Meia Noite Levarei sua Alma: O Niilismo em Zé do Caixão

Por Matheus Petris

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O que é a existência? Indaga José Mojica Marins em uma rápida cena que antecede os créditos iniciais do filme “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”. A definição que ele dá a vida, é uma ideia quase que de sentido biológico in natura, no sentido dessa opinião ser mais eficiente do que todo os mistérios que cercam a “vida”. Essa é base de todo o ceticismo de “Zé do Caixão”.

Mojica, encarnado em Zé do Caixão, é como um próprio niilista.

Logo após os créditos iniciais, temos o contato com o sobrenatural e o mítico, em resumo, contra tudo aquilo que Zé do Caixão acredita (ou desacredita). A “Bruxa”, faz contato com o público, essa quebra da quarta parede, que hoje em dia de tão difundida pelo cinema contemporâneo acabou se tornando banal e quase sempre usada de forma gratuita, aqui tem outro objetivo – funcional, inclusive -, ela serve como base ao absurdo, ao horror, a tudo aquilo que o filme de Mojica propõe. É uma apresentação, ela nos alerta do que está por vir, e reforça se tratar de um filme.

Com a devida ideia introduzida e um universo categorizado, acompanhamos Zé do Caixão despreocupado em um enterro, como se banalizasse a vida ou simplesmente aceitasse seu fi. Chega em casa, reclama dos presentes e de toda essa frequência, bravejando pelas pessoas se importarem tanto com esse final tão tolo e óbvio. Na mesma cena, ainda é possível entender um pouco daquele personagem, que serve como evidência a tudo aquilo que antecedeu aos créditos: a total descrença e despreocupação com o sentido da vida e, principalmente, contrário às ideias religiosas. Enquanto alguns não comem carne em respeito a sexta-feira santa, Zé, como é chamado pela mulher, vai atrás de carne, busca consumir aquilo que ele gosta, pura e simplesmente pelo prazer de comer. E é neste sentido contrário que um plano singelo e bem explicativo denota: Zé do Caixão comendo carne com as mãos, quase como um animal, e olhando os “crentes” lá fora, realizando seus cultos – um inclusive que nota o “desrespeito” praticado por Zé do Caixão.

E é justamente esse mesmo Zé, despreocupado, descrente e que simplesmente leva sua vida sem nenhum temor, é também temido por toda a população do bairro. Eles que “acreditam” em toda e qualquer superstição, dado religioso ou derivados, se espantam com Zé e sua descrença, suas falas e seus trejeitos. Ele aproveita dessa deixa, esse pré padrão estabelecido por eles, e abusa, multiplica-o, como se fizesse questão de que todos acreditem em sua maléfica “personalidade”.

A bruxa do início, que nos alertou, alerta também os integrantes daquele universo – a mesma é obviamente ignorada por Zé, demonstrando aquilo que já fora evidenciado e corroborado. Toda essa desconfiança, pode ser tida por muitos como “ódio”, mesmo não tendo relação nenhuma. Como bem disse o próprio personagem: “Eu não posso ter descrenças, quando nunca tive crenças.” E esse é justamente o ponto, a crença é atribuída por uma construção social e não intrínseca ao ser-humano. Novamente parafraseando-o: devemos temer a vida e não a deuses e crenças.

Os mitos e superstições também estão rodeando toda a trama, como a próprio cor preta, o gato preto, andar no cemitério a noite, entre outras coisas que Zé brinca e se diverte demonstrando sua coragem. O mesmo só é desafiado pelo próprio sobrenatural, que mesmo o enxergando, o encontrando, continua pela busca de uma explicação lógica e racional, toda a estrutura e apresentação de ideias é rompida e abortada, assim alternando para o sobrenatural, de todo o absurdo anunciado. É aí que reside a crítica.

Todas as mortes e os exageros desembocam justamente nesses planos finais, nesse aspecto sobrenatural, sombrio e fantasmagórico que toda a base ceticista resolveu mostrar e evidenciar.

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