Crítica | Ladrões de Bicicleta

Por Matheus Fiore

Direção: Vittorio de Sica

Itália – 1948

Considerando todo o contexto sócio-político da Itália na década de 40, é difícil não ver Ladrões de Bicicleta como um dos mais relevantes filmes da história do cinema. Dirigida pelo lendário Vittorio De Sica, a obra não só é uma das principais faces do Neorrealismo Italiano como também a magnum opus do cineasta, que aqui, como em boa parte de sua filmografia, retrata a situação de miséria extrema que foi a realidade de boa parte do povo italiano na Itália pós-segunda guerra mundial. A trama – a mais simples possível – acompanha Antonio Ricci, um pai de família romano que consegue um emprego como colador de cartazes. Um dia, porém, sua bicicleta é roubada – e o item era obrigatório para manutenção do trabalho -, e então, Antonio parte em uma jornada pelas ruas da cidade em busca do item perdido a fim de manter seu emprego.

A fotografia de Carlo Montuori é brilhante ao construir o clima de depressão da Itália da década de quarenta. Com muitos planos gerais que enquadram poucos prédios (geralmente abandonados) nas laterais do quadro, o foco é sempre mostrar paisagens vazias e solitárias, retratando o sentimento do povo daquela época. Também auxiliando a estabelecer tal relação, a escolha de De Sica de só trabalhar com atores amadores é eficiente. Com atuações simples mas extremamente emotivas, é natural que os atores tenham facilidade de demonstrar emoção, já que vivem na tela eventos que presenciaram em seu dia-a-dia.

Trabalhando a tensão pré-furto, De Sica utiliza muitos planos que deixam a bicicleta no canto do quadro, quase desaparecendo e sempre em áreas externas, o que cria a sensação de que a qualquer momento ela pode ser perdida ou tomada. Também é interessante a escolha de sutis travellings que aproximam a câmera de Antonio enquanto ele conversa com alguém, fazendo com que a bicicleta, aos poucos, desapareça do quadro. Outra constante escolha de De Sica são os planos médios que mostram o olhar desamparado e perdido de Antonio, o protagonista, alternados por planos gerais que mostram as ruas de Roma lotadas de carros e pedestres, sem um ponto de fuga específico, o que ajuda a inserir o espectador na psique desorientada do protagonista.

A insistência de fazer takes externos retratando grandes construções abandonadas ou depredadas em contraste com as pequenas figuras de Antonio e seu filho, Bruno, também são imprescindíveis para estabelecer a fragilidade do país naquele momento como também a dos personagens, sempre apequenados diante da situação. E se toda a melancolia da situação de Antonio não for suficiente para comover o público, a construção de seu filho será. Sempre retratado como uma criança dócil e infeliz por não ter condições de viver sua infância de forma digna, Bruno cresce num mundo hostil e desigual, características bem retratadas em cenas como quando o jovem quase é atropelado enquanto acompanha seu pai na rua e quando é levado para jantar, sentindo-se incomodado por ver as crianças da mesa ao lado fazendo fartas refeições, enquanto seu pai não tem condições de lhe prover mais do que um simples macarrão.

Ao longo de seu filme, De Sica constrói aos poucos o caminho para o clímax, quando o protagonista finalmente se torna um ladrão de bicicleta. O descaso da polícia com o furto e todas as pessoas em situação de miséria que passam pelo caminho do personagem aos poucos criam o terreno para que o próprio Antonio ceda ao desespero, que, ao fim do filme, o leva a tentar furtar uma bicicleta. De Sica, então, transforma sua narrativa em um ciclo com uma análise social, de como o desespero e a falta de perspectiva levam as pessoas à cometerem atos reprováveis (como o furto). E vai além ao sempre destacar os olhares desesperançosos e amedrontados de Bruno, uma criança que cresce e vive numa sociedade devastada emocionalmente, que deixará a melancolia como herança para sua geração.

Com a manutenção de planos que sempre trazem Antonio e Bruno caminhando para locais fora do quadro, Ladrões de Bicicleta é brilhante ao retratar o labirinto sem fim que se tornou a jornada da dupla em busca da bicicleta. Sempre levando a muros ou paisagens abertas que não trazem perspectiva nenhuma. É natural, então, que o resultado seja vermos o protagonista na mesmíssima situação que um dos responsáveis pelo roubo esteve: observando uma bicicleta encostada, olhando para os lados pensativo, avaliando se deveria ou não furtá-la. O clássico plano com Antonio e Bruno sentados no meio-fio, procurando uma saída para o desespero que tomou conta de suas mentes, é um retrato perfeito de tudo que a obra tem a dizer. Histórico, criativo e emocionante, Ladrões de Bicicletas é um exemplar perfeito do cinema neorrealista de De Sica, que expõe a miséria humana de forma poética e questionadora.

 

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