FILME DEMÊNCIA: ANGUSTIA E FRACASSO

Por Matheus Fiore

Direção: Carlos Reichenbach
Brasil – 1985
Elenco: Emílio Di Biasi; Ênio Gonçalves; Fernando Benini; Imara Reis; Orlando Parolini; Renato Master; Roberto Miranda; Rosa Maria Pestana.

Baseado na lendária obra Fausto, de Goethe, Filme Demência traz um protagonista atormentado por seu fracasso profissional: a falência da companhia de cigarros da qual era presidente e que havia sido fundada por seu pai. Nascido e criado em uma sociedade robotizada, onde o trabalho é estabelecido como prioridade máxima da vida do indivíduo, Fausto se vê desiludido e perdido. O personagem, então, embarca em uma soturna viagem pelas ruas da cidade em busca de entorpecimento mental e de respostas para seus dilemas. Desde o começo, o filme escancara a situação psicológica de Fausto. A primeira cena após os créditos iniciais, por exemplo, traz o protagonista sentado em seu sofá assistindo a um filme. Aliás, ao final de um filme. O corte para a televisão, estampando os dizeres “THE END” em preto e branco sinalizam o fim da projeção e o esgotamento mental do ex-empresário. A escolha de retratar o ator abaixando a cabeça e falando para si mesmo “eu falhei” ainda evidencia mais sua sensação de derrota.

A reação cabisbaixa do protagonista o persegue por todos os 90 minutos da metragem de Filme Demência. Mesmo quando enquadrado no contra-plongée, em close-ups que mais parecem invadir sua privacidade, a direção sempre faz questão de enaltecer sua expressão desesperançosa e fria, que só sobrevive no mundo pela força do dinheiro acumulado. A trilha sonora corrobora o clima desolado do protagonista, trazendo arranjos de jazz calcados no saxofone e no piano para criar um clima de perdição bem semelhante ao que se vê em Taxi Driver, por exemplo. Outro destaque de Filme Demência é a fotografia, pelos close-ups invasivos, mas, principalmente, pela manutenção de uma aura sombria trazida pela baixa iluminação que acompanha boa parte do longa, quando a escuridão que domina os planos e cenas retratam a solidão que assombra a mente do personagem.

Buscando salvação nos seus instintos, Fausto percebe, então, que perdeu também o afeto de sua esposa, que não demonstra mais atração sexual por sua figura.  Restando a violência, o protagonista torna-se agressivo por todo o resto do filme, quando mais de uma vez comete homicídio e gradualmente torna-se mais rude com as pessoas com quem convive. Aqui, a montagem também beneficia, principalmente por conectar algumas cenas por meio do uso de curtos planos que trazem uma televisão estática, que remete à demência do personagem principal. Também demonstrando a busca pela vontade de viver, Fausto também decide expor seu corpo à violência, como quando segura uma lâmina de barbear em seus lábios, correndo o risco de se cortar para, talvez, sentir-se vivo.

Se o objetivo de Carlos Reichenbach, que dirige e assina o roteiro em parceria com Inácio Araujo, é mostrar o avanço da demência do protagonista, trazer aparições de personagens bem lúdicos – quase fantásticos – é uma escolha acertada. Aos poucos, essas aparições quase espirituais levam o filme de um lamento sobre fracasso para uma viagem em busca de autodescoberta. Vale ressaltar ainda que muitas dessas figuras representam questões interiorizadas do próprio Fausto, como a jovem da praia que busca o sexo fácil (algo almejado e não conquistado pelo personagem), e o amigo capaz de esquecer todos os problemas e encontrar diversão na dor.

Destaca-se ainda que, diferente da obra original de Goethe, Fausto não aceita o trato proposto pelo demônio que o aborda (que, aliás, por sua teatralidade e visual pálido, lembra a Morte de Bergman em O Sétimo Selo). Curiosamente, em uma das vezes em que o demônio tenta seduzi-lo em troca de sua alma, o protagonista brada que não possui uma, ressaltando o vazio que vê em sua própria existência. Mesmo que viaje pelas estradas com seu carro verde (que ressalta o último resquício de esperança em sua busca), Fausto não compreende que o paraíso que busca é inalcançável – o próprio demônio diz que o Eden só é acessível ao abraçar a morte – se tido como objetivo principal, podendo ser contemplado apenas por aqueles que o vêem como o trajeto.

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