Crítica: Como Nossos Pais

Por Matheus Fiore

Direção: Laís Bodanzky
Brasil – 2017
Nome Original: Como Nossos Pais
Elenco: Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Jorge Mautner, Annalara Prates, Felipe Rocha, Sophia Valverde & Paulo Vilhena.

A citação do cientista, escritor e divulgador científico Carl Sagan surge de forma discreta, mas é justamente sobre a ideia que a referência traz que Laís Bodanzky desenha a história e a narrativa de seu novo e multipremiado filme, Como Nossos Pais. A trama gira em torno de Rose, mulher de 38 anos que se sente sobrecarregada por precisar sustentar a casa, cuidar da vida de suas filhas, da sua própria e ainda lidar com um marido infiel e pouco prestativo e uma mãe insensível. Por trás da sinopse sem nada muito surpreendente, Bodanzky revela uma análise sobre o conflito entre os desejos e obrigações do ser humano em uma sociedade falocêntrica e monogâmica.

Como Nossos Pais passa longe de ser um filme sobre o método científico ou astrofísica, como a citação de Sagan pode fazer parecer. A conexão entre a afirmação do cultuado escritor e a forma de moldar a obra serve se traçarmos um paralelo: bem como toda criança nasce cientista por sua instintiva curiosidade – que é ceifada pelos medos e limitações impostos pelos pais -, o ser humano não nasce “monogâmico”. Junto a uma coleção de imposições da sociedade ocidental, que se baseiam em ideias judaico-cristãs (portanto, socráticas), a monogamia surge como uma norma contrária aos instintos. O filme de Bodanzky, então, mostra como o impulso poligâmico é quase um impulso de liberdade, uma busca por ruptura das regras morais de nossa civilização.

Amarrando a ideia à narrativa, Bodanzky faz da luta pela monogamia o centro, mas não a única questão de Como Nossos Pais. A talentosa diretora faz questão de trabalhar as questões que cercam o tema – como o quase inexorável desgaste de relacionamentos e o resultado deles na psique dos personagens. O resultado é um elenco que está sempre em seu limite emocional. Construindo a situação sufocante de Rosa, a montagem é efetiva por sempre saltar de um conflito para o outro – quando a personagem termina uma discussão com seu marido, logo pula para uma briga com sua mãe -, fazendo com que o espectador sinta-se sufocado, bem como a protagonista.

Na fotografia, encontramos ainda mais força na questão do sufocamento. O recorrente uso de planos que retratam Rosa separada de seu marido ou mãe por pilastras é um espetáculo visual. Tais pilastras servem também para cenas em que a personagem principal encontra-se sozinha, como quando Rose briga com sua filha e desloca-se para o canto do plano, entre o limite do quadro e outra pilastra (enquanto, no resto do enquadramento, não há nada). Tanto o elemento visual (principalmente fotográfico) quanto o rítmico (a edição que salta de briga em briga e com uma mesma cadência de cortes por toda a projeção) são uma aula de como enriquecer uma tensão que já existe no roteiro.

Por dar espaço para o improviso nas atuações, Bodanzky permite que todo o elenco se sobressaia. Desde o infiel marido vivido por Paulo Vilhena, que sempre enrola para terminar suas frases e finge surpresa diante de informações que já conhece, até a mãe de Rosa, Clarice, vivida por Clarisse Abujamra, que em sua personalidade livre e despreocupada (retratada tanto pela forma leve como se desloca pelo cenário como pela tranquilidade de seus diálogos) revela-se uma figura muito menos preocupada com as convenções da sociedade. Mas o grande destaque não poderia ser outra senão Rosa, vivida brilhantemente por Maria Ribeiro. Com uma atuação que constantemente atropela as próprias ideias quando se expressa (dando força à sua ansiedade), a protagonista demonstra sempre incômodo e desorientação, saturada pela vida desgastante que leva e incapaz de achar uma solução.

Se por um lado o roteiro acerta ao ceder espaço para os improvisos, que trazem uma naturalidade necessária, por outro o excesso de personagens e subtramas acaba travando a obra. A relação paternal de Rosa, por exemplo, surge sempre como um elemento que pesa em sua consciência, mas que acaba deslocado conforme a questão da monogamia ganha força no segundo ato. O resultado são personagens que funcionam pontualmente, mas que acabam não trabalhados o suficiente para que que tenham seus próprios dilemas. Piora o fato do excesso de clichês mal desenvolvidos trazidos por Homero (pai da protagonista), que sempre sugere interessantes debates sobre angústia e amor, mas nunca sai da sugestão.

Ainda é elogiável a sutileza de Bodanzky ao não ser óbvia quando aprofunda o amante de Rosa, Pedro. Servindo como escapismo de uma rotina sufocante, o personagem funciona principalmente quando ganha destaque pela fotografia, que utiliza mais luz natural e sombras (deixando que tais passagens pareçam, esteticamente, mais vivas) nas cenas mais importantes, que trazem a ele e à protagonista juntos – incluindo um belo momento em que a água do mar tocando os pés da mulher sugere sua excitação com a presença de Pedro.  É ainda empolgante o fato de a diretora escolher utilizar o personagem, em uma cena praticamente muda, para dizer ao público que o problema de Rosa (ou, por que não, de toda mulher?) não se limita ao seu marido, mas a todos os homens criados na sociedade falocêntrica.

Como Nossos Pais é um estudo da mulher contemporânea audacioso, mas que tenta explorar mais desdobramentos narrativos do que sua metragem permite. Um grande longa, que tropeça por alguns excessos pontuais, sem deixar que nenhum deles estrague o resultado final: um filme realista, sincero e, acima de tudo, humano. Mais um belo exemplar do fantástico ano do cinema brasileiro.

★★★★

2 comentários em “Crítica: Como Nossos Pais

  • 6 de setembro de 2017 em 15:33
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    Excelente crítica. No fim você falou que esse filme foi um belo exemplar do fantástico ano no cinema brasileiro, poderia fazer uma lista com esses filmes?
    Sou teu fã, abraço.

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    • 6 de setembro de 2017 em 18:06
      Permalink

      Valeu, Yud!

      Olha, dos que vi, recomendo fortemente: O Filme da Minha Vida, Bingo e Comeback. Mas ainda há os muito elogiados Divinas Divas e Corpo Elétrico, que ainda não tive a oportunidade de assistir.

      Resposta

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