A Bela e a Fera e o Mito da Maldição

Por Leonardo Carvalho

 

França – 1946

Direção: Jean Cocteau, René Clément.

Elenco: Jean Marais, Josette Day, Mila Parély, Michel Auclair.

“A Bela e a Fera”, conto inúmeras vezes parodiado e feito de pastiche nas mais linguagens da arte e da comunicação, aborda o mito em interpretações diferentes. Não são interpretações complexas, muito viáveis até mesmo para um espectador que busca a fonte do entretenimento na película.

Em primeiro lugar, é bom lembrar que o mito está relacionado a um tipo de história fantástica, de heróis, deuses ou fadas, de mágica, geralmente com algum tipo de verdade em sua profundidade. “A Bela e a Fera” possui um formato em seu enredo, seja na literatura ou no cinema, que abriga justamente essa ideia de um fundo real, geralmente moralista, usando a mágica como roupagem.

Ademais, é preciso dizer que um dos mitos descritos abaixo não é válido para qualquer composição artística. “A Bela e a Fera”, seja em qualquer versão, acolhe um final de fábula, em que uma moral da história, à lá Esopo, é acionada para que faça o espectador refletir. Sendo subjetivo, é um aspecto que me incomoda bastante, em conceder moral, mas é inevitável pelo conhecimento paratextual da obra que será analisada aqui.

De outro ponto de vista mitológico, lembramos do mito da maldição na história. Fazendo oposição com a benção, a maldição serve como uma adversidade, também, ao pacífico momento espiritual do indivíduo que, após ser atingido pelo ato maléfico sobrenatural, tem sua paz destruída. No caso do filme, um homem guerreiro e muito bonito, o verdadeiro herói ocidental, é atingido por uma maldição em que ele é transformado em uma fera.

A partir disso, um outro mito é criado, mas um tipo mitológico voltado aos personagens no interior da narrativa. É o mito da crença de um povoado em classificar a tal fera como um ser ruim, muito disso por causa das suas expressões tenebrosas e de seu castelo com uma decoração igualmente assustadora, arcaica e escura. Pegando um pouco do conceito de mito, há um fundo de verdade nisso, já que a magia fez com que o feroz homem-animal carregasse, como uma consequência, uma gigante ira contra os curiosos locais.

Por fim, deve-se dizer que há o mito em toda a construção fantástica de “A Bela e a Fera”. Toda a estrutura de um conto de fadas é enfatizada na película, com elementos mágicos de castelo, uma representação de princesa e príncipe, o medo, a coragem, o bem contra o mal e personagens fantasiosos, como as personificações humanas de objetos inanimados: a vela, o bule, os bustos.

O castelo, então, pode ser entendido através de um pensamento em que há uma personificação de vida naquele local. As paredes parecem ter olhos e ouvidos, é uma função panóptica a favor da fera que reina o castelo, em que a vigia é seguida, em determinados momentos, de punições. A decoração do castelo é brilhante, diga-se de passagem. A antropomorfização dos objetos condiz com o caráter assustador da mansão, aparentemente, assombrada. Há um estilo expressionista, de jogo de luz e sombra a favor do horror, e a música ajuda a criar a atmosfera macabra.

É interessante reparar no relógio do castelo. Quando entramos no lugar junto a um personagem, nos primeiros passos de um indivíduo na mansão da fera, o tic-tac do tempo em um som bastante grave é essencial para que haja o ambiente de suspense. A direção de arte é impressionante, com alguns adereços pontudos, lembrando a paisagem gótica, e, mais uma vez, ajudando na coerência e na afirmação do clima.

A fera também é tenebrosa, muito bem caracterizada, sobretudo em figurinos demasiadamente chamativos. Uma pena que as atuações não sejam tão boas, não só sobre o homem-animal, mas sobre os outros personagens principais. Elas são caricatas demais, ainda que a proposta seja teatral. A tentativa de comicidade é escorregadia por haver muito exagero, longe da boa representação do suspense; quando há a necessidade de haver dramatização, a hipérbole volta a aparecer em vez de haver representações mais contidas.

Um outro ponto ruim é a extensão da narrativa em diálogos entre os dois protagonistas. Os primeiros momentos são ótimos, em debates sobre aparência, por exemplo, mas depois ficam enjoados, cansam o ritmo, e voltam a ficar bons apenas na conclusão, mas só após um hiato de qualidade. Mesmo assim, a obra dirigida por Jean Cocteau  e René Clément deve ser reconhecida por sua maior parte poética e as boas coordenações técnicas.

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