Crítica: A Ilha dos Prazeres Proibidos

Por Leonardo Carvalho

 

Direção: Carlos Reichenbach

Elenco: Neide Ribeiro, Roberto Miranda, Meiry Vieira, Fernando Benini.

Brasil – 1979

Muitos espectadores, de boca em boca, encaixam “A Ilha dos Prazeres Proibidos”, filme clássico da Boca do Lixo, em gêneros simplesmente relacionados ao erótico ou ao drama, o que é verdade, dado que ambos os estilos estão presentes no interior da narrativa. Deve-se pensar através do molde fílmico, todavia, que o grande tom da película, indubitavelmente, é o molde de suspense, embora não pareça por causa de alguns fatores.

Esses fatores atrelam-se, por exemplo, à nudez. O nu dos atores do longa-metragem parece direcionar, ou melhor, resumir, os olhares do público ao campo do erótico, elemento muito presente em todos os momentos do filme. Parece que tal tipo de percepção, um pré-julgamento, digamos assim, faça com que um olhar mais desatento caia, apenas, na sedução de um dos prazeres proibidos, do fruto proibido no continente, mas super liberal na ilha.

Concretizar o olhar apenas nisso, porém, é um equívoco colossal, posto que a nudez serve apenas como um complemento da proposta, sendo o suspense, portanto, o vasto desenvolvedor da narrativa em seus nós e aberturas. É verdade que há certos momentos em que a nudez torna-se o primeiro plano, mas é necessário que haja esse espaço, pois o nu está na essência daquele local isolado e paradisíaco. Independente do volume erótico, a tensão gerada por diversos meios técnicos é o principal motor da obra.

Pelo começo, sem quaisquer enrolações, sem prólogo ou qualquer coisa do tipo, Carlos Reichenbach traz um diálogo de uma mulher – quem viria a ser a protagonista – com um homem, explicando muito diretamente, ou seja, sem muitas apelações em justificações ou esclarecimentos para que o suspense seja rapidamente cultivado dali em diante, que ela irá para uma ilha. Ela estará disfarçada de jornalista para poder entrar na ilha e fazer uma reportagem sobre o local misterioso, mas, na verdade, é uma contratada por um grupo de extrema direita para assassinar pessoas específicas no lugar paradisíaco.

Um suspense está criado. Não sabemos muito bem o que acontece naquela ilha, quem está lá e por qual razão estão lá.  O que é essa ilha? Aos poucos vamos coletando algumas informações importantes sobre o local de destino da personagem principal e sobre a função dela naquele meio; interrogações são criadas com mais força quando ela recebe uma arma para que possa fazer suas execuções – isso antes de sabermos que ela foi contratada; quando a protagonista encontra duas pessoas envolvidas com a ilha, pessoas que a levarão até lá por uma quantia proposta, tudo vai ficando mais claro, embora a grande chave do suspense esteja para acontecer, sobre o que/como é aquela ilha e o que vai acontecer por lá.

Ela vai se passando pela jornalista e se passando por uma mulher sedutora. Utiliza seu corpo, como andar de biquíni em frente ao homem que a levará ao local, ou até mesmo já na ilha, andando nua, para conquistar as pessoas locais e conseguir, vagarosamente, o que quer. É bom lembrar que um tipo de suspense acontece, também, sobre o próprio corpo da mulher, pois ela só aparece desnuda após muita metragem de narrativa e após muitos olhares de desejos e expectativas por parte das figuras masculinas na trama.

O mesmo acontece com a ilha, demora a aparecer, o deslocamento ao local não é dos mais apressados. Antes de entrar no local, o diretor cria expectativas no espectador. Ele não joga os personagens rapidamente no ambiente, cria barrerias para que a expectativa de chegada ao principal cenário seja aumentada. Primeiramente, prende os personagens numa espécie de fronteira, o que os retarda; em outro momento, o homem que leva a protagonista até o local descobre que a moça está com uma arma carregada; existem outros fatores para que o espectador fique na ansiedade para que chegue a grande esfera do filme, a ilha dos prazeres proibidos.

Quando chegamos ao local, a narrativa nos apresenta as principais características daquela ilha, que pulsa o instinto sexual. Tudo é muito feliz por lá, não há preocupações, apenas espaço para os prazeres. O ambiente e belíssimo, uma praia deserta, povoada por poucas pessoas que refletem sobre a vida, vivem a liberdade sexual e intelectual, respiram a poesia, a literatura, diferente do que acontece no continente com a opressão militar.

Logo na chegada ao principal cenário da narrativa, pensamos que aquele local será rapidamente dizimado pela mulher, visto que a maioria dos personagens parece estar sempre com sorrisos, quase nunca com desconfianças; a sensação dada é de que estão despreparados para intervenções mais bruscas. No entanto, aos poucos ela parece estar sendo seduzida pela liberdade local. Apenas parece. Mais um suspense, com isso, é criado, pois não sabemos ao certo o que está acontecendo: ela está realmente bem naquele local ou isso não passa de uma camuflagem para poder exercer sua função de assassina?

Ficamos com essa dúvida até o final, quando Ana, a protagonista, mostra-se bastante agressiva e executa alguns membros daquela ilha, criando como consequência um belo desfecho, uma surpresa para uma obra que veio trabalhando o suspense com diversas aberturas ao longo da narrativa. Se aos poucos o filme foi trabalhando a dupla articulação da personagem, vagarosamente gerando dúvida, se ela estaria ou não seduzida pela vida local, o que vemos no final é um verdadeiro nocaute, já que a noção dada próxima ao desfecho era de que ela estava mais próxima dos prazeres proibidos do que de seu contrato.

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