Crítica | O Destino de Uma Nação

Por Matheus Fiore

Estados Unidos – 2017
Direção: Joe Wright
Elenco: Gary Oldman, Lily James, Ben Mendelsohn, Kristin Scott Thomas, Stephen Dillane, Ronald Pickup & Samuel West.

Winston Churchill talvez seja uma das figuras mais emblemáticas do século XX. O político britânico, que atuou como primeiro-ministro durante a Segunda Guerra Mundial, é visto como um dos grandes oradores e conservadores da história. Representá-lo, então, não é tarefa para qualquer um. Coube a Gary Oldman, de O Drácula de Bram Stoker (1992) e O Profissional (1994), enfrentar o desafio. Criando o terreno para o show de Oldman, estão Joe Wright (de Desejo e Reparação) na direção e Anthony McCarten (de A Teoria de Tudo) no roteiro. O Destino de Uma Nação é um filme que não se preocupa tanto quanto deveria com seu texto, e foca nos esforços de Oldman e no visual para alcançar seu objetivo: ser uma obra sobre o improvável herói que tomou grandes decisões em um dos cenários mais adversos possíveis.

A trama já começa com a Segunda Guerra em curso. Os aliados estão perdendo para o Eixo, e o parlamento inglês decide pela saída do então primeiro-ministro Neville Chamberlain e pela escolha de um político capaz de guiar o Reino Unido pelo restante da guerra. O Churchill de Oldman é esculpido como uma figura excêntrica e, de certa forma, mitológica. É um dos últimos personagens a entrar em cena, tendo antes de sua apresentação uma sequência de passagens que trazem os demais personagens falando sobre ele.

Nas cenas que antecedem a introdução de Churchill, o roteiro de McCarten trabalha na percepção que a esfera política e a pessoal têm do futuro primeiro-ministro. Enquanto seus colegas de parlamento o vêem como alguém perigoso por sua agressividade verbal e pulso firme, a família têm ciência de suas excentricidades (como a exigência que seus discursos datilografados tenham um espaçamento específico) e as trata com carinho. Isso mostra que para os que vêem o político superficialmente, apenas em seu ofício, a imagem é de um homem bronco e irredutível, enquanto quem vive com Winston vê, por trás do resmungão, a ideia cultivada é a de um ser gentil e humano.

Essa humanidade de Churchill é essencial na construção de sua vulnerabilidade. Mesmo quando no poder, o protagonista continua sendo uma figura desacreditada por seus colegas, tanto por ter uma abordagem agressiva quanto por seus fracassos do passado. O roteiro, porém, derrapa por mudar as intenções de seus coadjuvantes sem nenhuma lógica, apenas para criar conflitos. Personagens que antes apoiaram a posição de Winston no cargo de primeiro-ministro, pouco depois já pensam em removê-lo. Essa fragilidade de motivações enfraquece as curvas dramáticas do protagonista – que precisa passar por sua própria jornada pessoal (a de aprender a ser uma voz para seu povo) e profissional (conquistar o respeito do parlamento inglês) -, fazendo com que suas conquistas sejam “fáceis”.

Além do roteiro, a trilha sonora também decepciona. Em vez de trabalhar a tensão constante da rotina de Churchill, que vive com o peso do mundo em suas curvas costas, a trilha de Dario Marianelli (Orgulho & PreconceitoDesejo & Reparação) aposta no heróico. Todo discurso e conflito de Churchill será acompanhado por arranjos crescentes, que sugerem a ascensão do personagem. Se, na teoria, é uma ideia interessante, na prática é extremamente contrastante com os demais elementos filmicos, que trabalham sempre para criar um ambiente coercivo ao redor do protagonista. O heróico, em um cenário de urgência e perigo, só deveria surgir no clímax, mas está presente a todo momento, quebrando o tom da obra.

Desde os planos iniciais, que mostram imagens de tropas e do próprio Hitler durante a guerra, há criação de tensão e uma busca por uma atmosfera hostil para o primeiro-ministro. Essa atmosfera é trabalhada com maestria pela fotografia de Bruno Delbonnel (que merece indicações a todos os prêmios possíveis), que começa a obra desenhando cenários mais iluminados, que progressivamente se tornam mais sombrios conforme a pressão sobre o primeiro-ministro aumenta. Há ainda o uso de planos pontuais de Churchill sufocado ou cercado por grandes blocos escuros, transformando em imagem o sufocamento e o momento sombrio por qual Winston passa quando se vê encurralado e isolado politicamente.

Trazendo equilíbrio a todos os elementos cênicos, há o astro. Gary Oldman aqui entrega a grande interpretação de sua carreira, funcionando como um ímã que une tudo que há no leque cinematográfico da obra. Ajudado por um trabalho de maquiagem impecável, Oldman cria um Churchill que coleciona nuances. Há o político implacável e explosivo, que sempre se impõe e, literalmente, treme de ódio; há o homem com medo dos fracassos do passado, que afina sua voz e tem um olhar mais melancólico e postura cabisbaixa; há o homem falho e orgulhoso de seus feitos e defeitos, que curva as sobrancelhas e se comporta com mais suavidade; há o homem que busca aprender para liderar, que busca um tom de voz mais doce e olhar expressivo.

O Destino de Uma Nação conta uma história clássica com uma estética leve e moderna, de planos com muitos movimentos e montagem acelerada, dando à narrativa o dinamismo e vivacidade presentes nas palavras do orador que protagoniza. Uma pena que o roteiro, aqui peça essencial para o clímax, já que é um filme guiado por discursos do primeiro-ministro, seja tão pedestre. Tudo bem a atuação de Gary Oldman ofuscar as demais, afinal, aqui ele prova-se um titã em cena, mas o fato de Churchill ser o único personagem que mantenha alguma lógica acaba o isolando do restante do elenco. Não um isolamento alegórico, no sentido dignificante, como é o feito pela fotografia, mas um isolamento de estrutura, por falta de figuras que estejam em pé de igualdade com Winston Churchill e tragam profundidade ao filme.

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