Amor e Repressão em Violência na Carne

Por Matheus Fiore

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A cena do carro em chamas no ato de abertura de Violência na Carne pode parecer algo deslocado do tom do filme, mas há uma mensagem implícita. Se analisarmos a obra em seu contexto histórico, na fase final da ditadura militar (começo dos anos 80), a escolha do diretor Alfredo Sternheim serve como um aviso para o espectador. Por trás do erotismo e da simplicidade com que se constrói e desenvolve a trama, há um grito de liberdade, uma busca por beleza na rebeldia, estabelecida pelo bonito piano que acompanha a imagem do fogo consumindo o automóvel.

Na história, um grupo de amigos repousa em uma casa de praia até que um trio de bandidos, fugitivos da cadeia e portando uma mala com 4 milhões de cruzeiros, faz a turma de refém enquanto traçam o plano para fugir do país com a grana. Até no roteiro, então, podemos ver a expressão do necessário escapismo da época, já que durante a ditadura, o desejo de muitos dos brasileiros era a fuga para outros países, que é justamente o projeto dos vilões.

O escapismo também é presente no erotismo. Com exceção das cenas de estupro, a escolha de Sternheim é impor sensualidade às imagens e expressar o prazer dos personagens, como se o sexo (principalmente o homossexual) fosse uma ferramenta de libertação em tempos de repressão. Ainda trabalha-se a Síndrome de Estocolmo, conforme uma das mocinhas do filme se aproxima do líder dos bandidos, quando a identificação surge cimentada pela desilusão latente dos dois. Os conflitos internos dos personagens acabam servindo para distanciar o filme de uma visão binária, explicitando como enquanto alguns dos vilões são essencialmente cruéis, outros são fruto dos contextos sociais nos quais cresceram.

Em termos de técnica e linguagem, o filme não possui grandes pretensões. Podemos destacar como Sternheim cria boas composições no terço final da projeção, principalmente, utilizando planos conjuntos que retratam todo o grande elenco do filme e sabendo retratar com imagens o abalo psicológico de alguns dos personagens que mais sofrem ao longo da história, isolando-os no canto menos forte do enquadramento (o inferior esquerdo) e com pouca iluminação. Destaque mesmo merece o uso da música, que mesmo com as limitações da edição e mixagem de som do cinema brasileiro, consegue deixar sua marca principalmente por utilizar temas que imprimem beleza (assim como na cena do carro) às cenas de sexo, o que volta a enaltecer o tom libertador da obra.

Indo muito além de interpretações mais “duras”, que limitariam o filme às suas cenas de sexo, Violência na Carne é um grito de liberdade de uma geração que viveu sufocada por um regime militar durante décadas. Uma legítima e admirável expressão artística oriunda da Boca do Lixo que evidencia a necessidade de escapismo do brasileiro que viveu a ditadura. Mais do que um bom filme, um documento de nossa história, um registro de uma necessária abstração em forma de filme.

 

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