Crítica | O Garoto

Por Leonardo Carvalho

 

Estados Unidos – 1921

Direção: Charles Chaplin

Elenco: Charles Chaplin, Jackie Coogan, Edna Purviance, Lita Grey.

 

Pouco mais de uma hora é o suficiente para que o espectador fique emocionado em diversos blocos de “O Garoto”, obra-prima de Chaplin, obra-prima do cinema estadunidense naqueles anos 1920. Este foi um dos primeiros longas que ditariam um novo estilo de filme na era do cinema mudo, a comédia hollywoodiana.

Chaplin, desde o começo, emociona, seja por um sentimento mais negativo, seja por um sentimento mais positivo. Sobre o primeiro, deve-se dizer que é o abandono de um bebê por parte da mulher. Se para ela era um fardo, era como carregar uma cruz, decidiu abandonar a criança. Sobre o segundo momento, quando o neném é a achado pelo vagabundo, personagem da estrela do filme, vemos uma sucessão de momentos engraçados.

A partir desses momentos engraçados o filme é desencadeado. O neném é o impulso da obra. Inicialmente, observamos a tentativa do vagabundo de se livrar da criança. A qualquer custo tenta entregar o menino para um senhor de bengala que mal se aguenta em pé, para uma mulher com um carrinho de bebê. As fortes expressões e gestos marcados pelas atuações geram ainda mais risadas.

Anos mais tarde, momento marcado pela narrativa com uma legenda indicando a passagem do tempo, com o menino crescido, já aos cinco anos, muitas confusões ocorrem por parte da dupla, e é aí que o longa-metragem tem seus grandes momentos de qualidade. Aliás, alguns desses momentos serviriam como uma marca para o futuro do ator/diretor.

Um desses fatores é, de fato, o vagabundo. Anda esquisito, tem os pés grandes, usa uma bengala, um chapéu e um bigode. Além disso, é muito improvisador, utiliza um lençol como um roupão; é atrapalhado; mesmo com todas as características voltadas à confusão e à forma estabanada, ele é um grande protetor, valente, não desiste de ir atrás do que quer. O personagem é, de fato, muito marcante por seus traços de personalidade e pelos traços físicos, ficou na memória do cinema.

Um outro ponto importante é a forma como o ator/diretor cria as situações. De maneira perfeita, o cineasta britânico consegue explorar todo o espaço cênico em uma única tomada, vide as cenas em que se mete em confusão. Uma delas, a exemplo, pode ser a parte em que é perseguido por um policial em uma rua, logo no começo, e com idas e vindas no mesmo espaço, concede situações cômicas.

Não pode ser deixada de lado a cena em que o mesmo, também, se mete em confusões contra o irmão mais velho de um pequeno garoto que se meteu na briga com o seu filho. O marmanjo e ele brigam daquela maneira excêntrica de sempre, sendo uma cena que causa humor, sendo importante, outrossim, para um posterior filme em sua carreira, uma outra obra-prima, “Luzes da Cidade”, na cena da luta de boxe.

O elenco é todo muito bom, sabe se expressar da forma necessária para contribuir com a emoção, seja ela mais cômica ou mais melancólica. Deveras, Chaplin é o grande motor no conjunto de atores, não há dúvidas disso, levando em conta que também dirige a obra, coordena cada representação. O jovem menino, figura fundamental no desenvolvimento, está em um nível altíssimo, pois naturalmente expressa seu desespero, por exemplo, quando está sendo levado para um orfanato, é capaz de realizar momentos marcantes na história do cinema, comove o público de uma forma impressionante.

Há outros modos de impulsionar a emoção. O riso é ainda mais estabelecido pela movimentação dos atores com uma velocidade maior, deixando tudo ainda mais caricato, não de maneira forçada, é tudo muito bem dirigido, consequentemente engraçado. Por fim, destaca-se mais um excelente trabalho de espaço cênico, quando uma outra emoção é colocada em prática. A exemplo, a parte em que, por acaso, a mulher, depois de alguns anos, sente-se comovida ao se relacionar com crianças e senta-se ao lado do seu filho que abandonou, sem saber que era ele.

É tudo muito emocionante, Chaplin dirige como ninguém, é extremamente eficaz na capacidade de sugerir emoções. Ele, ainda, é extremamente moderno ao olhar diretamente para a câmera lá naqueles remotos anos 1920, os primeiros passos dos longas, sendo um cineasta muito à frente do seu tempo.

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