O PALÁCIO DOS ANJOS: EROTISMO QUE CHORA

Por Philippe Leão

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Palácio dos Anjos é dos filmes mais imponentes na obra de Walter Hugo Khouri. Um resgate de sua obra, contudo, há de ser feito em um cenário de total esquecimento de nosso próprio cinema. Um diretor autoral como poucos, que buscava os conflitos do homem de seu tempo e que, porém, era acusado de pseudo-burguês por sua imponente linguagem cerebral, existencialista.

Khouri filmou na lógica da Boca do Lixo, com produtores da Boca e, por muito tempo, por isso, considerado um diretor de “pornochanchadas” (título por demais vulgarizado). Contudo, o diretor, em sua maioria, realizou grandes dramas com certa distância do que era feito pelos demais. A diferença está na percepção de relação seu tempo. Khouri filma mulheres como ninguém havia feito e fez em território nacional e, por isso, traça-se semelhanças com o diretor sueco Ingmar Bergman. O erotismo imposto em suas obras está longe de uma exposição descompromissada e vulgarizada do corpo feminino, o sexo dói, aprofunda-se e chega aos mais íntimos desejos do inconsciente humano.

Walter Hugo Khouri se vê obrigado a assumir a lógica do erotismo explícito, mas jamais torna-o característica oficial de sua linguagem. O diretor sabe usa-lo a partir do incômodo. Assim é Palácio dos Anjos, “O filme que estremeceu o festival de Cannes” em 1970. Na verdade, o filme ainda não estava sob a lógica dos produtores eróticos, mas já mostrava o interesse de Khouri em filmar mulheres. Esta característica fez o diretor conseguir significativo interesse do público – que ia aos cinemas para assistir aos filmes eróticos – e também imprimir seu cinema autoral dentro desta lógica.

Palácio dos Anjos contará a história de três mulheres que trabalham em uma empresa de empréstimos e investimentos. Logo no início somos apresentados a uma “caixa de tesouro” deste lugar, uma espécie de arquivo que cataloga a elite, poderosos endinheirados, expondo suas relações e características pessoais. A personagem principal, Bárbara – que ganha vida sob os olhos de Geneviève Grad – está insatisfeita com sua condição no trabalho. Ao ser convidada para uma reunião no apartamento de seu chefe, Bárbara recusa a investida do patrão que tenta abusa-la sexualmente. Pela recusa, a personagem é demitida.

É importante que se regresse a algo que temos desde o primeiro plano do filme. Há um constante uso de close-ups que nos introduzem no intelecto, nos pensamentos mais profundos de seus personagens. Uma constante no filme é, por assim dizer, uma cena em que sua Bárbara observa um navio partir do cais. Sob sinais sonoros marcantes oriundos do navio, a justaposição imposta por Khouri nos faz, desde o princípio, acreditar que há algo de importante a ser dito ali. Muito mais que isso, porém, a constante presença da cena é um aviso signatário, estamos em uma complexa viagem de algo que parte, do interior de sua personagem.

Com o decorrer da história, uma desconhecida oferece carona à Bárbara, caminhando sozinha pela calçada. A desconhecida nomeia-se Rose (Joana Fomm). A personagem, então, oferece um emprego à Bárbara em um bordel, prometendo-lhe independência financeira em pouquíssimo tempo. Em um primeiro momento há um constrangimento provindo da personagem principal que se transforma em um conflito movido por seu interesse. Bárbara é uma mulher obstinada.

Após uma conversa com suas duas amigas – Mariazinha (Rossana Ghessa) e Ana Lúcia (Adriana Prieto) – que ainda trabalham na empresa de investimentos, todas resolvem visitar o local. Rose afirma saber que sabia que iria receber tal visita, mas as três não gostam do que veem, em especial devido à forma como as mulheres são expostas como produtos à venda.

Daí surge a ideia do Palácio dos Anjos, um espaço que seria administrado pelas três amigas sob suas regras. Elas decidem, então, roubar o banco de dados da empresa e, se no bordel haviam de ter muito lucro, agora tratavam com as pessoas mais ricas. O dinheiro é imediato e, a partir disso, Bárbara – que apresenta uma aptidão pelas artes – começa a mostrar um caráter autoritário ao gastar uma grande quantia no Palácio, uma quantia constante, sempre há o que fazer.

No local as três arrecadam satisfazendo as fantasias sexuais de seus clientes. Há, contudo, conflitos existenciais permanentes em cada uma das personagens. Mariazinha, mulher do interior com uma forte moral provinda de sua família, angustia-se com o que estava se tornando. Desde o primeiro momento sentimos sua repulsa ao que passara a exercer, mesmo estando, agora, ganhando o que jamais poderia ter ganhado em qualquer outro lugar. Khouri constrói a angústia de Mariazinha em planos imponentes, sob close-ups no rosto desesperado da personagem durante o ato sexual. Como dito no início do texto, ao contrário de grande parte dos filmes eróticos produzidos na época, o sexo em Khouri é violento, incômodo, não se trata de exploração. Ao retornar a sua família, os olhos de julgamento da família de Mariazinha é também explorado.

Por outro lado, Ana Lúcia é uma personagem em constante conflito direto com Bárbara. Ana está insatisfeita com os gastos de sua colega, não permitindo que, enfim, possam lucrar o quanto deveriam. O conflito entre ambas é explorado a fundo por justaposição entre rostos conflitantes. O semblante desesperançoso e desconfiado de Ana Lúcia contrapõe-se em no plano seguinte ao olhar vorás e inquisidor de Bárbara. O autoritarismo da colega faz, por fim, Ana Lúcia abrir seu próprio espaço.

Por fim, Bárbara, a personagem principal que, inicialmente obstinada por um futuro que poderia construir, vê se esvair pelas mãos seus desejos pelo apego a luxuria. Seu materialismo deixa escapar, ao som da despedida, o navio de seus mais obstinados sonhos.

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