Crítica | O Conformista

Por Matheus Fiore

O plano de abertura de O Conformista talvez seja um dos mais exemplares do cinema no que diz respeito à capacidade de sintetizar o clima de uma obra por meio de um plano. Com um enquadramento fechado no protagonista, Marcello, este clássico de Bernardo Bertolucci começa trazendo o personagem inquieto, alternando entre a escuridão e uma iluminação vermelha, uma imagem que, que alinhada à melancólica flauta da trilha de Georges Delerue (Platoon) imediatamente transportam o espectador para um cenário violento, sombrio e coercivo da Itália fascista.

A obra acompanha Marcello Clerici, jovem italiano que, a fim de ascender no partido fascista, tem a missão de aproximar-se de um militante anti-fascismo, um velho amigo e professor do protagonista. A mando de Mussolini, Clerici deve ganhar a confiança do professor e ajudar a orquestrar seu assassinato. A obra divide-se entre a viagem de Marcello para executar sua missão e flashbacks que mostram sua vida e interação com o professor antes da execução do plano.

Com O Conformista, Berlolucci analisa como os traumas se mantém vivos na psique humana ao ponto de criar cidadãos frios e cruéis. Por exemplo, em uma das cenas em que acompanhamos Clerici a caminho de seu professor para executa-lo, a montagem alterna entre sua viagem e imagens de sua infância, mostrando o abuso que sofreu quando criança. Também há momentos que desenvolvem sua relação com seu pai, paciente de um manicômio. Semelhante ao que Vittorio De Sica fazia, Bertolucci usa seu cinema como análise da condição humana, e a forma como a montagem insere seus flashbacks, de forma seca e quebrando planos nos quais Marcello surge pensativo, tornam as cenas uma viagem às memórias do protagonista, que ajudam o público a compreender a frieza e até a crueldade que, aos poucos, Clerici demonstra.

A fotografia do lendário Vittorio Storaro dá o tom do filme: enquanto nos flashbacks prevalece o uso de cores naturais e avermelhadas, com planos mais móveis, o tortuoso caminho até a execução do plano traz enquadramentos estáticos e frios, tanto pela iluminação mais esbranquiçada quanto pelos cenários preenchidos por neve. Nos flashbacks, a presença da trilha também é mais constante. Já no presente, quando acompanhamos a execução da missão do protagonista, O Conformista utiliza o silêncio como opressão para um personagem que parece destinado à tragédia.

Mesmo que guiada por uma narrativa calcada em uma amálgama de espionagem, noir e cinema político, O Conformista ainda se destaca pelo arrojo técnico de Bertloucci, que tinha somente 29 anos quando lançou a obra, e mesmo assim consegue imprimir uma nuance de gêneros admirável. Quando ocorre a aproximação entre Clerici, sua noiva Giulia, o professor Quadri e sua noiva Anna, o longa ganha sensualidade pela criação de tensão entre as mulheres do filme – que só funciona graças aos inteligentes movimentos de câmera, que isolam o protagonista do quadro e aproximam as duas mulheres -, e a crescente paixão de Clerici por Anna.

Com a entrada do professor Quadri, a narrativa ainda ganha contornos filosóficos com a referência ao Mito da Caverna, de Platão, que se mostra uma alegoria perfeita para retratar a relação de Clerici com a realidade da Itália fascista, em que o personagem, por uma ilusão de poder e estabilidade social – almejada pelo casamento com Giulia, jovem de família rica, e pela ascensão profissional no partido fascista -, afasta-se da própria humanidade em uma trágica jornada de deterioração moral.

Quando Bertolucci visa a canonizar a monstruosidade do protagonista, é brilhante a escolha de pontos de vista que o diretor faz em prol da tensão. Diante de uma cena extremamente violenta, que ganha peso graças à ausência de trilha musical e uso de planos longos, que até variam de planos médios para close ups a fim de destacar o sangue e a agressividade projetados, O Conformista alterna entre os olhares de uma testemunha, que tenta cobrir seu rosto, amedrontada e totalmente entregue ao desespero, e os olhares de Clerici, que, antagonicamente, curva seu rosto para ter um ponto de vista mais claro diante da violência que se manifesta.

O Conformista é uma prova do altíssimo nível técnico e estético do diretor Bernardo Bertolucci, mostrando-se uma combinação arrebatadora de gêneros, temas e estilos, capaz de encantar pela lascividade do jogo de conquista, bem como pela força da narrativa mafiosa ou pelo peso da análise psicológica de uma nação que, no período retratado, estava doente, fadada à tragédia, bem como seu protagonista.

 

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