Medeia e a desmistificação da vilania feminina

Por Matheus Fiore

 

Itália – 1969

Direção: Pier Paolo Pasolini

Elenco: Maria Callas, Massimo Girotti, Laurent Terzieff, Giuseppe Gentile, Margareth Clémenti & Paul Jabara

Na adaptação da mitológica tragédia grega, vemos a história de Medéia (Maria Callas), mulher que, após assassinar seu irmão, foge com Jasão (Giuseppe Gentile), seu grande amor. Um dia, Jasão abandona Medeia para casa-se com uma princesa. Inconformada com o abandono, Medeia recorre à seu avô, Helio, o Deus Sol, buscando vingança sobre seu ex-companheiro.

Antes de estabelecer a paixão entre o casal protagonista, o italiano busca construir a evolução de Jasão. Trazendo monólogos do centauro vivido por Laurent Terzieff, o filme alterna diferentes momentos da vida de Jasão através de cortes simples, que vão desde a infância à vida adulta do rapaz, nos mostrando uma longa construção feita pelo ser fantástico através da vida do humano. Já Medeia, a principal do filme, só mostra as caras após a primeira meia hora de projeção, já é, em sua primeira aparição, uma personagem pronta e grandiosa.

Pasolini brinca com a relação do humano com o divino durante todo o filme. O sol e a lua, por exemplo, são presença constante em cenas da protagonista. Em certo momento, durante à noite, Medeia é incapaz de mover um móvel de lugar, demonstrando impotência. Em outras passagens, diante do sol (que, na mitologia, é seu avô, o deus Helio), a bela mulher chega a pedir por ajuda para tirar vida de terceiros e é atendida. Tal diferença nos mostra que, em sua hereditariedade semi-divina, Medeia encontra mais poder do que nos momentos em que sua parte humana domina.

O poder e influência de Medeia estão presentes em outros momentos do filme. Cenas como a que Medeia dá ordens à um grupo de mulheres enquanto se desloca em um grande salão, de um lado para o outro, enquanto todas as moças ao redor acompanham seus movimentos, sugere a força da manipulação da protagonista, que ali guia as mulheres. A força do que não é expresso, palpável ou verbalizado, inclusive, é um elemento chave do filme. A aproximação de Medeia e Jasão, por exemplo, ocorre em um momento em que o enquadramento coloca a cabeça da protagonista na frente de uma grande rachadura no chão, o que sugere sua fragilidade emocional e mental. Jasão, então, a conquista por estar ao seu lado no momento certo

A relação entre o externo e o interno da protagonista também é construída  pela iluminação. Notamos, por exemplo, que em alguns momentos o rosto de Medeia é dividido em luz e sombra, enaltecendo os dois lados da personagem de Maria Callas. Já nos enquadramentos e movimentos, Pasolini alterna entre planos gerais que inserem seus personagens no meio de belos cenários (naturais e artificiais) e outros que adotam uma estética quase documental, passeando pelos rostos de todos que estão em cena. A câmera, aqui, é quase uma entidade viva e independente, um ser que nos permite ver por seus olhos a tragédia retratada.

Pasolini também foca na desmistificação da figura feminina como vilã, pois, assim como na história de Medusa, Medeia é demonizada e condenada por agir como a humana que é. A narrativa tem o cuidado de construir todo o esforço de Medeia para conquistar Jasão para, posteriormente, mostrar o egoísmo, ganância e descaso que levam o rapaz a trocar sua amada por uma princesa. As atitudes revoltadas da protagonista, então, não são maldades planejadas, mas respostas aos golpes emocionais que sofreu, que fortalecem sua humanidade sem a errônea pretensão de apontar heróis e vilões. Pasolini desconstrói o conceito platônico de “verdade” e nos mostra que o mundo não é (e nunca foi) tão binário quanto pensamos. Há tons de cinza.

A estrutura de Medeia é peculiar. A primeira metade do filme traz pouquíssimos diálogos (a não ser os monólogos do centauro que abrem o filme), e confiam na força das imagens para funcionar. Auxiliando, a estranhíssima (mas linda) trilha musical é eficiente, principalmente pelas melodias que seguem um tom árabe (principalmente pela presença de uma sitar) que não soa tão encaixada no filme, o que é justamente o objetivo de Pasolini, desejando causar estranheza no público.

Não tendo sido bem recebido na época de seu lançamento, Medeia acabou se tornando um filme com certo reconhecimento posteriormente. Pasolini aqui aproveita a tragédia grega para construir uma história sobre poder e vingança, onde o humano e o divino se cruzam. O consciente e o inconsciente lutam pelo poder através da construção do arquétipo da vilania feminina. Tudo harmonizado por uma narrativa poética e subjetiva, onde as palavras cedem lugar às imagens e o mito ganha vida.

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