Crítica: São Paulo S.A

Por Matheus Petris

Facebook: www.facebook.com/cineplot
Twitter: @Cineplotoficial
Instagram: @Cineplotoficial

 

São Paulo SA ou São Paulo Sociedade Anônima é, entre muitas outras coisas, um filme sobre São Paulo, e verdadeiramente sobre São Paulo, uma cidade em ascensão, seja lá o que essa palavra possa significar para os meros peões no jogo da indústria automobilística. Por mais óbvio que o título possa parecer, além de um retrato sobre a cidade, o filme é um retrato sobre o ser-humano inserido naquela sociedade em desenvolvimento constante, sob total pressão, e, também, o seu problema em adaptar-se e construir algo, alcançar os tais “objetivos”.

Person constrói no plano inicial quase tudo aquilo que mencionei no parágrafo anterior. Em plano geral, ele exibe um casal por detrás de uma grande janela de vidro, completamente transparente, o casal discute, escutamos os gritos totalmente “abafados” pela cidade, cidade essa que no reflexo desse vidro, podemos enxergar os diversos prédios que os cercam, que os asfixia. A discussão termina com contatos físicos, Carlos (Walmor Chagas) jogada objetos ao chão e logo em seguida, joga Hilda (Ana Esmeralda) violentamente contra o chão, naquilo que dita uma espécie de encerramento, de desistência de tudo. Logo após sua saída do local, e ainda com Hilda no chão chorando, a câmera que estava fixa até o presente momento, começa realizar um movimento lento, até trocar de eixo e mostrar a cidade apenas pelos olhos da câmera. No silêncio, a movimentação continua, até o momento do corte, e quando São Paulo toma o quadro para si – em mais um plano asfixiante – no qual prédios são mostrados em contra-plongeé, enquanto a câmera continua a movimentar-se sobre seu eixo, em seguida a trilha sonora começa, pesada, forte e perturbadora, tal como todos os minutos que acabamos de assistir. Devidamente introduzida, a relação entre a cidade e os personagens tomará corpo durante todo o filme. Há ainda mais planos de São Paulo, além de prédios. Há principalmente pessoas – e muitas delas. A periferia é também filmada – não tão profundamente como Sganzerla, mas ele o faz, um outro momento bem comum dentro de um país industrializado, também: a saída dos funcionários de suas fábricas, o que pode ser lido como uma referência a própria história do cinema.

Dentro de todo essa lógica de industrialização do Brasil, que como todos bem sabemos, chegou muito tarde por aqui, existe um fator vindo dos Estados Unidos inexorável a esse período pré-ditatorial, no qual sua cultura ia sendo aos poucos transmitida a nós, não só diretamente, como indiretamente. Dentro do filme, as aulas de inglês oferecidas pelas empresas e os próprios diálogos entre os personagens, evidenciam a conhecida cultura do “americano”. É curioso notar que toda essa industrialização que emergiu a classe média, aqui também é pincelada, como exemplo a cena filmada em uma galeria de arte, um local de não tão fácil assim anos antes. Toda a construção em volta da sociedade paulista é feita da forma mais completa e competente possível, para só assim avançar aos âmbito individual dos personagens, de seus problemas e do que a cidade vem causando a eles.

A poluição de todo esse país emergente, no sentido figurado e literal, evidencia também um outro lado do Brasileiro: o lado corrupto. Essa corrupção existe das duas formas, as corrupções corriqueiras, tão “bem aceitas” pelo mundo capitalista e seus empresários e, claro, as questões mais complexas.

E o que toda essa pressão fez com Carlos? O esgota, o desanima, o incapacita. O “destino” dele é a fuga, a desistência, é aquilo que virá logo após o fim da discussão – que é o início do filme. O início é também o momento de decisão, é a escolha em tentar fugir daquilo que lhe incomoda, que não faz mais sentido para si.

As possibilidades do crescimento profissional em São Paulo não são suficientes; O estilo de vida americano não é tão bom assim; A selva de pedra oprime, sufoca e esgota os que estão em seu meio e, até provocam uma ação desesperadora, fazem com que Carlos roube um carro e fuja, mesmo que sem destino, apenas escapar de todo o caos que se tornou sua vida e São Paulo…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *