Crítica | BlowUp – Depois Daquele Beijo

O que é que quis dizer? Eis a pergunta que me é posta com mais freqüência. Sinto-me tentado a responder: quis fazer um filme, é tudo.

– Michelangelo Antonioni

A forma como Blow-Up inicia e se encerra, automaticamente me faz lembrar da palavra: incomunicabilidade. Palavra essa, sempre atrelada a Antonioni e também a sua trilogia. Aqui, o que é valido ressaltar, é curiosamente a contradição entre essa palavra e os mímicos que estão presentes no início e no final do filme. A mímica é justamente uma forma de comunicação humana, nem sempre compreendida, às vezes banalizada e ignorada, mas continuando a ser uma importante manifestação artística.

A presença de Thomas (David Hemmings) em cena, sempre elucida um caráter misterioso, desde seu primeiro momento no filme. É possível enxergá-lo a uma longa distância, segurando algo em uma embalagem escura, o que em alguns países estaria relacionado diretamente ao consumo de álcool, que poderia ali estar escondida. Porém, em uma cena posterior, ela se revelará uma câmera fotográfica. Fotografia é sua paixão. É sua forma de comunicação, de expressão, método diferente dos mímicos, que pela primeira vez tem suas rotas convergidas com ele. Thomas chegará atrasado para o ensaio que tem agendado, trata a modelo como se fosse um nada, ele não está lá para ser simpático, carinhoso ou qualquer coisa do gênero, está ali exclusivamente para tirar fotos. Essas ações, aliadas ao próprio conjunto de atuação de Hemmings, poderiam demonstrar certo desinteresse pela sua profissão, mas a mise-en-scène construída por Antonioni mostra justamente o inverso: a total paixão por aquilo que faz. A entrega dos atores em cena, a sensualidade de seus corpos no ensaio e a intimidade que parecem ter, apenas corroboram para a conclusão de que não só Thomas está feliz em fazê-lo, como ela também – mesmo que seja tratada com indiferença.

Thomas estará em movimento durante todo o filme, as direções estão sempre se alternando, ele caminha, dirige, adentra em muitos locais diferentes, alguns dos locais que simplesmente não fazem o menor sentido para nós, mas para seu eu, fazem. Ele visita uma espécie de antiquário, é completamente mal atendido, persiste em buscar objetos antigos pelo estabelecimento, desiste e vai embora. Em uma cena posterior, ele retorna. Atendido por outra pessoa, busca por objetos, até encontrar e comprar uma hélice. Sem qualquer função aparente deseja levá-la o quanto antes, até ser convencido de ter o objeto entregue em casa. Ao ser entregue: o objeto é basicamente ignorado. Como se tivesse sido comprado por puro e simples impulso.

O que é importante? esse questionamento pode ser sempre apontado como catalisador em BlowUp, outra cena icônica é um exemplo disso: Thomas entra em um show, com a maior naturalidade e sem demonstrar qualquer reação. Ele simplesmente entrou em um show dos “The Yardbirds”, uma das bandas mais importantes da história do Rock. Mas o “problema” não estará apenas em Thomas, todos os jovens que estão presentes no show, também parecem estarem sem vida, todos observam o show atentamente sem mexer um músculo sequer, coisa que nos tempos de hoje seria simplesmente impossível – estariam todos dentro de um processo de alienação?

O único lapso de euforia está no momento em que Jeff Beck quebra sua guitarra e arremessa ao público, que como animais tentam ganhar para si os destroços de uma guitarra, não uma simples guitarra, mas a guitarra de Jeff Beck. Thomas consegue levar um pedaço da guitarra, mas com qual propósito? Afinal, qual era o propósito dos envolvidos no show? Quão fútil e indiferente pode ser um objeto como esse? Isso é justamente exemplificado no momento em que Thomas saí da casa de shows e joga na rua o destroço. Uma pessoa que está na calçada se intriga e vai buscar o objeto, quando percebe que é simplesmente um pedaço de uma guitarra – por que não seria? – , e acaba jogando fora. O que realmente interessa a nós?

Todas as questões filosóficas, contradições, paixões e ações dentro do filme, estabelecem justamente aquilo que Antonioni falou certa vez em uma entrevista: Seus filmes tratam de fatos internos e não externos. O filme se inicia com a câmera e se encerrará com ela. Thomas reencontra os mímicos, que fazem com que ele acredite naquilo que está “vendo” ou não vendo. Thomas se esvaí.

 

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