Crítica | O Incrível Exército de Brancaleone

Por Philippe Leão

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Grande clássico do cinema italiano, O Incrível Exército de Brancaleone é também um dos maiores filmes de Mario Monicelli, mestre da comédia em seu país e história. O ano é 1.000 d.c, um bravo cavaleiro parte da França para tomar posse de suas terras. No caminho, este é assaltado e assassinado por foras-da-lei que roubam a escritura e decidem ir atrás do feudo em questão. Para isso, eles precisariam de um cavaleiro para ajuda-los nessa jornada, encontrando no atrapalhado Brancaleone de Nórcia a pessoa perfeita.Grande clássico do cinema italiano, O Incrível Exército de Brancaleone é também um dos maiores filmes de Mario Monicelli, mestre da comédia em seu país e história. O ano é 1.000 d.c, um bravo cavaleiro parte da França para tomar posse de suas terras. No caminho, este é assaltado e assassinado por foras-da-lei que roubam a escritura e decidem ir atrás do feudo em questão. Para isso, eles precisariam de um cavaleiro para ajuda-los nessa jornada, encontrando no atrapalhado Brancaleone de Nórcia a pessoa perfeita.

O filme resgata a essência do espírito da Baixa Idade Média, um prato completo para professores de história. É raro um longa-metragem que retrata o período de maneira tão verdadeira: sujo e decadente, utilizando um humor negro bastante peculiar para, de forma prazerosa, contar, narrar os acontecimentos da jornada do herói. Trata-se de uma paródia de Dom Quixote de Cervantes que, porém, não nega seu viés autoral.

São diversas as passagens que remontarão à época. Há, como toda narrativa deve ser, um transporte de tempo do passado ao presente, de maneira bastante fidedigna, porém, satirizada, ficcional. São demonstradas através de uma fotografia suja – o que não é um aspecto negativo, afinal, contribui com o que planeja ser contado – a decadência das relações sociais no mundo feudal, o poder da igreja católica nos mais diversos aspectos, a cisma pela conquista do oriente, o grande medo da peste que se alastra e a ameaça turco-otomana.

A história da loucura de Foucault é debatida, também, empoderado por um humor único. Segundo o filósofo, na Idade Média a loucura era tratada de maneira positiva, sendo os loucos visionários. Essa afirmação é evidenciada pela passagem do missionário que deseja chegar à terra santa, em nome de Deus. Profetizando palavras e discorrendo sobre missões que nem o mais louco dos loucos do nosso tempo seguiria, mas que àquela época era divino. Os heróis juntam-se ao missionário em determinado momento e, a partir daí, percebemos diversos obstáculos no caminho dos fieis ao oriente. Pontes não muito confiáveis que os seguidores, convencidos pelo missionário, devem atravessar. “A ponte está sendo segura pelas mãos de Deus”, diz o profeta, entre outras situações que os seguidores aceitam cegos pela fé.

A jornada dos heróis parece interminável. A narrativa dá voltas, desvios através de linguagens que esculpem o tempo de maneira que nos conta séculos em apenas duas horas. A Idade Média é contada através da aventura dos satíricos heróis nada gregos. Brancaleone e seu exército querem as terras prometidas pela escritura, mas, por diversas vezes, o alvo de desejo se modifica: fortunas que seriam prometidas pela venda de um prisioneiro e a promessa de levar uma donzela a seu prometido, o encontro com o missionário, a chegada em uma cidade fantasma devastada pela peste e etc. Assim, a narrativa torna-se a busca pela busca, que nunca será encontrada.

O Incrível Exército de Brancaleone é o trabalho que melhor conseguiu ridicularizar o conceito de honra dos livros e filmes medievais, onde vemos heróis sempre muito grandiosos, que nunca nos fizeram questionar se realmente fora assim, ou se não havia algo diferente. Seriam todos os nobres cavaleiros medievais poderosos e destemidos? Após Brancaleone, como diz a própria capa do filme, nunca mais verás O Senhor dos Anéis com os mesmos olhos. “Branca, Branca, Branca ! León León León!”

 

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