Crítica: O Estranho que nós Amamos

Por Philippe Leão

Direção: Sofia Coppola
EUA – 2017
Nome Original: The Beguilled
Elenco: Nicole Kidman; Colin Farrell; Kirsten Dunst; Elle Fanning; Oona Laurence; Angourie Rice; Addison Riecke; Emma Howard

O Estranho que nós amamos, da diretora Sofia Coppola (Virgens Suicidas), é uma adaptação do filme homônimo de 1971 dirigido por Don Siegel e estrelado por Clint Eastwood. As diferenças de ambiente e de intenções são bastante claras, porém, quando se comparam as duas obras. A versão de Coppola da uma atenção mais calorosa às personagens femininas, entregando um erotismo muito particular, uma vez que sua essência se concentra no mistério, no não mostrar.

O filme é ambientado na Virgínia, estado sulista, durante a guerra da secessão americana. Durante um de seus passeios corriqueiros ao bosque, onde colhe cogumelos, Amy (Oona Laurence) se depara com um soldado da união ferido, um “ianque”. A jovem o ajuda ao leva-lo até o abrigo onde reside com outras seis mulheres. Há nesse momento um conflito inicial que se estabelece como o primeiro motor narrativo da trama, a presença do inimigo.

O soldado (Colin Farrell), gravemente ferido na perna, recebe atenção imediata de Martha, a chefe da casa. Enquanto isso, as demais jovens estão inquietas e curiosas com a presença de um homem, algo incomum em uma casa de sete mulheres. Já neste momento percebemos que o filme tomará novas direções. Após cuidar da perna do homem, Martha irá limpa-lo. Sentimos pela primeira vez uma tensão sexual impulsionada por uma câmera bastante sutil e potente de Sofia Coppola – vencedora da Camera D’or no festival de Cannes por este filme – onde uma justaposição de planos entre o semblante de Kidman e o corpo de Farrell em planos extremamente fechados. A escolha por planos fechados para apresentar a tensão sexual é extremamente acertada. A opção cria um erotismo forte à medida que intenciona o desejo pelo que, obviamente, não se tem, aquilo que não se permite ver.

Logo há uma virada temática no longa-metragem. A Guerra de secessão, que inicialmente parece se configurar como elemento central, ganha aspecto de pano de fundo para os conflitos dentro da casa. As individualidades começam a tecer maior importância narrativa do que a própria guerra. É evidente que o aspecto histórico ainda influencia, mas agora como um gatilho inconsciente, uma vez que o conflito psicológico está no desejo pelo inimigo.

Muito mais que isso, porém, o inimigo vai sumindo e o desejo se sobrepondo a esse aspecto moral. Mais uma vez a forma se modifica e o longa toma outros caminhos. Há uma mutação inconsciente constante aqui. Estando sob cuidado das mulheres, os encontros do homem com estas vão deixando emergir suas individualidades, seus desejos, fazendo com que algumas máscaras sociais caiam por terra.

Sete mulheres em uma casa, um moralismo religioso que as impede de conhecer o próprio corpo – imaginem o do próximo -, que impede que suas vontades emerjam. As potências confinadas no corpo destas mulheres só poderiam resultar numa emersão das vontades, da potência mais individual e primitiva do ser. Finalmente aparece o que está por trás das máscaras, a potência supera a moralidade que, porém, resulta em um novo ponto de virada.

A fotografia varia durante a projeção. Obscurecida, porém, suavizada nos momentos em que surge a natureza. Fechada quando demonstra as mais profundas vontades. Somado a isso, uma câmera sutil que cria uma irônica inquietude ao que assiste, que percebe aquilo que grita para sair desta perene moralidade, que luta pelo caos de eros.

O Estranho que nós Amamos é uma grata surpresa da já consolidada Sofia Coppola. Um filme que aparenta apresentar um vazio narrativo que, porém, é preenchido uma gama sensorial impulsionada pela vontade. Um grande filme de 2017.

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