Crítica | Lucky

Por Matheus Fiore

Direção: David Carroll Lynch
Estados Unidos – 2017
Nome Original: Lucky
Elenco: Harry Dean Stanton, David Lynch, Rog Livingston & Ed Begley Jr.

Em 1957, Ingmar Bergman entregava ao mundo uma de suas mais importantes obras-primas, Morangos Silvestres. O filme, que acompanha uma viagem do professor Borg (Victor Sjöström) para receber um prêmio, tece uma bela e filosófica reflexão sobre a aceitação da morte (tema recorrente na filmografia do lendário cineasta). A obra acabou sendo o último trabalho de Sjöström, e até hoje é lembrada não só por sua relevância para o cinema, mas pelo belo epitáfio que é para o ator e diretor sueco. Sessenta anos depois, John Carroll Lynch proporciona a Harry Dean Stanton um cenário parecido. O ator de carreira discreta (mas brilhante) fez sua história em clássicos como Paris, TexasAlien: O Oitavo Passageiro, e ganha em Lucky, seu último papel (o ator faleceu em setembro de 2017), uma chance de deixar seu epitáfio, que, assim como o de Sjöström, funciona como uma reflexão sobre vida, morte e como lidamos com essas duas experiências.

A trama nos joga no dia-a-dia de Lucky, um nonagenário que, descrente de qualquer existência de vida extrafísica (nitidamente o personagem é um ateu convicto), apenas aguarda sua inevitável morte enquanto passeia pela interiorana cidade onde habita, localizada no meio de um deserto. A trama, então, acompanha a simples rotina de Lucky, desde seu despertar até os últimos cigarros antes de ir dormir. Na exploração do dia-a-dia do protagonista, Lynch é preciso ao utilizar pequenos elementos do lar do idoso para estabelecer seu desprendimento à vida. A geladeira de Lucky, por exemplo, está sempre vazia, ocupada apenas por um par de garrafas de leite. Sem esperança na possibilidade de viver por mais alguns anos, Lucky vive quase de subsistência, comprando e consumindo apenas o necessário – por exemplo: o personagem vai ao mercado local diariamente comprar seu leite, em vez de comprar em quantidade e manter em sua casa.

O trabalho do cinematografista Tim Suhrstedt segue a pacatez da vida de Lucky, desde o uso constante de planos extremamente estáticos, que, pela ausência de movimento, destacam o ócio da rotina do personagem, até a exploração do cenário como um personagem. Boa parte dos takes externos de Lucky trazem o personagem caminhando fotografado sob planos abertos, que ressaltam o deserto que cerca a cidade, deixando o personagem inserido nas ambientações de tal forma que, às vezes, mais parece um integrante daquele cenário árido e seco do que um ser humano. Já nas cenas ambientadas em locais fechados, Lucky usa mais planos médios e fechados, que não fazem questão de acompanhar o deslocamento do personagem, mesmo que para isso mantenham-se afastados dele, criando uma ociosidade que transpassa Lucky e torna-se uma característica da própria câmera do longa.

Pela ausência de qualquer fator novo na vida de Lucky, o roteiro dos estreantes Logan Sparks e Drago Sumonja dá realismo à obra, não introduzindo grandes conflitos ao arco do protagonista. Aliás, mal se pode dizer que há um arco. A narrativa in media res – isto é, que começa já durante o desenrolar a história do personagem – opta por fazer um recorte muito específico de um período da vida do homem, o que permite que contemplemos sua rotina e como ele superdimensiona pequenos eventos da vida. Sua fixação por consertar o relógio da máquina de café, por exemplo, ganha contornos dramáticos graças ao ócio do personagem: perceba-se como a luz vermelha do relógio começa como um pequeno reflexo nos óculos de Lucky, até que, conforme ele se irrita com o defeito da máquina, a luz passa a consumir, em alguns segundos, todo o seu rosto.

O elenco de apoio também é importante para o desenvolvimento da narrativa. O personagem de David Lynch (sim, o próprio), Howard, por exemplo, traz na relação entre ele e seu bicho de estimação (um cágado que fugiu de seu lar) uma bela metáfora sobre a impossibilidade de nós, humanos, controlarmos a vida. Assim como Howard investe tudo que tem na busca por seu amigo quelônio, todos os personagens, de alguma forma, exprimem uma infrutífera vontade de exercer controle sobre forças que estão além de sua alçada. É justamente na compreensão de que a morte é um caminho inevitável, que fecha um ciclo finito, que Lucky e os demais personagens encontram compreendem a beleza da vida. A finitude é edificante.

★★★★

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