Crítica | 8 e ½

Por Matheus Petris

O cinema deve ser, entre todas as formas e expressões artísticas, aquela que se parece mais com a vida. – Federico Fellini

Falar de um filme como 8½, geralmente concebe-se críticas, sejam elas positivas ou negativas. Ele é sempre lembrado dentro da cultura cinéfila, seja por meio de debates, textos ou mesmo listas, algo muito comum dentro do estudo do cinema. Por esses detalhes e, principalmente, pela complexidade e profundidade do filme, torna-se um enorme desafio; Buscar coisas não ditas, não escritas, é realmente possível? É justamente nisso que concerne o x da questão. A profundidade dos personagens torna essa possibilidade alcançável. Afinal, são dessas magnitudes que são compostos os grandes filmes. Por falar em personagens, eles são muitos, todo qual com sua idiossincrasia. Os dilemas pessoais muitas vezes nem são configuráveis – pelo menos de imediato – mas são cruzados e esclarecidos. Mastroianni é Guido, que para muitas interpretações, são como projeções de Fellini. O mesmo já negou essa teoria. O que pode soar contraditório, vindo “do grande mentiroso”. Mas a questão aqui é Guido, que passa pela terrível sensação do “não saber”, ou, no caso mais extremo dele, de não fazer a mínima ideia. A crise criativa é como um fantasma que assombra qualquer ser, mas principalmente aqueles que vivem sob a tutela de tais “criações”.

Toda essa incerteza é maximizada no ritmo da montagem, na mise-en-scéne e, também nos diálogos – que são intensos e fugazes. Guido, como diretor, é cercado o tempo todo, questionado, desafiado, encurralado, entre outros tantos momentos, mas a questão é: quanto mais buscava paz e silêncio, o inverso se estabelecia, indo de encontro com conflitos pessoas de um âmbito sentimental intenso, como sua relação com amante e esposa. o que intensifica ainda mais suas incontáveis dúvidas. O cansaço também é extremo, Guido tentará (ou já está dormindo?) dormir inúmeras vezes, em alguns momentos seus sonhos (ou alucinações?) são explicitados, em outros não. O que é ficção, onirismo e metalinguagem? O seu cansaço, sonhos e mazelas se misturam com suas lembranças, elas estimulam e o confundem ao mesmo tempo, fazendo com que sua crise não só se intensifique, como se alternam entre vislumbres de possíveis ideias.

A religião – como em quase todos os filmes de Fellini – está bem presente em 8½, algo que pode ser novamente relacionado a Guido e Fellini, ambos católicos, foram educados e doutrinados dentro desses ideais. O que nos volta ao questionamento: Fellini e Guido são paralelos?

Damien Pettigrew em entrevista – que posteriormente foi editada e publicado como livro – questiona Fellini sobre o seguinte:

– O senhor possui inteiramente a estrutura ou a forma de um filme antes de começar a escrever?

– Sem dúvida. Um filme, mesmo se sua realização é muito complexa e demanda muito tempo pode, com efeito, existir dentro de uma sensação, uma suspeita, uma antecipação: pode ser como um flash de luz, um som… É o discurso habitual que fazemos a propósito de uma obra de arte que pode fazê-la antecipar-se anunciar-se a seu autor, mesmo por um perfume. Dizem-se tantas coisas… Mas creio que é verdadeiro, mesmo se a ideia é um pouco romântica. A vida inteira pode ser sugerida pelo tremor de uma folha, que contém o universo inteiro. mas não é somente assim. É certo que um filme pode nascer da nuance de um cor, de uma lembrança, de uma voz, de duas notas de música. Entretanto eu tenho necessidade de criar tudo isso, de construir verdadeiramente os personagens, os objetos os ornamentos, a cenografia, e mesmo as paisagens. […]

Essa resposta consegue mesclar sinteticamente os anseios de Guido, e ao mesmo tempo contradizer novamente a relação dele com Fellini. Se Guido, não esteve em nenhum momento com o filme estabelecido em sua cabeça, ao mesmo tempo isso traz um pouco da relação pessoal de Fellini com o cinema – quando Guido tenta construir sua narrativa por meio de lembranças, por exemplo.

“A fuga” é não só a desistência de Guido, como o momento de catarse, sua desistência de tudo. Ele se colocará abaixo de uma mesa, onde comete suicídio. Do ponto de vista Freudiano, a metáfora pode soar como a desistência do Guido real, não do sonho. Se ele se suicida no sonho, é por simplesmente saber que não será possível concluir ou chegar ao menos próximo de seu objetivo. Se pensarmos na teoria dos sonhos Freudiana, mesmo que sinteticamente, conseguimos vislumbrar uma relação direta entre Guido e seus desejos e anseios. “O sonho é a realização dos desejos reprimidos quando o homem está consciente” (Freud, 1900).

A catarse é rompida, o sonho revelado, mas a realidade também lhe é dura, o filme não acontecerá, foi tudo em vão, todo o cenário, com sua construção monumental será desmontada, assim como o próprio sonho de filmar. A mistura metalinguística – ocorre literalmente – o elenco se junta e dançam embalados com a mesma trilha que se repete diversas vezes ao longo do filme, sempre perpassando os sentimentos de Guido, mas aqui, tudo isso tem um sentido diferente, a forma é outra, o círculo se abre e todos cantarolam e encerram o filme, o filme sobre Guido, o filme de Fellini, aquele que consegue – como poucos – transmitir seu amor ao cinema.  

 

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