Contos da Lua Vaga e a uniformidade de pensamento

Por Matheus Fiore

 

Japão – 1953

Direção: Kenji Mizoguchi

Elenco: Machiko Kyoo, Mitsuko Mito, Kinuyo Tanaka, Masayuki Mori & Eitaro Ozaa.

Nesta obra de Kenji Mizoguchi, acompanhamos dois personagens e suas respectivas famílias, Genjuro e Tobei. Durante um período extremamente conturbado devido à guerra, os personagens se vêem obrigados a abandonar suas vidas em seus pequenos vilarejos para fugir da morte certa. Em certo ponto da fuga, porém, ambos acabam tendo que abandonar suas famílias. Genjuro e Tobei, então, vão em busca de realizar seus sonhos. O primeiro almeja enriquecer e no caminho acaba se apaixonando pela misteriosa Lady Wasaka. O segundo tenta se tornar um respeitado samurai e, cego por seus desejos, acaba deixando de lado sua esposa.

Inicialmente, a obra finca-se na realidade. Os planos de movimentos discretos e as seguidas cenas que acompanham os personagens trabalhando e comentando sobre suas dificuldades financeiras crava os pés de Contos da Lua Vaga no mundo real. Mas quando os personagens chegam no rio, a narrativa é coberta por um véu onírico e lúdico. Não só figuras com aparências quase sobrenaturais passam a fazer parte da narrativa, como os protagonistas passam a se portar de forma mais leve, algo que é acompanhado pelos enquadramentos mais soltos, com movimentos constantes mas sempre suaves.

O tom fantástico está presente também nas cenas de guerra. Ao inserir um verdadeiro coro de sofrimento no fundo (os gritos de dor dos que participam da guerra), como se os personagens estivessem passando pelo purgatório, a obra torna sua narrativa ainda mais imersa em acontecimentos dignos de um sonho (ou pesadelo?). Até nos cenários há a sugestão do fantástico. Em algumas cenas de Wasaka, por exemplo, notamos como os planos médios que a enquadram sentada em seu lar fazem suas paredes parecerem uma paisagem graças às pinturas de montanhas, rios e nuvens. Pelo fato de tais artes terem uma estilização infantilizada, aprofundam ainda mais a aura onírica do filme.

Na trama de Tobei, notamos como Mizoguchi utiliza seu anseio por tornar-se um samurai como um símbolo da necessidade de ascensão social. Muito além da imponência pela habilidade de combate, os samurais eram, afinal, os pilares morais da sociedade japonesa naquele período, servindo de espelho para os outros. O curioso é que, ao focar-se em tornar-se um grande exemplo, como eles, Tobei se desvirtua de sua própria personalidade, não percebendo como sua trajetória se torna um caminho de autodestruição. Sua esposa, por exemplo, é abandonada, acaba sendo estuprada e torna-se uma prostituta para sobreviver, totalmente desamparada por seu esposo.

Já em Genjuro, que acaba se apaixonando por uma figura fantasmagórica como Wasaka, vemos a exteriorização dos sentimentos e instintos reprimidos. Historicamente, o Japão é uma nação muito controladora e disciplinadora, e a relação deste personagem com a figura de Wasaka pode ser vista até como uma projeção de seus desejos inibidos. A facilidade com que o personagem se desvirtua de sua meta inicial (que era enriquecer) é uma forma de mostrar o quão rasa era sua motivação, que desmoronou diante de uma bela mulher.

Mizoguchi entrega uma conclusão dura e muito simbólica. A obra abre com uma panorâmica que percorre o vilarejo onde os personagens residem. Na conclusão, o mesmo movimento de câmera registra o mesmo vilarejo. Os personagens, então, estão na mesma situação do começo do filme. Seus esforços foram em vão. Suas motivações e sonhos os levaram ao sucesso. Genjuro termina o filme ainda sem ter sua riqueza, mas dessa vez, sem Miyagi ao seu lado. Sua obsessão o cegou e, quando percebeu o resultado de suas escolhas, já era tarde para salvar sua amada. Os diálogos finais com o fantasma de Miyagi são ainda mais duros: resta ao personagem aceitar seu trágico destino e seguir sua melancólica vida.

Dura e de ordem moral, a conclusão é condizente com a narrativa, comovendo pelo sofrimento de seus personagens, impotentes diante de seu destino, que é permanecer onde sempre estiveram por toda sua vida, sem o poder de realizar o que sonhavam. Contos da Lua Vaga é uma lúdica alegoria sobre a manutenção de um pensamento uniforme existente no Japão, que cria no povo a mentalidade de aceitar situações adversas por crer que não é possível ir além.

“Eu não morri.

Ainda estou ao seu lado.

Sua desilusão chegou ao fim

Você é você mesmo novamente

E está no lugar onde pertence

Onde seu trabalho lhe espera”

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