Crítica | Me Chame Pelo Seu Nome

Por Leonardo Carvalho

Estados Unidos / Itália – 2017

Direção: Luca Guadagnino

Elenco: Armie Hammer, Timothée Chelamet, Michael Stuhlbarg.

Muito badalado nos festivais estrangeiros, “Me Chame Pelo Seu Nome” foi lançado na promessa de ser a afirmação do cineasta Luca Guadagnino, após sucessos de crítica como, por exemplo, “Um Sonho de Amor”. Além disso, o longa-metragem, ainda que faltando meses para os prêmios da Academia, já estava cotado como um dos mais fortes filmes na corrida pelo Oscar.

Nos créditos iniciais, acompanhamos a apresentação da equipe do filme junto a fotos de esculturas. Na introdução do longa-metragem, já é possível relacionar as obras de arte evidenciadas nos mesmos créditos iniciais com o ambiente erudita entorno dos principais personagens. Em pouco tempo de narrativa, eles falam de herança linguística, filosofia heideggeriana e música clássica.

Tudo isso está no entorno das figuras protagonistas, de fato está, mas é preciso dizer que há um meio simbólico por trás do que poderia resumir-se em um simples ambiente rebuscado em suas conversas. Oliver, um hóspede da família que vive em algum lugar do norte da Itália, é recheado de experiências, um homem de mente aberta, de vasto conhecimento cultural, além de ser explosivo em energia corporal, na participação de danças e partidas de vôlei, por exemplo.

A inclinação erudita está ligada ao personagem citado no parágrafo acima, mas também a um jovem garoto no auge de sua adolescência, embora as inclinações sejam amplamente discrepantes. Assim como os pais do jovem garoto Elio, Oliver é maduro, preciso em cada palavra representada em uma conversa de almoço. É um homem firmado, experiente, diferente de Elio, em que a inclinação erudita acontece pela ideia de percurso, de trajeto, não de estabilidade.

O jovem rapaz, por mais que toque Bach no piano e possa falar de história contemporânea da Itália, ainda está aprendendo sobre as coisas da vida. Por isso, acaba se apaixonando pelo já firmado Oliver. Este, um homem bonito, culto e explosivo de energia, torna-se a personificação da beleza para o menino, e aos  poucos eles vão se aproximando de uma forma tão quente e íntima que muitas experiências novas são carimbadas, sobretudo a Elio.

O narrador está sempre próximo do protagonista, portanto, a visão que temos de Oliver é de um arquétipo, de um modelo, tal como as esculturas vistas nos créditos iniciais – não são signos gratuitos -, uma visão baseada em beleza e movimentos sensuais, de ideal de perfeição. Somos manipulados pela visão do garoto, de uma juventude à flor da pele, de uma juventude que está descobrindo o seu lugar na natureza humana.

Através de um ritmo bem preenchido pela lentidão, entendemos que os personagens estão sendo calmamente apresentados em seus principais traços – a juventude versus a experiência – para que o espectador sinta-se cada vez mais identificado para com ambos e possa sentir com mais facilidade, e mais força, a conexão existente entre eles. Não é necessariamente o tempo todo uma conexão, mas é possível enxergar, também, uma desconexão.

Por isso, até o primeiro bloco do desenvolvimento, ambos estão mais distanciados, estão afastados por uma fotografia inteligente que explora o espaço cênico para concretizar tal leitura. A exemplo, há uma parte em que ambos estão sentados, e uma mesa, como um espaço vazio, os separa, mostrando que ainda estão distantes; em uma outra situação, ambos conversam em uma praça com uma estátua da Primeira Guerra Mundial no centro do local, objeto envolvido por cercas, e os dos personagens estão cada um de um lado, separados pela mesma cerca, ainda evidenciando a distância.

Vagarosamente, no entanto, o que percebemos é uma aproximação, uma aproximação que ainda não tinha sido cristalizada, talvez, pela falta de coragem dos dois rapazes. A partir de uma gradação crescente de conexão, uma forte expectativa é criada pelo público, sempre esperando que algo mais íntimo ocorra a qualquer momento. A direção sabe prender a vontade do público, praticamente o manda esperar para que veja uma cena mais romântica, digamos assim, e depois de muita ansiedade, quando  a tal cena romântica finalmente acontece, é banhada de sensualidade, seja pela expectativa imensa criada, seja pelo dedo de uma das figuras passar lentamente envolta da língua do parceiro, seja pela câmera que parece estar escondida atrás do mato, colocando-nos na posição de um voyeur.

Como toda boa adolescência, há o sofrimento pelo amor de verão. Acabada a estação do calor, tão bonita, também na Itália, pelo céu azul, pelos banhos de piscina e importante para criar sensualidade, como a cena da massagem no jogo de vôlei, chega o inverno, a estação da neve, do frio, da solidão. Nessa época posterior, um tipo de luto é posto em conflito à energia de antes, e o desfecho, com o jovem garoto chorando, desolado em frente a uma lareira, é uma oposição ao que viveu recentemente, é uma situação natural para qualquer faixa etária, ainda mais para quem ainda está descobrindo a vida.

Se com Heráclito, filósofo citado no longa-metragem, há a relação com a cultura erudita entorno dos personagens, sua referência é ainda mais importante no interior da narrativa por trazer a ideia de que tudo está mudando o tempo inteiro. Os câmbios do protagonista  em uma idade tão conflituosa em termos biológicos e ideológicos traduzem a mutação de Heráclito, sendo uma outra referência altamente simbólica.

 

★★★★

 

* Crítica pertencente a cobertura do Festival do Rio 2017

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