Crítica | A Forma da Água

Por Matheus Fiore

Direção: Guillermo Del Toro
Estados Unidos – 2017
Nome Original: The Shape of Water
Elenco: Sally Hawkings, Michael Shannon, Olivia Spencer, Doug Jones, Michael Stuhlbarg & Richard Jenkins.

Um conto de fadas subaquático. Talvez esta seja a definição mais simplista e honesta possível para A Forma da Água, nova empreitada do criativo Guillermo Del Toro. Em plena Guerra Fria, em um misterioso laboratório do governo americano, a faxineira Elisa descobre uma recém-chegada criatura, extraída dos confins da Amazônia, onde era tratada como divindade pelas tribos locais. Criatura essa que é explorada pelos agentes estadunidenses a fim de encontrar uma forma de viajar ao espaço. Para Elisa, que é muda, a criatura torna-se um amigo. A identificação é imediata, já que, como a própria moça diz, o ser é a única forma de vida que não a enxerga como uma pessoa incompleta por sua mudez.

A Forma traz uma faceta de Del Toro até então desconhecida por nós. Claro, a estética fabulesca presente pelo uso de cores intensas e o monstro com visual espantosamente bem feito estão lá, mas, aqui, o mexicano tem a oportunidade de arquitetar comentários que não faziam parte de seu repertório cinematográfico. Uma delas é a desconstrução da “humanidade” do ser humano: ao passo que nos aproximamos da criatura e de Elisa, todos os outros personagens passam a demonstrar seu lado mais obscuro – alguns de forma sutil, como Giles, o melhor amigo de Elisa que demonstra certo egoísmo quando sua carreira está em jogo, outros de forma exagerada, como o atendente da lanchonete local – o que permite que o roteiro levante questões filosóficas dignas de filmes como Blade Runner e Ghost In The Shell, como a definição de humano: se limita à nossa espécie, ou abrange nosso comportamento? 

Del Toro ainda faz questão de debochar das posturas políticas dos governos envolvidos na Guerra Fria. Se os soviéticos mostram-se desinteressados em descobertas e irredutíveis na missão de sabotar o inimigo, os americanos não são muito diferentes, ganhando até uma inesperada abordagem cômica, que desdenha das capacidades investigativas dos agentes do filme. Há ainda a inserção de sutis elementos que aproximam os agentes inimigos, como os personagens americano e russo que, exatamente da mesma forma, mastigam bala em suas missões. Entre os personagens, o grande destaque é o vilão vivido com primor por Michael Shannon, o coronel Strickland. Na relação do vilão e da protagonista, toda a equipe técnica estabelece uma relação interessante com a cor verde: enquanto a protagonista de Sally Hawkins demonstra carinho pela tonalidade, vestindo-a em boa parte da projeção, o vilão de Shannon chega a dizer que odeia o tom, o que cria dois pontos de vista antagônicos sobre um mesmo elemento – que, ao final do dia, representa a esperança, almejada por um e desprezada pelo outro.

É interessante notarmos como, a partir do estabelecimento do verde como algo que oprime o vilão, a cor passe a engolir Strickland. Em seu ambiente de trabalho, que é predominantemente verde, e em seu lar, que, antes tendo uma paleta de cores mais variada, passa a ser tomado pelo verde quando o personagem entra em conflito com seus superiores. E o trabalho de cores mostra-se essencial, uma vez que Elisa é muda. Quando a personagem demonstra paixão, por exemplo, seu figurino exalta fortes tons de vermelho, que passam por um laço na sua cabeça ao vestido e ao novo par de sapatos. 

A Forma da Água é a subversão dos contos de fada. Se o normal em uma história de amor entre uma fera e um humano é que o grande mote é a busca pelo elemento que transformará a aparência da fera, em A Forma da Água, Elisa aceita a criatura como ela é desde o primeiro momento, sendo mais fácil crer que é desejo da faxineira tornar-se também um ser mágico, e não o contrário. Além disso, há a desconstrução da inocência das típicas princesas, trazida pelas cenas da protagonista se masturbando em sua banheira, que imediatamente a destaca das clássicas protagonistas frágeis e “puras”. Por fim, Del Toro ainda consegue dar camadas ao vilão Strickland, ao, por meio de sua relação com o trabalho, família e superiores, mostrar como sua crueldade é oriunda de um sistema opressor da América dos anos 60, que resulta em um homem que desconta seu ódio em seus subordinados e familiares. E Del Toro ainda é feliz ao fazer tal desconstrução do personagem de Shannon sem que, com isso, absolva seus erros, mantendo-o um personagem mau até o fim da projeção.

Talvez o maior charme do relacionamento entre Elisa e a criatura não seja nem o interesse pela arte, manifestado por meio da vitrola e dos filmes aos quais a dupla assiste, mas sim o desinteresse de ambos pelo resto do mundo. Não interessa a eles tentar mudar a América da década de 1960. O cenário da trama é um lugar parado no tempo, que emana moralismo e preconceito por seus personagens. Elisa e o ser mágico são bons demais para aquele mundo. Assim como Strickland, que vê ódio no verde justamente onde Elisa vê amor e esperança, aquela sociedade só consegue responder ao diferente com violência. A Forma da Água, então, é um conto de fadas bem sucedido justamente por mostrar, desde os primeiros momentos da projeção, que seus protagonistas não pertencem ao mundo onde vivem. Pior para o mundo.

★★★★

 

* Crítica pertencente a cobertura do Festival do Rio 2017

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