O Horror Italiano, o Diálogo Entre o Cult e o Popular

Por Leonardo Carvalho

 

Quando pensamos no cinema italiano, lembramos imediatamente de Fellini e o onírico; de Pasolini e sua performance de estranhamento poético; Leone e os spaghetti western; os neorrealistas de De Sica, com a figura do pobre idoso e da pobre criança em uma devastada Itália, e Rossellini com a abertura de Roma, o recomeço da Itália no pós-Segunda Guerra Mundial e o retrato doloroso da destruição na trilogia da guerra. Quando pensamos no terror, lembramos imediatamente, e cronologicamente, dos clássicos da Universal dos anos 1930 e início dos anos 1940; de Alfred Hitchcock e a ascensão do suspense; dos slashers dos anos 1980; dos found footage na afirmação pós-2000.

É difícil pensarmos imediatamente no terror italiano. É preciso pensar, todavia, que o horror cinematográfico da bota é um dos mais apreciados do mundo, tendo diversos diretores, com uma tríade principal – Dario Argento, Lucio Fulci e Mario Bava – de muito reconhecimento, chegando a um bom nível de popularidade. Os filmes italianos do gênero conduzem um diálogo perfeito entre o rebuscado, o cult por sua estética, e o popular, contendo boas doses de suspense perfeitamente plausíveis para quem busca o entretenimento.

Como um subgênero, o horror italiano é mais conhecido como o giallo. “Amarelo” em italiano, os gialli são baseados nos antigos livros policiais de capa amarela que eram lançados na Itália, por isso os filmes que continham elementos do livro eram classificados como “giallo”. Se houvesse um assassino em série, um detetive, um suspense conduzido por assassinatos brutais e uma revelação final surpreendente, era um giallo. Mais ou menos como os noir dos anos 1940 e 1950 nos Estados Unidos, os gialli ganharam forças nos 1960 e 1970 com alguns dos diretores citados no parágrafo acima.

A verdade é que os slashers estadunidenses foram amplamente inspirados pelos gialli. Se houve uma representação de influência dos noir sobre os gialli, é verdade que estes influenciaram, e muito, os slashers de Michael Myers, Jason e Freddy. Não pela questão da monstruosidade, do encontro com o fantástico, mas pelas cenas agonizantes pautadas por mutilações brutais. Sobre os três ícones do terror popular, Michael Myers é o que mais se aproxima dos gialli, sendo uma figura misteriosa, cruel e com uma presença incalculável para causar tensão. Muito existe em comum entre os subgêneros, o slasher e o giallo.

O sucesso dos gialli foram tão expressivos que conquistaram bilheterias relativamente grandes, na Itália e fora dela. Além disso, alguns dos filmes italianos do gênero contaram com a participação de figuras lendárias do horror, como Black Sabbath – As Três Máscaras do Terror (1963), com a ilustre participação do britânico Boris Karloff, ícone nos monstros da Universal dos anos 1930. Barbara Steele, também britânica, chegou a trabalhar com Roger Corman, com David Cronenberg, mas foi no horror italiano que a mesma ficou reconhecida, sobretudo por seu trabalho com Bava em A Maldição do Demônio (1960).

Em termos mais estéticos, Mario Bava era um exímio explorador da fotografia em todos os sentidos. Com excelência, entendia a iluminação como poucos, resgatou o expressionismo alemão no jogo de luz e sombra, isolava, por vezes, o fundo de um cômodo do cenário para que colocasse, mais iluminado e em primeiro plano, a monstruosidade revelada de uma figura. Um outro recurso fotográfico, trabalhado em conjunto com a direção de arte, era a utilização de cores, muitas vezes avermelhadas para contrastar com a escuridão, vermelhidão que indicava um ambiente bizarro, de indicação de sangue e assassinato. Por fim, deve-se focalizar na utilização de planos, em que os enquadramentos mais fechados eram incríveis para saborear a imagem de horror, justamente pela aproximação extrema, de close-up, também para haver uma ênfase em uma revelação monstruosa, às vezes para captar o pavor, como fez junto às performances de Barbara Steele.

Falando em vermelho, Dario Argento – um dos roteiristas do irreparável Era um Vez no Oeste (1968) –, era um dos mais técnicos diretores dessa leva gótica italiana, soube hiperbolizar com perfeição a utilização dos vários tons do vermelho em Suspiria (1977). O longa-metragem, importante expoente do horror da bota, banhou as telas de vermelho, um vermelho que lembrava todo o clima inseguro, de alerta, naquela casa onde ficavam reunidas diversas meninas praticantes da dança. Por lá, no fundo (no duplo sentido da palavra), existia uma seita satânica, fazendo com que o vermelho fosse mais uma vez acionado, para lembrar o fogo, o inferno. Aliás, a bruxaria da película é de causar uma atmosfera tão grande de medo como poucos souberam criar.

Para finalizar a tríade, não podemos esquecer de Lucio Fulci. Considerado um dos grandes nomes de um outro subgênero do horror, o gore. Embora o italiano seja importante na popularização dos gialli, fez muitos deles, foi no gore que se afirmou. Zombie 2 (1979), com uma jogada de marketing genial, esperado mundialmente como a sequência de um dos clássicos de George A. Romero, é o filme mais notório da carreira do cineasta. É nele que há a maior exploração de sequências pesadas muito bem pautadas pela maquiagem, recurso extremamente importante para que mutilações sejam construídas, aspecto essencial no gore, a violência gráfica, a nojeira explícita, um tipo de filme em que é preciso ter estômago forte.

Na altura dos anos 1980, o terror italiano foi perdendo o seu prestígio, mesmo com a presença de Fulci e Argento em alguns casos. Surgiram obras nem tão positivas do ponto de vista técnico, mas revolucionariamente corajosas, como Holocausto Canibal (1980), de Ruggero Deodato, mas tudo parou por aí. Holocausto é um found footage, o pioneiro do subgênero no terror, polêmico por ser acusado de ser um snuff – subgênero em que as pessoas realmente morrem nas filmagens –, mas desmentido depois de inúmeras acusações. Mesmo com uma queda brusca no pós-1980, a verdade é que o horror italiano no cinema é um dos mais importantes do mundo em todas as suas vertentes, no giallo, no terror mais tradicional, no gore.

 

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