Crítica | Roma, Cidade Aberta

Por Leonardo Carvalho

Itália – 1945

Direção: Roberto Rossellini

Elenco: Anna Magnani, Marcello Pagliero, Harry Feist, Aldo Fabrizi.

 

 

Indiscutivelmente um retrato histórico. “Roma, Cidade Aberta”, o primeiro longa-metragem neorrealista italiano, o primeiro longa-metragem da trilogia da guerra de Roberto Rossellini. Junto ao término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a película foi lançada (as filmagens começaram dois meses após o término da batalha) com um grau de importância infinita em um documento encenado com grande nível de sensação de realismo.

O realismo não é nem mesmo um termo que gosto de usar, é perigoso. Nem mesmo os documentários observativos são realistas, nenhuma obra arte é, ainda mais uma ficção. O neorrealismo está na fronteira de ambos, busca atores amadores, viventes do grande conflito mundial. Para aumentar a sensação do real, termo mais bem colocado, as locações são reais, não foram construídas artificialmente, portanto, estão o estilo está mais próximo, sim, do real, pois não parece, apenas não parece, ser encenado.

A paisagem é um fator fundamental no cinema neorrealista. Não é apenas por ser um aspecto da fotografia que choca, muitas vezes pelos destroços cristalizados no fundo da imagem, muito comum em “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica, mas pela forma como alguns recursos são instalados. A exemplo, em “Roma, Cidade Aberta”, a parte em que um prédio de habitantes locais é cercado pelos nazistas e a sensação dada é a de perigo extremo, de claustrofobia, medo, um recurso mais do que apavorante no cinema até os dias de hoje.

Aliás, a película que está sendo analisada aqui é composta por uma gradação crescente de tensão. Já nos primeiros segundos, sem o espectador se acomodar em sua poltrona, Rossellini descarrega uma fuga de um italiano e a visita de soldados nazistas em busca do mesmo. A tensão já está implantada antes que possamos entender quem são os personagens e o que eles fizeram, se é que fizeram algo contra os dogmas nazi-fascistas.

Percebe-se, pouco a pouco, uma evolução no suspense. Como uma vanguarda, ou seja, avant-garde, do francês, da parte frontal de um exército marchando em busca de seu objetivo de conflito, o filme parece seguir o mesmo ritmo. Cada vez mais, a sensação dada é a de que estamos nos aproximando de uma grande batalha, de que as coisas explodirão a qualquer momento. Após a cena descrita cima, a tensão resume-se, por um bom tempo, nos diálogos. Não deixa de ser menos tenso, mas não choca tanto, um fator utilizado por Rossellini para haver a calmaria da narrativa e poder, alternadamente, impactar com imagens fortes em pontos precisos.

Depois de algum tempo de calmaria no ritmo, não em relação aos momentos dos personagens, pois há tensão o tempo inteiro pela sensação de medo lida e ouvida pelos diálogos, Francesco, uma das figuras principais, é capturado, e logo depois a personagem da gigante Anna Magnani, uma das poucas atrizes do elenco com experiência antecessora, é cruamente assassinada pelo exército nazista. É uma cena seca, surpreendente pelo o que acaba se desenrolando, chocante pela reação do menino Marcello, um inocente garoto, um inocente garoto que não sabe muito bem o que está acontecendo, ao mesmo tempo que participa da batalha e sabe quem é os inimigos. Diz mais ou menos assim ao padre em determinada situação: “Não há tempo para rezar, temos que nos unir contra os inimigos.”.

A religião, aliás, é contestada durante aquele grande conflito. Será que deus existe? Por qual razão deus deixa com que tudo isso aconteça? Mais ou menos assim pensa a personagem Pina, de Anna Magnani, antes de sua morte, quando está perdendo sua fé. Até mesmo o padre tende a desejar o pior aos nazistas mais ao final, embora esteja arrependido logo depois de desejar o pior. De qualquer forma, a fé chega a ser balançada. A batalha retratada, tão forte na Itália, foi de deixar, pelo o que sabemos pelos filmes, livros literários e livros informativos, que a fé de qualquer um era cabível a ser balançada por causa dos extremos vividos pelos italianos.

Em meio a isso, uma trilha musical é pontualmente reunida para compor uma dramaticidade ainda maior. Se a cena com a sensação de maior realidade já não bastasse, a música chega, ainda, para intensificar, sempre nas cenas mais chocantes ou nas cenas de maior insegurança. A exemplo, a parte em que um soldado nazista saca uma pistola quando está próximo ao padre, em uma mesa.

Mais forte que a situação descrita acima é, sem dúvidas, o clímax. Um ápice igualmente tenso, marcado também pelo testemunho infantil, como na cena do assassinato de Pina, em uma quebra de expectativa imensa. O padre Pietro é condenado ao fuzilamento após descobertas feitas pelos militares nazistas. Ele reza e é rezado por um outro padre antes da execução. Os soldados hesitam em atirar, parece que o padre sobreviverá, mas um militar nazista de patente mais alta, de forma crua, assassina o padre e o filme é encerrado com os meninos, as testemunhas, indo embora do local. A imagem abre para uma vista geral de Roma em uma espécie de luto, sendo um recomeço, já que as crianças estão em soma com a cidade, ou seja, são o futuro daquela nação.

O grau de realismo só contribuiu para que tudo ficasse mais impactante. A verdade é que aquele pontapé inicial de Rossellini no cinema neorrealista italiano expandiu-se para um dos estilos de época mais positivos da história do cinema. Não só nos filmes, mas a literatura de Alberto Moravia, principalmente a de Italo Calvino e a de Cesare Pavese, entre outros autores, foi uma forma de resistir à guerra e colocar a rezistenza partegiana no protagonismo. É preciso lembrar, é necessário lembrar, que até os dias de hoje a Itália revive, resiste ao conflito através das artes, a cultura italiana é muito marcada por tal batalha, com um sentimento muito abertamente falado, um evento traumático ao país da bota.

 

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