Crítica | A Câmera de Claire

Por Philippe Leão

Direção: Hong Sangsoo

Coreia do Sul – 2017

Elenco: Kim Min-hee; Isabelle Huppert; Chang Mi-hee; Jung Jin-young; Shahira Fahmy

 

Da mesma forma que comecei minha crítica sobre “Certo Agora, Errado Antes” iniciarei esta. Para o diretor sul coreano Hong Sang-soo (A Visitante Francesa) o cotidiano parece ser sempre algo tão interessante que merece ser contado. Aqui, porém, o diretor atinge um questionamento metalinguístico que introduz uma ideia de movimento narrativo proporcionado por uma técnica que converge aos objetivos do filme.

Claire (Isabelle Huppert) é uma professora/fotografa/poeta – sim, muitas coisas – que está pela primeira vez em Cannes (uma primeira brincadeira metalinguística do diretor, que pela primeira vez vai ao festival local). Sua visita à cidade possibilita uma série de encontros com o mundo e, junto a ele, com outras pessoas. Estes encontros serão cruciais para o desenvolvimento narrativo em uma abordagem que está em constante movimento.

É bem verdade que, devido a este constante movimento, a curta duração de apenas 68 minutos provoca uma série de cenas memoráveis. Mas de onde vem a metalinguagem deste filme? Em uma cena bastante especial, Claire explica o motivo pelo qual fotografa as pessoas e coisas por toda a cidade. Segundo ela, as pessoas não são mais o que foram na fotografia.

“Uma pessoa não pode se banhar duas vezes o mesmo rio”. Assim como aquela pessoa que está representada na fotografia é apenas uma memória de uma coisa que já não existe mais, modificada que foi pela fotografia, Claire também já não é a mesma depois de fotografar. Ao tempo que os encontros de Claire com os demais personagens os modificam, ela também se transforma. Se em um primeiro momento se diz uma professora, depois se torna também uma poeta e, constantemente, sendo uma coisa completamente diferente.

Esse movimento é elaborado a partir dos encontros entre opostos em perfeito equilíbrio. Mais que isso, Hong Sang-soo filma os acontecimentos com uma verossimilhança que invejaria muitos filmes neorrealistas. Existe verdade nas representações rotineiras de seus personagens – e Kim Minhee prova ser uma especialista nessa verdade representativa – e suas composições fotográficas perenes.

A montagem é absolutamente brilhante, correlacionando os encontros com o mundo, as mudanças constantes e a naturalidade de tais acontecimentos. O esculpir narrativo cria uma estranheza – que é, aliás, constantemente percebido pelas personagens de Minhee e Claire dialogando em uma língua também estrangeira – que parece apresentar personagens diferentes a cada corte elíptico.

Estranhamente cotidiano, A Câmera de Claire é um filme memorável que transmite uma verdade sem igual. Hong Sangsoo, definitivamente, vem apresentando grandes obras em sequencia. O coreano não para de produzir filmes, que continue assim. À verdade.

 

★★★★★

 

* Crítica pertencente a cobertura do Festival do Rio 2017

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