Crítica: Lady Macbeth

Por Matheus Fiore

 

Direção: William Oldroyd
Reino Unido – 2017
Nome Original: Lady Macbeth
Elenco: Florence Pugh, Cosmo Jarvis, Naomi Ackie, Christopher Fairbank & Paul Hilton.

Ao fazer uma análise de um filme, o primeiro passo do autor desta crítica é procurar o fio que conduz a narrativa. Encontrar a ideia, mensagem ou conceito, seja filosófico, artístico ou até algo mais efêmero e mundano, é o ponto de partida para a construção do texto. Filmes como Lady Macbeth, porém, encurralam quem assim estrutura a análise, por oferecer, muito além da trama principal, diversas opções de interpretação acerca do material apresentado na obra. Tal característica é rara em um filme do atual cinema mundial, e se tornou ainda mais surpreendente com minha descoberta de que é apenas o primeiro longa-metragem do cineasta inglês William Oldroyd.

Ambientado no século XIX e inspirado na obra literária do russo Nikolai Leskov, Lady Macbeth conta a história de Katherine, jovem vendida em troca de uma pequena porção de terra que se casa com um rude rapaz e vai morar em sua casa, ao lado do sogro e dos servos. Lady Macbeth já prende a atenção de seu espectador no primeiro plano, mostrando-nos o casamento de Katherine e seu marido. A opção de começar a cena in media res – isto é, no meio de um acontecimento, não no começo – é certeira para fazer com que o público se sinta na mesma situação da jovem protagonista – despreparado e confuso. Katherine, como quase toda jovem inglesa com casamento arranjado, sente-se desconfortável e manipulada. Ainda destaca-se a inteligência do filme ao não utilizar diálogos para dizer ao público que o casamento é arranjado, mas sim mostrar, por meio dos olhares de Katherine, que, enquanto canta uma canção religiosa, olha para seu marido, como se estivesse conhecendo suas feições.

Ao chegar a seu novo lar, Katherine vê-se à mercê do esposo. Proibida sequer de passear pelos bosques sozinha, a jovem sente-se sufocada pelo estilo de vida a ela imposto – algo que o filme trabalhou tão bem que se fez presente no poster, quando Katherine é colocada entre as palavras do título, sugerindo-se assim o sufoco. Novamente destaca-se o poder visual do filme, que, em vez de trazer diálogos para expressar a sensação da personagem, prefere utilizar enquadramentos e movimentos de câmera para tal. Quando dentro de casa, Katherine é sempre enquadrada de forma centralizada, de frente para a câmera, como se aguardasse ordens, e sempre com uma postura dura, acompanhada por planos estáticos, com pouquíssimo ou quase nenhum movimento. Já nos takes externos, vemos uma estética praticamente oposta. Além dos cabelos soltos, que acabam sendo balançados pelo vento (que se faz presente por meio da fantástica edição de som), a personagem caminha livremente, sendo retratada em variados cantos do plano e filmada com câmera na mão, o que deixa a imagem menos fixa e cria a sensação da almejada liberdade.

Assim como o recente (e ótimo) Ao Cair da Noite, Lady Macbeth escolhe planos muito sutis para funcionarem como a bula da obra. Se, no primeiro, o quadro que retrata a peste negra e o desenho do filho do protagonista são um sinal de que a obra é uma visão de como a doença destruiria a humanidade (mais uma vez), o segundo utiliza as mãos da protagonista deslizando sobre o corrimão da casa como indicativo de que Lady Macbeth é, a priori, uma análise da decadência da civilização naquele período. A relação dos dois planos é clara: em ambos, o corrimão está enferrujado, desgastado, mas, no primeiro, a personagem ainda era uma jovem inocente, enquanto, no segundo, tornou-se uma pessoa fria e cruel.

A transformação de Katherine está presente, inclusive, no figurino do filme. Enquanto no começo ela utilizava um lindo e brilhante vestido (mesmo que incômodo), quando começa a cometer seus crimes, a personagem passa a utilizar um vestido negro com detalhes vermelhos, que parecem indicar o apodrecimento moral – e que, de quebra, levam a personagem a ser parte da composição da casa, fazendo manutenção das mesmas cores. A desconstrução de Katherine se faz presente também no cabelo, que inicialmente está sempre arrumado, enquanto, ao final da projeção, vemos a personagem com seu cabelo ruivo desgrenhado.

A direção de Oldroyd também acerta por não subestimar seu público. Ao construir, durante o primeiro ato, a relação de repulsa e alívio que a personagem respectivamente sente quando dentro e fora da casa, é compreensível que a protagonista tenha um pico emocional (nunca expresso por falas) quando informada de que não poderia mais deixar a morada para passear pelo bosque. E, se coragem e técnica já destacavam o trabalho do jovem diretor, referências a gênios da sétima arte ainda tornam seu trabalho mais audacioso. A clara inspiração em Barry Lyndon, um dos mais subestimados trabalhos de Kubrick, se faz presente desde o tema do filme (o clássico do americano retratava a decadência burguesa e capitalista no século XVIII), até os enquadramentos, que utilizam planos mais fechados ao retratar os criados e outros mais abertos para Katherine, seu marido e sogro, dizendo-nos quão sufocante era a vida dos negros do período e quão abastada era a vida dos brancos naquele contexto – algo também feito por Kleber Mendonça Filho em Aquarius, inclusive.

E, se Kubrick mostra-se uma referência temática e visual para a obra, é natural, então, que os mais aficionados por filosofia enxerguem em Lady Macbeth um viés anti-platonista, quase pré-socrático. A inocência de Katherine é ceifada justamente pelo matrimônio e pela vida monogâmica a ela impostos – temas muito presentes em toda a filmografia de Kubrick. E, ainda voltando às cenas em que o corrimão enferrujado é destacado, com eles a obra ainda faz questão de mostrar que a casa já estava em deterioração antes da chegada da moça, que apenas foi “contaminada” pelo espírito egoísta e platônico daquele lar e se tornou um produto daquele meio.

Com a manutenção de um clima de suspense sufocante por toda sua metragem, Lady Macbeth torna-se um retrato da decadência moral da humanidade no século XIX. Com uma profundidade temática admirável, o filme ainda lembra que, além do conteúdo, uma boa execução é fundamental, algo que a obra tira de letra pelo exímio técnico, principalmente na direção, na direção de arte e na fotografia. Em tempos em que o cinema, aos poucos, esquece como trabalhar o plano e a dialética da imagem, Lady Macbeth é um respiro para a sétima arte, unindo sutileza, qualidade, profundidade e competência.

 

★★★★★

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