Crítica | 120 Batimentos por Minuto

Por Leonardo Carvalho

França- 2017

Direção: Robin Campillo

Elenco: Nahuel Pérez Biscayart, Adèle Haenel, Arnaud Valois, Antoine Reinartz.

A obra escolhida pela França para representar o país no Oscar, premiada em Cannes, começa com um som grave que marca pontualmente a seriedade de uma fala explicativa acerca de um grupo ativista a favor do reconhecimento dos aidéticos. Em poucos segundos, já é possível reconhecer que há um debate ferozmente sério sobre a indignação dos portadores do vírus.

Estamos em uma sala de discussão do Act Up, e uma pegada muito próxima do documentário é acionada para que o público se aproxime daquela realidade, daquele grupo em que todos são portadores da doença – o diretor Robin Campillo já havia trabalhado como roteirista em “Entre os Muros da Escola”, um filme de estilo igualmente próximo ao documentário, o que pode ter influenciado a experiência no filme que está sendo analisado aqui. Em um primeiro momento, ocorre uma discussão sobre um acontecimento  que gerou polêmica na discussão, sobre até onde o radicalismo ativista pode ir.

Eles se organizam em uma sala específica, possuem líderes, membros estes que trazem notícias e puxam a discussão. O grupo quer reconhecimento, quer que os aidéticos não sejam excluídos, quer que seja divulgada a ideia de que não são contagiosos, quer pressionar o campo farmacêutico por mais pesquisas na área, quer pressionar os políticos a fim de que tenham mais direitos.

Sobre o que foi dito acima, a facilidade da aproximação ao tipo documental está, em primeiro lugar, na utilização de câmeras tremidas. Elas são quase que totalmente coordenadas à mão ao longo da narrativa, o que dá uma naturalidade por não conceder enquadramentos rígidos, a filmagem é grandemente espontânea, parece que tudo ali está sendo documentado por um amador que quer divulgar as discussões e os atos da equipe, e isso cria um elo ainda mais próximo entre obra e público.

Além disso, deve-se enfatizar, sem dúvidas, o elenco, um outro forte gerador de aproximação ao documental. Muito bem dirigido através do tom igualmente natural ao da câmera, há uma coesão entre a fotografia e os atores, os quais passam a sensação de serem  realmente portadores do vírus: 1) a caracterização física magérrima  pela degradação da doença; 2) expressões melancólicas, com faces abatidas em alguns momentos, ao mesmo tempo que, em outras situações, estão felizes em divulgar os modos de prevenir a doença e conter a sensação de dever cumprido para com a população.

Os personagens passam a ideia de estarem, paralelamente, indignados com o pouco interesse político e desnorteados quando a doença ataca com mais força. O tempo inteiro o HIV está relacionado aos personagens, eles pensam o tempo inteiro na doença, é uma entidade maligna na vida de cada um. É notável a necessidade de comentar sobre o assunto, não importa quando e onde, não é por menos que em uma cena de sexo, o ato é interrompido diversas vezes para que a doença seja comentada de alguma forma. Muito dessa questão de convencer o público passa pela ideia de haver um grande acolhimento da narrativa sobre a questão do HIV. Se em “Contágio” Steven Soderbergh traz o lado político, econômico e social de uma epidemia, em “120 Batimentos por Minuto” há o mesmo, mostrando a questão dos remédios, da política, das consequências individuais, mas tudo isso sobre a doença em questão.

O problema da narrativa está na ideia de abranger, de forma extensa, essa discussão acerca do assunto. Com o passar do tempo, na altura de sessenta minutos de projeção, tudo começa a caminhar para o insuportável. Depois de haver uma boa alternância entre cenas mais agitadas (os atos sendo concretizados) e as cenas mais lentas (o debate), a narrativa caminha para uma queda constante no ritmo.

Não há problema nenhum em inverter a estrutura, de colocar a agitação mais para o começo, mas não como este filme faz. O longa-metragem possui quase duas horas e meia de duração, chega um momento em que não há mais fôlego para aguentar movimentos repetitivos, de lutas contra políticos, por exemplo, e formas didáticas de ensinar a prevenção do HIV, sendo o segundo aspecto ainda pior, pois reduz o texto a um nível panfletário e moralista, reduz a arte a lições.

Ainda bem que alguns elementos de construção aparecem para salvar a obra de uma extensa tragédia técnica. Alguns símbolos são muito interessantes, e se a película fosse mais precisa em sua estrutura, certamente poderíamos estar falando de um grande representante de qualidade do ano, certamente teríamos uma belíssima narrativa.

Um dos símbolos mais interessantes é a utilização da cor vermelha. Desde o começo, em uma digressão, quando um membro do Act Up joga uma bexiga com tinta vermelha no rosto de um político que não cumpriu promessas para com aquela comunidade, até o final, quando um extenso rio vermelho aparece em um plano geral, entendemos que a coloração traz como ideia as inúmeras mortes, os assassinatos indiretos, que acontecem pelos políticos não ajudarem na progressão da luta contra o HIV, portanto, um imenso banho de sangue é derramado.

Um outro ponto simbólico que necessita ser destacado é a utilização dos elementos sonoros. Em todo o momento eles são bem trabalhados, seja no começo por absorver o drama da doença com melodias mais leves, seja no desenvolver com a criação de expectativas, pelos sons graves, sobre o que os personagens podem fazer e sofrer nos seus atos radicais. Mais ao final, com a predominante ausência de música, o som diegético grita com os gemidos e choros dos personagens relacionados com a tristeza da perda de um companheiro, ou da degradação da doença.

O Festival de Cannes tem errado gravemente em conceder um prêmio tão importante, o Grande Prêmio do Júri, a filmes de qualidade duvidosa, como este que foi analisado neste texto e o filme vencedor da mesma categoria no ano passado. Se antes era quase certeza de qualidade nas obras premiadas por lá, há alguns anos essa quase certeza se transformou em uma grande dúvida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *