Crítica: Mulher Objeto

Por Philippe Leão

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Silvio de Abreu, diretor de Mulher Objeto, foi conhecido por fazer as melhores novelas da época. Talvez por isso a obra em questão carregue muito da linguagem das telinhas levada ao Cinema. Mas aqui há algo além do que era produzido em massa na lógica do erotismo da Boca do Lixo. Mulher Objeto trás certa influência de dois grandes diretores e filmes que fizeram carreira nos anos 60: Roman Polanski e Alfred Hitchcock.Silvio de Abreu, diretor de Mulher Objeto, foi conhecido por fazer as melhores novelas da época. Talvez por isso a obra em questão carregue muito da linguagem das telinhas levada ao Cinema. Mas aqui há algo além do que era produzido em massa na lógica do erotismo da Boca do Lixo. Mulher Objeto trás certa influência de dois grandes diretores e filmes que fizeram carreira nos anos 60: Roman Polanski e Alfred Hitchcock.

A proximidade com Polanski está relacionada com a temática desenvolvida muito mais do que com a narrativa, o como. O filme do qual podemos traçar algum paralelo é Repulsa ao Sexo (1965). Neste temos uma personagem – vivida de forma marcante por Catherine Deneuve – que é reprimida sexualmente. Enquanto isso, Helena Ramos, uma das musas das chanchadas, é uma mulher que não sente prazer no ato sexual em Mulher Objeto. Mais uma vez, a maneira de conduzir o tema diferencia um do outro. Enquanto um internaliza os problemas, trabalhando no lado mais escuro, onde reside a dúvida, o outro, Mulher Objeto, busca tornar aparente, levar à luz as problemáticas inconscientes de sua personagem de maneira progressiva.

Reside justamente aí a grande diferença temática entre os dois filmes (mais uma vez, narrativamente ambos são muito diferentes, incomparáveis). A busca por trazer a luz os problemas internalizados de Regina (Helena Ramos) transforma a obra em um filme de investigação do inconsciente, a busca pelos motivos quais a personagem não sente prazer no sexo. Há em ambos os filmes uma aparente pressão social que envolve a ausência do prazer, afinal, tratam-se de mulheres que “não estariam cumprindo seu papel reprodutivo e/ou o dever de dar prazer ao homem”. Em diversos momentos esta situação é exposta em Mulher Objeto, tanto nos comentários de Hélio (Nuno Leal Maia), marido de Regina, como da família da personagem principal. Há, contudo, uma peculiaridade na personagem de Helena Ramos. O prazer é bloqueado por problemas que se evidenciam mais à frente, mas o desejo sempre esteve presente. Em especial, o que ronda a problemática está relacionado aos seus sonhos, Regina sonha tendo relações sexuais com outros homens, mas jamais com seu marido, nem no campo das ideias, nem no real, mesmo assumindo ama-lo. Há um bloqueio de ordem psicológica.

Nem mesmo nos sonhos, porém, ela sente prazer no ato sexual. No momento em que seus desejos estão tomando conta das imagens de seus sonhos,  relances de algumas outras imagens atordoam seus desejos e a bloqueiam de cumpri-los.

Fica evidente, então, que algum acontecimento em sua vida fez com que Regina se reprimisse sexualmente. Nestes flashs de imagens que irão se justapor algumas figuras são recorrentes: imagens de uma menina presa atrás de uma espécie de grade e pombos atordoados. Chega, enfim, a figura da analista, que ajudará Regina a trazer à tona as respostas aos problemas que a atordoam, desvendar as imagens de seu inconsciente.

Chegamos à ligação com o segundo diretor mencionado no inicio deste texto, Alfred Hitchcock. Fica evidente a referência de Os Pássaros quanto a questão dos pombos. A forma de criar suspense acerca dos pássaros carrega clara influência do mestre britânico. Para sacramentar tal influência percebemos em certos momentos que Silvio de Abreu reutiliza trilhas sonoras de Psicose para desenvolver a atmosfera e, por final, algumas cenas, como a do banheiro, também referenciada em Mulher Objeto.

Como já dito, há um objetivo na obra de Silvio de Abreu: investigar e tornar consciente os problemas que reprimem Regina. Para tal, com o desenvolvimento da trama vamos descobrindo que a origem de seus problemas sexuais tem relação com questões de ordem religiosa. A personagem descobre, enfim, que algumas de suas imagens vêm do orfanato de onde veio. Lá era reprimida fisicamente por seus desejos, castigada.

Em um primeiro momento acreditamos que os problemas estão encerrados. Seus prazeres eram bloqueados ao trazer à tona as imagens dos castigos que a impediam que suas vontades se realizassem. Os pombos atordoados, talvez, uma imagem do Espírito Santo sob forte agitação, e a menina presa impedida de realizar suas vontades.
Mais tarde essa teoria, contudo, vai se desconstruindo. A desconstrução, porém, não é um abandono total de sua validação, ainda faz parte dos problemas de Regina. Isso acontece porque descobrimos o real motivo, presa atrás das grades, dentro de um pombal. As imagens do inconsciente finalmente tornam-se consciente.

O filme é um grande novelão. Há um requinte na forma de se fazer, apesar da nudez explicita que, se grande parte fosse cortada, poderia render um material bem melhor. Diferencia-se das novelas por ter o desenvolvimento temático mais aprofundado e, também, uma linguagem que, em alguns momentos, se aproxima do Cinema.

 

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