande peça de bronze da entrada do Museu no qual Christian trabalha e acaba destruindo completamente o monumento. Arte e sociedade, juntos, em ruínas. Perdeu-se o valor da memória, as obras são tão ou menos enaltecidas que o simples projeto de marketing – Östlund também ressalta isso ao trazer dois artistas mais preocupados com a divulgação de uma obra do que com a própria. Não é à toa que o museu onde Christian trabalha esteja sempre vazio de visitantes e seja ocupado apenas por outros curadores, convidados, artistas e até festas.

The Square: A Arte da Discórdia é uma sátira debochada e bem humorada. É uma obra interessada em debater a superficialidade e o esvaziamento de sentido de toda a sociedade contemporânea, e relatar como isso se reflete na arte do nosso tempo. Apesar disso, é também capaz de apontar para uma solução na lenta conscientização e noção de que versar sobre o bem e calar-se diante do mal é inútil e hipócrita, mesmo que, no caso exposto pela obra, talvez seja tarde demais.

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