Crítica | Visages, Villages

Por Matheus Fiore

Direção: Agnès Varda & JR
França – 2017
Nome Original: Visages, Villages
Elenco: Agnès Varda, JR & Jean-Luc Godard.

Visages, Villages traz, pela parceria entre a lendária Agnès Varda e o fotógrafo francês JR, um estudo sobre a importância da arte como forma de eternizar. Pessoas, lugares, animais, momentos, sentimentos, não há distinção. A arte (que na obra se manifesta em forma de fotografia) é uma forma de proteger a memória de nossa civilização. Uma tarefa que, por essência, já é ingrata pela efemeridade da civilização e de nossas questões mundanas. O tempo, como mostrou a mitologia grega por meio da história de Cronos (entidade que representa o tempo), que devorou seus filhos, é inexorável, estando além de qualquer vislumbre de poder de interferência do humano.

Na trama, a diretora e o fotógrafo que também assina a direção do filme) viajam pela França com uma “câmera-móvel”, um modelo de motor-home adaptado que traz em sua parte traseira uma mini-cabine de fotografia. Com o veículo, Agnès e JR passeiam pelo país conhecendo pessoas, vilas e histórias, e utilizam o automóvel para tirar fotos que eternizem as histórias dos lugares por onde passam. Por meio dessa premissa, Visages, Villages busca transformar em arte o trivial, enaltecendo histórias simples que vão desde mineradores até fazendeiros que tratam suas cabras de formas diferentes.

Mas nem só pelo registro fotográfico a ideia de Varda e JR é elaborada. A abertura e o fechamento do longa, por exemplo, se manifestam por meio de animações, dando valor à força da pintura. O longa, aliás, se inicia com o afinar de um violão, que transpassa os créditos iniciais até que se mostra pronto para compor a trilha, como se assistíssemos à preparação da equipe de Visages, Villages para a realização do projeto. Paralelamente ao trabalho de fotografar os encontros da dupla diretora da obra, a forte presença das outras artes faz com que, ao passo que as fotos de Varda e JR busquem a eternização de momentos, o filme é uma forma de eternizar a parceria deles e a memória de Agnès.

É interessante que o longa tenha um frame rate diferente do mais comum, que é de de 24 quadros por segundo. Com isso, a obra faz com que todo plano pareça mais uma coleção de fotografias do que um registro em vídeo. Aliás, Visages, Villages vai além. Tal alteração na cadência de frames também é uma escolha bem-sucedida para lembrar o espectador, a todo momento, que a força da fotografia transpassa a respectiva arte. O cinema, afinal, é imagem em movimento. Sem a fotografia, não há cinema. O carinho da dupla com a arte traz nuances interessantes. A escolha de colar as fotos em tamanho diferente dos fotografados (os registros chegam a ocupar paredes e prédios inteiros), por exemplo, evidencia o potencial da arte de separar um elemento e dar outra magnitude a ele. Também é notável a manutenção do preto e branco em todas as fotos, o que enaltece a ideia de que são imagens congeladas, de momentos específicos. Representações de símbolos daqueles cotidianos.

Ciente da ingrata tarefa que têm em mãos, Agnès e JR ainda fazem questão de mostrar o insucesso em alguns projetos. A fotografia projetada em uma rocha na praia, por exemplo, se desfaz ao ser atingida pela água do mar. A escolha de trazer esse registro próximo ao fim da projeção, porém, torna a cena um verdadeiro choque de realidade, que mostra que, mesmo diante de todo o esforço apaixonado da dupla para colorir seu caminho com arte, todos estão à mercê do tempo.

Visages, Villages é tão humano quanto seus realizadores e, por isso, também tem seus defeitos. A escolha por reconstruir os diálogos que originaram a parceria entre Angès Varda e JR não se justifica. Pela noção de que estamos vendo duas pessoas reproduzindo uma conversa passada e fingindo ser espontânea – mesmo que a existência do roteiro seja óbvia -, a narrativa às vezes sai do seu tom realista e ganha um ar ficcional que não só é desnecessário, como dissonante.

Nem a artificialidade que tenta soar natural, porém, consegue tirar o brilho de um documentário tão verdadeiro. Funcionando como uma carta de amor (e agradecimento) à arte, Visages, Villages mostra que há beleza no trivial, bem como nos mostra, com didatismo que impressiona pela sutileza – a intenção de Varda e JR com seu projeto nunca é verbalizada diretamente, apenas exposta por meio do trabalho da dupla -, que a arte é o mais próximo que a humanidade pode encontrar de uma ferramenta que eternize nossa efêmera existência pelo mundo. Vindo das mãos da mãe da Nouvelle Vague, a concepção de uma obra como Visages, Villages não surpreende. Na verdade, era e é questão de tempo.

★★★★★

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