Crítica | Arroz Amargo

Por Philippe Leão

Direção: Giuseppe de Santis

Itália – 1949

Elenco: Adriana Sivieri; Anna Maestri; Antonio Nediani; Carlo Mazzarella; Checco Rissone; Dody Ristori; Doris Dowling; Ermanno Randi; Isabella Zennaro; Lia Corelli; Maria Capuzzo; Maria Grazia Francia; Mariano Englen; Mariemma Bardi; Nico Pepe; Raf Vallone; Silvana Mangano; Vittorio Gassman

Arroz Amargo, de Giuseppe de Santis – um dos idealizadores do movimento neorrealista na Itália – é um filme que se equilibra em uma linha entre o realismo social, provindo do Neorrealismo, e o cinema noir, policial. Os motivos para tal atravessam alguns problemas históricos que acabam interferindo o desenvolver narrativo de Arroz Amargo.

Lançado no ano de 1949, o longa-metragem acaba ganhando características de um neorrealismo tardio. Após a queda do Partido Comunista Italiano e a entrada do PDC – Partido Democrata Cristão – houveram uma série de censuras nos filmes dentro do país que acabaram por provocar o esvaziamento do movimento. O partido então no poder passa a boicotar qualquer intuito de acusação social, acusando-os de apologia comunista.

Nesse contexto surge Arroz Amargo. A corda bamba dita no início está relacionada justamente à sua característica de acusação mascarada de filme policial. O filme contará a história de plantadoras de arroz e as acusações às duras condições de trabalho impostas na lavoura e um motor promovido pela luta de classes. Obviamente, contudo, uma temática como essa cairia na malha fina da censura. Para que tal demérito não ocorresse, foi acrescentado um contexto policial na trama, envolvendo o roubo de um colar de diamantes que, na verdade, pouco importa para o desenrolar da história.

Assim, o realismo e a acusação social ficam em um segundo plano, nas entrelinhas. Quando aparecem, contudo, são as mais potentes cenas do filme. Em especial na lavoura, onde duas grandes cenas carregam uma carga dramática muito forte impulsionada pela estonteante Silvana Mangano e a vigorosa Doris Dowling.

Pondo em primeiro plano, portanto, o roubo ao colar introduzirá o personagem do versátil Vittorio Gassman, que irá, em sua presença, criar uma dialética entre as duas personagens principais. De um lado Francesca (Doriz Dowling), cumplice de Walter (Vittorio Gassman) que chega à lavoura por acaso após uma perseguição policial. De outro Silvana (Silvana Gassman), que descobre o colar e sonha em uma ascensão social, deixando de lado princípios morais.

Silvana Mangano marca o início da era das divas no cinema italiano.

Este jogo de máscaras narrativos na história de Arroz Amargo teve como resultado um excelente público que pode contar com uma trama divertida e, ao mesmo tempo, dramática. Algumas características do Neorrealismo ainda estão presentes: A denúncia de explorações de trabalhadores no campo, locações naturais e o uso de não-atores no núcleo coadjuvante. Contudo, é também um filme que marca a ascensão das grandes divas do Cinema Italiano, visando atingir um maior público. A valorização do corpo é mais uma característica que não está presente no realismo social italiano e que, em Arroz Amargo, ganha enfoque, dando caminho para um novo cinema no país.

A narrativa conta com uma montagem que, assim como as temáticas que propõe, varia características realistas e noir. A proposta cria certo estranhamento inicial, mas que, logo após, faz as cenas mais realistas ganharem força em relação as demais, tendo maior voz em meio às outras imagens.

Por fim, Arroz Amargo criará uma temática em primeiro plano que, na verdade, funciona como segundo. Uma alternativa encontrada em meio a um contexto histórico conturbado que gerou um bom resultado em alguns momentos, mas em outros uma impressão de banalidade dos momentos noir – já que o segundo plano tem mais força que o primeiro. Ao trabalhar na corda bamba, Arroz Amargo é um bom resultado de um filme que acaba se tornando datado em meio aos conflitos de seu tempo.

 

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