Crítica | Saló ou os 120 Dias de Sodoma

Por Leonardo Carvalho

Itália – 1975
Direção – Pier Paolo Pasolini

A brutalidade pasoliniana muito conhecida por causa de “Saló, ou os 120 Dias de Sodoma” começa na fala de um soldado nazi-fascista: “as coisas são boas quando usadas em excesso.”. Aparentemente aquilo não parece ser brutal; com o passar do tempo, porém, entendemos a frase, mesmo que por vias diferentes de interpretação. Mais tarde o leitor entenderá as razões pelas quais a frase é tão marcante, pelo menos com uma via de interpretação específica.

Pier Paolo Pasolini, não só um homem do cinema, mas em primeiro lugar da poesia, do pensamento social ocidental, um grande observador das transformações preocupantes da língua italiana junto aos dialetos. Suas palavras são fortes para compor suas obras, como é o caso de “Saló”. Isso não ocorre somente pelas parolacce, mas também pela maneira de compor frases agressivas, muito diretas em suas intenções, desconsertantes em alguns casos pela forma como os donos da mansão protagonista da película ordenam seus escravos sexuais a realizarem tais atos grotescos.

Se nas palavras existe a dureza necessária para chocar o espectador, o mesmo da agressividade está nas imagens, sendo um fator ainda mais brutal, pois a imagem, naturalmente, choca mais do que a fala, e de acordo com a lei do cinema, uma imagem vale mais do que mil palavras. Em primeiro lugar, não há modos de poupar a nudez, ela é explícita. Não que o nu seja algo agressivo, mas a forma como a escravização sexual é feita faz com que a nudez seja, sim, um fator de brutalidade. As imagens, também vão, pouco a pouco, tornando-se mais fortes. Em uma gradação crescente, cada vez mais a trama evolui em seu nível de tensão, por isso é duro digerir “Saló, ou os 120 Dias de Sodoma” até o final.

A dificuldade ocorre por toda a composição estranha, que está, em primeira mão, pelas imagens fortes e pelas situações sugestivamente fortes. Uma delas, por exemplo, é a rápida cena em que uma menina come um alimento, uma espécie de um bolo, com pregos em seu interior. A cena é curta, é verdade, mas extremamente impactante. Os poucos segundos que a menina demora para colocar a comida na boca nos faz criar agonias, expectativas de uma brutalidade sem tamanho. Os poucos segundos transformam-se em longos minutos. Quando ela mastiga, então, e o sangue passa a escorrer pelos cantos da boca, há o grande choque.

A mais forte cena, porém, em termos de imagem, é a sequência de tomadas com as fezes sendo o grande elemento da situação. Bizarro, grotesco, nojento, mas poético. É uma poesia extremamente incômoda pela ideia de que os limites são ultrapassados até que se extrapole ao máximo a condição humana. A sequência de tomadas é relativamente longa, e se levarmos em conta que os personagens, as vítimas principalmente, estão sendo forçadas a ingerir o excremento, tudo fica ainda mais difícil de assistir.

Pior, pedaços das fezes ficam penduradas ao redor do rosto das pessoas, o que alonga as fezes como o elemento principal da imagem, além de mostrar, inteiramente, o esterco em bandejas e pratos. Não é nada gratuito, Pasolini não compõe dessa maneira somente como uma forma de impactar através da náusea causada pelo momento, mas tudo isso possui fundo poético, como já foi dito, sobre a ultrapassagem dos limites humanos, tendo, no caso do filme, um plano de fundo relacionado ao conteúdo sexual. Os caminhos podem ser pensados em diversas formas, como algumas das interpretações abaixo.

“Saló” é, sem dúvidas, duríssimo, apenas se houvesse as descrições acima. O filme é difícil, também, pela razão de haver metáforas soturnamente brutais. “Saló” não se resume à perversidade sexual, mas à perversidade humana, à falta de liberdade. O sadismo está, também, no que o próprio Pasolini chama de neofascismo, um fascismo pós-guerra, aquele que nos obriga, direta ou indiretamente, a consumir cada vez mais, a tornarmo-nos padronizados, tornamo-nos máquinas; cada um de nós é uma célula que serve de alimento a um forte mercado de consumismo; somos a cidade de Leônia em “As Cidades Invisíveis”, de Italo Calvino, ao empilharmos o lixo; somos os destruidores dos muros de Sana’a, no Iêmen, como Pasolini mesmo documentou com um forte tom melancólico. Não estamos satisfeito somente ao consumo, buscamos o consumismo, o excesso, ultrapassamos os limites em diversos sentidos para sermos o padrão.

Não somos livres, pelos menos a maioria não é, pois somos coordenados pela indústria do consumo, somos um padrão, seguimos o que é ditado para que um indivíduo seja o padrão em termos de beleza, em termos de materiais, entre outros fatores. Quem não é padrão, de alguma forma, é punido, seja por uma autopunição ou por uma punição por terceiros. Os indivíduos comuns são vigiados e punidos, quem não é padrão é, naturalmente, errado, torna-se um escravo da indústria, não há liberdade.

Lembramos, com isso, de “O Olho mais Azul”, de Toni Morrison, em que uma ideia de inferioridade é instalada por uma menina negra que quer ter seus olhos tão azuis quanto os olhos das pessoas de beleza padrão. O “azul” do título está simbolizado, também, na tristeza. Lembramos, outrossim, do panoptismo linguístico, em que não temos a liberdade para falar da forma mais livre possível, temos que nos moldar em nossas conjugações verbais e na pronúncia das palavras, caso contrário, somos taxados como os errados, precisamos seguir, mais uma vez, o padrão. O neofascismo faz com que tenhamos de ser um padrão.

O resultado de toda essa falta de liberdade está nas expressões dos jovens raptados para o interior daquela mansão. Expressões de pavor, de desespero e tristeza. Não é preciso haver um close-up para entendermos tal expressão, pois mesmo no fundo de um enquadramento é possível entender as faces traçadas de dor. Aliás, a satisfação do sadismo só funciona enquanto o indivíduo passivo não sente prazer nas brutalidades feitas pelo sádico, elemento muito focalizado na figura do duque, um dos responsáveis pelos atos ocorridos na mansão.

Alguns dos principais problemas já presenciados por Pasolini enquanto estava vivo, muitos problemas vistos logo no cenário pós-guerra, foram marcados por símbolos sujos e desconsertantes ao longo de uma das obras mais difíceis e duras da história do cinema. “Saló” foi o último longa-metragem do cineasta italiano, um epitáfio poético muito interessante se pensarmos no que foi traduzida a vida do diretor, de lutas e mais lutas nos mais diversos campos sociais.

 

CONFIRA A REVISTA CINEPLOT | MESTRES ITALIANOS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *