Crítica: Bingo – O Rei das Manhãs

Por Philippe Leão

 

Direção: Daniel Rezende
Brasil – 2017
Elenco: Vladimir Brichta; Leandra Leal; Ana Lúcia Torre; Arlindo Barreto; Augusto Madeira; Cauã Martins; Domingos Montagner; Emanuelle Araújo; Pedro Bial; Tainá Müller

 

O editor Daniel Rezende inicia com Bingo – O Rei das Manhãs uma nova etapa em sua carreira. O filme é uma estreia convincente como diretor para as telonas, trazendo uma abordagem diferenciada para as cinebiografias convencionais.

O filme contará a história de um personagem icônico da televisão brasileira dos anos 80: o palhaço Bozo, muito bem caracterizado por Vladimir Brichta. Contudo, é pouco interessante que se faça uma comparação com o personagem original. Seja por autêntica vontade ou para fugir de disputas judiciais envolvendo direitos autorais, o filme desvia o foco de qualquer historicismo, e entrega uma temática que poderia ser relacionada a um personagem ficcional qualquer, não apenas o Bozo. Em outras palavras, o filme funciona, tirando alguns problemas, muito além de uma biografia.

As características autênticas do longa-metragem passam, em um aspecto mais visível, por mudar os nomes de todos os personagens em questão. Assim nasce Bingo, uma persona diferente, que pode ser o que quiser por trás da máscara, que entrega à Brichta maior número de possibilidades que não apenas uma cópia do personagem histórico.

Um programa de sucesso nos Estados Unidos estava sendo trazido para o Brasil. Para tal, evidentemente, a cara deste programa deveria ser escolhida. Há, contudo, uma restrição: ninguém, jamais, poderá saber quem é o homem por trás da máscara. À medida que a história se desenvolve percebe-se, porém, que Bingo já fazia parte de Augusto Mendes. Augusto Mendes era Bingo, e vice e versa.

A verdade é a seguinte: O homem por trás da máscara, que não poderia ser revelado, pouco importava. A máscara já fazia parte do ser. A construção dessa máscara é uma progressiva durante a película. A transposição americana não haveria de dar certo no Brasil. Segundo o próprio protagonista: “o Brasil não é para iniciantes”. Para tal, com a “ajuda” da diretora, o programa foi repaginado à cara da máscara de Augusto, de Bingo. Um programa para crianças, mas com um humor ácido capaz de atingir maior público e se estabelecer no gosto popular.

A esquizofrenia – no bom sentido – não chega a ser do tamanho que poderia ser, mas consegue entregar um bom resultado que, aliás, são os melhores momentos do filme. A chantagem emocional, porém, é o ponto fraco da película, uma quebra de ritmo narrativo expressivo. Em especial as cenas com o filho a partir do segundo ato são a parte mais sem graça, deslocando-se do restante do filme. No momento em que esta relação parece ganhar um sentido mais elevado, é enfraquecido a medida que resolve no quadro seguinte.

A versatilidade técnica de Daniel Rezende é, sem dúvida, passível de elogios. Em meio a loucura inerente ao personagem, onde a montagem estabelece um ritmo mais veloz, psicodélico, o diretor consegue impor momentos de sensibilidade única com jogos de luz e movimentação de câmera.

Apesar de um desfecho chapa branca, não condizente com o restante do filme, Bingo – O Rei das Manhãs é uma grata surpresa de um diretor estreante. Mais que isso, é um bom filme capaz de agradar os mais diversos públicos, importante no cenário nacional e para a busca de público.

★★★

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