Crítica | Kingsman – O Círculo Dourado

Por Matheus Fiore

Direção: Matthew Vaughn
Reino Unido/Estados Unidos – 2017
Nome Original: Kingsman: The Golden Circle
Elenco: Taron Egerton, Mark Strong, Julianne Moore, Colin Firth, Halle Berry, Channing Tatum, Pedro Pascal, Jeff Bridges & Elton John.

Lançado em 2014, Kingsman: Serviço Secreto é um dos filmes de ação mais prestigiados dos últimos anos. O longa mesclou sequências arrebatadoras com um humor ácido e colorido, tornando-se um ótimo blockbuster. A obra só não atinge seu potencial máximo por não ter coragem de abraçar os gêneros com os quais flerta, focando mais na aventura e menos no absurdo proporcionado pelas situações extremamente inverossímeis ou cenas megalomaníacas. Obtendo sucesso justamente em tais elementos nos quais seu antecessor derrapou, Kingsman: O Círculo Dourado é o que podemos chamar de continuação ideal. Além de expandir o universo criado por seu antecessor, corrige seus erros e, ao admitir que é absurdo, abraça tal característica e proporciona um filme de ação que, em suas camadas mais profundas, debate e até debocha da moralidade do clássico americano conservador.

Para construir as sátiras para o modelo de sociedade americano, o diretor e roteirista Matthew Vaughn faz similar ao bom Animais Fantásticos e Onde Habitam, leva seu núcleo tipicamente britânico para a América e, lá, o coloca em ação ao lado de um núcleo similar, mas estadunidense. A história é simples: após um ataque do Círculo Dourado, misteriosa organização que consegue destruir os Kingsman em quase sua totalidade, o restante da equipe liedrada por Eggsy (Taron Egerton) cruza o oceano em busca de apoio de outro grupo de espiões. A parceria anglo-americana deve, então, impedir que o Círculo Dourado destrua parte da humanidade com um ataque biológico.

Os paralelos entre os filmes são traçados sempre pelo humor. Aliás, a sátira já está presente até nos nomes. Enquanto o serviço secreto britânico é intitulado Kingsman (homens do rei), o americano se apresenta como Statesman (estadista). O título é só uma das muitas formas de Vaugh apresentar os paralelos entre os países, que se prolongam até pelos títulos dos agentes: enquanto os britânicos têm como codinomes os nomes dos cavaleiros da Távola Redonda, os americanos são nomeados por nomes de bebidas.

Ao trazer como antagonistas figuras estadunidenses típicas, como o presidente que emula Donald Trump, a vilã workaholic (e perfeita CEO) vivida por Julianne Moore e um “redneck” que pretende frustrar os planos de Eggsy, Kingsman  torna-se um ataque ao ideal estadunidense. Vaughn ainda é perspicaz ao não focar a vilania da obra apenas em uma figura, explorando corretamente os três personagens mencionados, fazendo com que o inimigo não seja exatamente uma pessoa, mas um ideal político-econômico, que é protegido de diferentes formas pelos três antagonistas – enquanto um presidente negligencia apoio ao seu povo (no melhor estilo Doutor Fantástico), a personagem de Moore apenas segue a lógica do livre mercado e o terceiro luta por seus ideais “morais”.

Amarrando o veneno de sua mensagem política, Vaughn volta a apostar em uma mistura de ação desenfreada e humor abusado – do tipo que testa os limites do politicamente correto, como faz o humorista Louis C.K. em seus shows de stand up.  Na ação, o diretor alcança seu ápice ao trazer sequências que emulam planos-sequência (com claríssimos cortes), mas que se destacam mesmo pela criatividade no uso do cenário a fim de impedir que os combates tornem-se repetitivos. Ainda é elogiável o uso de câmera lenta e zoom-in e zoom-out, que são não só bonitos visualmente, mas essenciais para estabelecer a mise-en-scene, possibilitando que o espectador compreenda a geografia das cenas e compreenda os principais elementos de cada plano.

Já na comédia, Vaughn é ainda mais feliz. Trazendo uma participação memorável do lendário Elton John, a obra consegue escalar seu humor até o fim da projeção, tornando-se cada vez mais irreal ao mesmo passo que essencial para o desenvolvimento da trama – as piadas não funcionam apenas como alívio cômico, mas como saídas do roteiro para o andamento da trama. O cineasta ainda exibe um curioso desejo de testar os limites da aceitação do público em relação a piadas de cunho sexual, com direito a zoom em órgãos genitais (cobertos, claro) que, ao mesmo tempo que proporcionam algumas das mais inteligentes piadas do filme, podem soar misóginas para parte do público.

Se os gêneros funcionam de forma tão fluida, muito deve-se à montagem, que além de acompanhar o timing cômico da obra, sempre é feliz ao alternar entre dois eventos paralelos de ação a fim de segurar o fôlego do espectador, mas sem nunca abusar de cortes rápidos para maquiar a ação. Essencial também é a trilha, composta tanto por faixas originais da obra quanto por músicas pré-existentes – que sempre são encaixadas com maestria para dar sentido às cenas, e lhes imprimem um tom cômico apenas por seu encaixe, como o caso das músicas de Elton John.

Por mais que o primeiro ato do filme seja extremamente expositivo, desenvolvendo a história por meio de inúmeras explicações, seu roteiro, além de sugerir uma sátira muito bem-vinda, é eficiente por não trair seu espectador. Um elemento que surge como solução no ato final já está sendo apresentado desde o ato anterior, evitando que a obra utilize atalhos em sua resolução narrativa. Mas ainda mais interessante é a existência de alguns personagens que servem para evitar o maniqueísmo na crítica de Vaughn. Claro, os estadunidenses, no geral, são tratados como os vilões  da obra, mas há um carinho especial com os personagens de Halle Berry e Jeff Bridges, que, mesmo sendo coadjuvantes com curtíssima participação, mostram-se importantes na trama para trazer algum equilíbrio. Já na parte britânica do elenco, a volta de um dos personagens do primeiro filme existe justamente para que haja um inglês entre os vilões. Assim, Vaughn acerta em sua sátira dos Estados Unidos atual sem com isso santificar o Reino Unido.

O Círculo Dourado é ácido, empolgante e original, sabendo fazer referências a seu antecessor sem que dependa dele para funcionar. Ainda é feliz ao corrigir alguns dos principais problemas de Serviço Secreto, que é a sombra que Colin Firth projetava sobre o protagonista de Taron Egerton. Aqui, o jovem mostra-se mais à vontade e disposto a, junto ao resto da obra, abraçar os absurdos. Justamente por ter noção de que é absurdo, Kingsman: O Círculo Dourado torna-se livre para explorar os limites do deboche e do humor, tornando-se um blockbuster divertido, mas capaz de tecer interessantes comentários políticos.

★★★★

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