Crítica | O Posto

Por Leonardo Carvalho

Direção: Ermanno Olmi
Itália – 1961

Como um grande nome e protetor do cinema italiano, Ermanno Olmi chegou a bater de frente com o cinema hollywoodiano quando este vivia grande momentos em sua história. Mantendo traços neorrealistas (classificado, inclusive, como um autor de segunda fase neorrealista), como em “O Posto”, obra que será analisada aqui, o cineasta organiza a narrativa de uma forma bastante equilibrada em sua proposta.

São pedaços de vida que estão sendo narrados em “O Posto”. No protagonismo, Domenico é um garoto comum com uma vida comum, precisa arrumar um emprego para ajudar seus pais. Ele sai de um pequeno vilarejo em busca do trabalho, vai à cidade grande, Milão.

No começo as coisas acontecem rapidamente, a obra já introduz o garoto na busca pelo emprego, ainda que saibamos que ele é lento, um garoto simples, muito calmo. Ele está assim o tempo todo, embora se adapte às situações do sistema industrial, conhece uma menina e a acha interessante, sai de sua posição mais passiva ao estar próximo dela.

Em meio a uma cidade caótica, com cenários em construção, cenários reais, recurso neorrealista, o garoto passeia pela cidade e acompanhamos os seus passos. Por lá, britadeiras racham o solo, prédios são levantados, entre outros movimentos de progressão em uma cidade. A paisagem é um aspecto muito importante para a evolução do cinema italiano.

Se o neorrealismo foi importante na busca de arquivar aqueles cenários urbanos reais em sua filmografia, “O Posto” faz o mesmo, ainda que não busque paisagens destruídas pela guerra, mas paisagens de construção, de levantamento de uma cidade grande, como é Milão. Pensamos, através disso, até onde essa progressão é boa.

Tudo bem, a progressão emprega milhares, constrói centros culturais, a progressão é fundamental para isso, mas a lógica industrial é perigosa na forma sistemática de como distribui os trabalhos. Mais ao final da narrativa, um homem reclama que por mais de vinte anos está trabalhando de frente para uma luminária, aquilo o está cegando, e os indivíduos de cargos mais altos pouco se importam com isso, estão mais preocupados com a carga produtiva, mal sabem quem é aquele sujeito.

O ritmo lento da película é capaz de fazer com que o público entenda muito bem as lógicas dos grandes centros empresariais, desenvolve com facilidade toda a sistematização. Desde o começo, entramos nas companhias junto ao garoto, entendemos o processo de seleção, a forma como contratam, que na verdade é um processo de exclusão, não de inclusão.

O mesmo ritmo lento da película é capaz de fazer com que o público perceba o grande equilíbrio da obra. Por um lado temos os movimentos mais rápidos nas avenidas, na própria companhia, na cidade grande, enquanto que do outro lado temos o garoto da cidade pequena, muito calmo, na maior parte das vezes passivo, tímido, mal se aciona para dançar na festa de ano novo, não indaga quando troca de posição com o citado homem que reclama da sua vista em processo de extinção.

Ausência de música, ausência de diálogos na maior parte do tempo, uma câmera que se movimenta lentamente, um ritmo muito bem preenchido em sua falta de intensidade, de poucos cortes. Acompanhamos cada passo do garoto em busca daquele trabalho, o trabalho da elipse de tempo é propositalmente leve, já que os deslocamentos temporais estão longe de ser bruscos, a sensação dada é a de que estamos vendo cada segundo daquele pedaço de vida do garoto, cada passo naquele começo de carreira, como se não houvesse saltos temporais.

Para que a obra não ganhasse uma forma tão dura de ser digerida, Olmi aciona as suas dinâmicas satíricas, o que causa, mais uma vez, um equilíbrio de acordo com o ritmo, arremessa picos em sua montagem. “O Posto” parece ser uma obra ingênua ao mostrar apenas a vida aquele jovem rapaz, mas este serve como uma inserção em um meio muito sistemático, e o longa-metragem abusa das piadas contra a lógica industrial.

Já no processo de seleção, no começo da obra, uma mãe responde pelo seu filho na chamada dos jovens que estão na mesma seleção, uma piada ao evidenciar a falta de maturidade de um garoto prestes a mergulhar no mercado de trabalho, a falta de independência do mesmo, que precisa trabalhar já naquela idade, ainda que seja levada em conta a época. Em outro momento, com críticas diretas ao sistema, um homem diz que testes tranquilos seriam aplicados, mas pronuncia um enunciado embolado, confuso.

Ainda sobre as questões mais satíricas, o processo médico é um tanto engraçado, inexplicável na forma como os dois indivíduos encarregados ao trabalho medem as habilidades sensoriais dos jovens. Com o passar da metragem, o que entendemos, também, é que os personagens são levemente caricatos, tal como a figura de um grande homem em um alto posto na empresa, taxado como a figura do chefão, bebendo seu café, mal olhando para os olhos do entrevistado, um chefão cheio de atitudes fortes com o intuito de induzir o rapaz.

A lógica empresarial pode conceder festas em comemorações, mas ela não se importa muito com os anos de trabalho de uma pessoa que sai da empresa, seja por ter morrido, seja por ter abandonado o cargo. Mais ao final, uma mesa de contador é desocupada, dando espaço ao jovem Domenico. Enquanto alguns funcionários recolhem papéis pessoais e papéis da empresa, os indivíduos de cargos mais altos querem rapidamente desocupar o local para que um próximo empregado possa produzir imediatamente, pouco se importanto com o legado de um funcionário.

Para Karl Marx, a “alienação” é um processo em que o cidadão fica alheio aos acontecimentos propriamente sociais, não reconhendo que está submetido a uma sistematização do trabalho, muito do que acontece em “A Hora da Estrela” com Macabéa, de Clarice Lispector, e com as figuras da obra que está sendo analisada neste texto. A alienação foi muito percebida no período da Revolução Industrial, no século XVIII, quando o trabalhador começou a se igualar a uma máquina, trabalhando repetidamente, sem o conhecimento sobre o que estava produzindo, e caso acontecesse algo com o mesmo, de não poder mais exercer aquela função, era facilmente substituível, como ocorre, exatamente, na parte descrita acima com o personagem em “O Posto”.

A mão de obra é facilmente substituída, nada é marcante em um setor de trabalho em cargos baixos e medianos. A brincadeira da nuvem na festa de comemoração da empresa, próxima ao desfecho, nos faz entender que ela tampa a lâmpada rapidamente e sai; é como o movimento da indústria, rapidamente substituível, rapidamente produtivo quase não dá tempo de respirar, quase não dá tempo de se fixar.

 

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