Crítica | O Animal Cordial

Por Leonardo Carvalho

Brasil – 2017

Direção: Gabriela Amaral Almeida

Elenco: Murilo Benício, Humberto Carrão, Irandhir Santos, Camila Morgado, Luciana Paes.

“O Animal Cordial” mostra como o cinema brasileiro tem se preocupado e evoluído de acordo com o terror enquanto um gênero cinematográfico. Independente de qualquer relação com o gênero, o filme não deve ser entendido apenas como violento e sanguinário, pois a violência não é gratuita, já que a forma é o que chama a atenção.

A obra inicia calmamente, com o dono do restaurante, bem vestido, contando, aparentemente, os lucros daquele dia. Com uma música ambiente do restaurante, com toda a calmaria, o longa-metragem não precisa de um som inclinado ao suspense para anunciar o terror que está por vir.

Aliás, é bom dizer que não haveria qualquer problema em fazer isso, em utilizar uma trilha musical que abrisse as portas para o suspense, mas é muito mais original a forma como a direção apresenta os primeiros contatos com o horror, bastante sutis. O primeiro contato é o plano detalhe que mostra copos de vidro sendo lavados e facas que cortam carne sendo manuseadas pelos funcionários.

De primeira, nada daquilo parece ser assustador ou fazer contato com o terror, mas se houver uma rápida relação com os créditos iniciais, vermelhos e cheio de órgãos nos belos desenhos gráficos, o espectador logo entende que aqueles objetos comuns do restaurante podem significar algo sobre o horror. Aos poucos, com calma e sabedoria, a narrativa, utiliza outros recursos para apoiar o plano detalhe descrito e explicitar mais o banho de sangue que viria posteriormente.

Naquele pequeno espaço, o clima do restaurante, locação onde passa toda a trama, vai se desequilibrando. Como um passo inicial, um homem pede um coelho, um animal fácil de ser capturado. Depois, ao chegar um casal, a mulher, extremamente esnobe, parece insatisfeita, e seu marido, inocentemente, pede um javali, o que simboliza levemente a ascensão da agressão, sai um coelho, passivo, e entra o forte porco selvagem.

Continuando com a atmosfera sendo vagarosamente desequilibrada, os funcionários aparentam estar insatisfeitos, e o patrão está sendo perturbado, no telefone, pela esposa. Para enriquecer ainda mais os meios simbólicos, os trabalhadores do restaurante não conseguem jogar o lixo na rua, pois a porta está sempre trancada, então o deixam próximo à saída dos fundos. Não muito tempo depois, o mesmo lixo é levado ao hall central do estabelecimento, a sujeira está preparada, a primeira grande virada do longa-metragem acontece, dois bandidos invadem o local.

Após toda essa atmosfera desequilibrada sendo criada, a trilha musical finalmente chega com mais força, passa a ser mais presente a fim de que mantenha o clima com constante tensão. A linha melódica foi um recurso inteligentemente adiado em uma maior exploração para que viesse em um momento mais preciso, que precisasse ser mais acionada para manter o suspense.

Com a invasão dos bandidos no estabelecimento, muitas situações-limite são expostas. Se antes havia um bom preenchimento do ritmo por apresentar tudo calmamente, o modo survivor foi acionado com a primeira grande virada da obra. O gore é acionado, impacta o espectador não só pelo nível violento, mas pela forma como o suspense/horror é construído.

Resgatando o grande Chan-Wook Park, não há como confiar naqueles personagens, não é possível saber se uma figura está atrelada à invasão dos bandidos, não é possível saber quem é realmente a vítima e quem realmente é ruim, se é que é possível fazer isso. Um jogo de mentiras e falsas acusações passam a acontecer, os personagens que antes pareciam bem demarcados em suas posições, surpreendem.

Os personagens começam, sim, bem demarcados. O bandido mau, os trabalhadores honestos, os clientes metidos. Depois, tudo é invertido, a peripécia é levada muito a sério aqui, pois tudo vira de cabeça para baixo. O bandido torna-se vítima, um dos trabalhadores torna-se vilão se pensarmos por um ponto de vista, mas também, por todo estresse cotidiano, podemos dizer que o sadismo do patrão é natural de um descontrole, portanto, ele não seria um vilão, e os bandidos estariam também como vilões. O mapa de personagens não é tão simples quanto aparenta.

Além de toda a questão de câmbios entre as figuras da película, deve-se dizer, também, que eles estão relacionados aos animais, uma comparação que pode ser resgatada da literatura naturalista. Um elo muito forte entre os dois principais instintos selvagens, a violência e o sexo, aparecem de maneira hiperbólica no interior da narrativa. No meio de situações-limite, o que menos vemos são humanidades, o que mais vemos é a selvageria.

Na decoração da violência, não encontramos apenas os atos mais bruscos de brigas e xingamentos. A violência também é pautada, de maneira muito positiva, por luminárias somadas a paredes predominantemente avermelhadas. Essa soma faz com que haja uma climatização esquentada, de sangue quente, de energia fervente, o vermelho está referido ao sangue.

Se pensarmos em Darwin, porém, de que a vida é mais propícia em ambientes caldos, e pensarmos na soma da luz com a parede vermelha, em que uma quentura é apresentada, tudo está forrado para o segundo instinto, o sexo. Embora haja mais violência, a narrativa não deixa de apresentar as cenas relacionadas à nudez, aos atos sexuais, o que intensifica ainda mais o mundo selvagem.

Na verdade, o mundo selvagem é intensificado nesse aspecto pela razão de haver uma cena em que o sangue se mistura a um ato sexual que envolve muita força e vontade, dão a sensação de que os vencedores, após derrotarem os adversários, podem ter uma noite de prazer no território conquistado. Tudo funciona como funciona para os animais.

“Animal Cordial” pode ser resumido como um filme de exageros, de personagens desequilibrados, muito bem dirigidos. O desequilíbrio pode ser enxergado como uma grande via de leitura da narrativa, não só por tudo foi discutido acima, mas também por causa de momentos-chave, como a cena em que a figura do patrão quebra um espelho e fica estático em frente ao objeto, com sua face distorcida em diversos cantos do reflexo. São notáveis os muitos símbolos enriquecedores, o bom trabalho técnico, o longa-metragem é a afirmação do suspense/terror nacional.

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