Ritual dos Sádicos: a separação do “eu real” e do “eu fictício”.

Por Leonardo Carvalho

 

Brasil – 1970

Direção: José Mojica Marins

Elenco: José Mojica Marins, Sérgio Hingst, Andréa Bryan, Mário Lima, Ozualdo Candeias, Carlos Reichenbach.

 

Autopreservação.

Não há dúvidas de que José Mojica Marins é um dos grandes injustiçados da nossa cinematografia. Resumido apenas como o personagem Zé do Caixão e pelos títulos dos seus filmes, que causam ridicularizações para a maioria, a figura do diretor acabou sendo direcionada a maus olhares através do senso comum.

Não há problemas em enxergar José Mojica Marins como um diretor ruim, como um cineasta de pouca contribuição, entre outros aspectos, mas a forma como o taxam que é o grande perigo, sem argumentos, apenas pelo o que foi dito no parágrafo acima. Não só agora, mas também antigamente, esse tipo de associação perigosa ocorria, não é por menos que em “Ritual dos Sádicos” uma quebra imensa pela metalinguagem é utilizada para o cineasta se autoafirmar como um diretor importante na filmografia brasileira.

Se pegarmos “Ritual dos Sádicos” como exemplo, observamos centenas de elementos brilhantes na condução de Mojica. Entre esses elementos está a metalinguagem, em que pensamos na forma como o diretor se autopreserva. Criador e criatura estão no interior da narrativa, Mojica e Zé do Caixão. Isso acontece pela razão de, na mesa redonda com figuras intelectuais ao longo da trama, um dos indivíduos se referir a Mojica como Zé do Caixão, em que ele logo responde: “Zé do Caixão ficou no cemitério, sou um cineasta, José Mojica Marins”.

A separação entre as figuras é uma afirmação clara do cineasta brasileiro de que o paratexto Mojica, o “eu real”, não é a mesma coisa que o intratexto, como chamo aqui, Zé do Caixão, o “eu fictício”. Mais ao final, ao entendermos a proposta da película e do experimento feito por um médico daquela mesa redonda, percebemos a grande distinção entre ambos. Um é o personagem, o outro é o autor.

Tudo isso parece muito óbvio, mas o que foi falado acima acerca de haver um discurso perigoso sobre taxação do diretor em seu personagem, por exemplo, precisa de esclarecimentos quase que desenhados. Mojica é o diretor reconhecido do cinema brasileiro, reconhecido até mesmo por Glauber Rocha e Anselmo Duarte. Zé do Caixão é a figura tenebrosa, o mal personificado nas obras de Mojica, um dos grandes ícones do cinema de terror.

A autopreservação não é, portanto, gratuita. É um “meio didático” de explicar, pelos pôsteres, por exemplo, que o Zé do Caixão é um personagem macabro nas obras de Mojica. A autopreservação aparece, outrossim, como um meio de reforçar toda a importância acerca de Mojica e Zé do Caixão. Para isso, uma marchinha com o nome do personagem é colocada como fundo sonoro em certo momento da narrativa. Quando vemos o cineasta na mesa de debate, vemos, sim, a figura intelectual, ele não é Zé do Caixão, este está no cemitério, no cemitério cenográfico de obras fictícias.

 

O mal internalizado.

A mesa de debates que acontece em um programa fictício discute a mente humana através dos meios biológicos, sociais, psicológicos. Vemos palavras que remetem aos três campos citados acima, mas tudo isso com base nos tóxicos, como os grandes influenciadores, em um primeiro momento, do mal humano.

Toda a narrativa é ditada através de pequenos contos, para os intelectuais em discussão são relatos, de perversidade de homens contra mulheres sobre a ideia de que o tóxico, as drogas, influencia a mente humana para seu lado perverso, colocando sempre o lado feminino para o lado oprimido e o lado masculino como o lado opressor.

Assim pensa o diabo, assim pensa o Zé do Caixão dos delírios, não pensa Mojica. Em todos os relatos que assistimos junto ao pessoal da mesa redonda, fazemos parte dela, percebemos interpretações diferentes para o que está acontecendo, e nós, espectadores, também tiramos nossas conclusões. Junto a eles percebemos que existe a ideia do machismo imperando sobre, muitas vezes, à fragilidade da mulher, sobretudo em um momento de necessidade.

É preciso pensar que nada disso é forçado, tudo é muito implícito, o espectador precisa pensar muito para tirar tais conclusões. Depois de o médico revelar a verdadeira forma como trabalhou, no grande ápice da narrativa, através de placebos, percebemos duas coisas: a primeira é a de que o ser humano pode ser considerado um simples animal, pois ainda que racional, é pautado por seus instintos, está baseado em suas mais fortes necessidades, portanto, é mais irracional do que racional; o segundo ponto está ligado à ideia de que existe um mal internalizado, como vemos em “Senhor das Moscas”, de William Golding, trazendo “Leviatã”, de Thomas Hobbes, com a ideia de que sem o contrato social, sem o controle de uma instituição, um estado, os seres humanos são propensos a não possuir qualquer tipo de organização, fazendo com que a espécie seja, na verdade, um vírus, um ser vivo capaz de destruir a vida a sua volta. O tóxico para estimular o mal, então, é apenas uma desculpa, pois o mesmo mal já está, naturalmente, em nós, inerte.

Nosso inconsciente, para finalizar este tópico, é simbolizado como um verdadeiro inferno mojiquiano, ou seja, recheado de partes surrealistas, de figuras deformadas, cores misturadas e uma sensação de delírio. Precisamente, o cineasta acerta na utilização de muitos cortes, planos aproximando e desaproximando o tempo inteiro e muitas figuras sendo vítimas, o que deixa tudo com uma atmosfera sombriamente surreal. Esse inferno de delírios é o inconsciente humano, o inconsciente que nos dita a fazer o mal não só através dos impulsos das drogas, mas pelo impulso natural humano.

 

Conclusão.

Nada convencional, “Ritual dos Sádicos” brilha ao trazer o sujo na direção de arte, a dor pelos olhares dos atores e a montagem extremamente acelerada, fora as questões filosóficas e psicológicas. Nada convencional pela temática abordada, nada convencional pela forma como a temática é construída. Nada convencional pela nudez confrontada com o instinto humano, nada convencional pela proximidade que vemos uma agulha sendo injetada na pele.

Perturbador. Por isso foi censurado no Brasil em épocas de ditadura militar, época tão sombria quanto o tal do inconsciente infernal humano discutido acima. Só lançado em 1982 como “O Despertar da Besta” em mostras muito particulares, o público pôde, finalmente, enxergar um cineasta complexamente primitivo, pois com os poucos recursos, com as barreiras da época de se fazer cinema no Brasil (aí está o primitivo, a limitação primitiva), Mojica, brilhantemente, concede-nos uma obra-prima.

Através do que foi falado ao longo do texto, devemos repensar em algumas questões sobre a cultura brasileira. Se não nos resumimos em samba e futebol, devemos pensar que nosso cinema não se resume em filmes de comédia superficial e em filmes sobre a favela. Nosso cinema é brilhante, temos terror, temos poesia e direções que vão muito além dos estereótipos colocados pela maioria.

 

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