Funeral das Rosas, Édipo e Metacinema

Por Philippe Leão

 

Funeral das Rosas (1969)

Direção: Toshio Matsumoto

Japão

Elenco: Pîtâ; Osamu Ogasawara; Yoshio Tsuchiya; Emiko Azuma; Yoshihiro Katô; Koichi Nakamura; Masato Hara.

O Cinema experimental de Toshio Matsumoto, infelizmente, nos proporcionou pouquíssimos filmes. O material escasso em longas-metragens, contudo, não é um empecilho para que o diretor pudesse figurar em um dos mais transgressores movimentos cinematográficos: A nuberu bagu, ou Nouvelle Vague Japonesa.

Diferente de seus companheiros de movimento como Yoshishige Yoshida e Nagisa Oshima, Toshio Matsumoto imprimia a transgressão proposta pela nova onda do cinema japonês através de uma plasticidade curiosa. Os abruptos cortes somados a uma narrativa em ciclos criam uma estranheza que comunica com os interesses da forma como deseja apresentar sua história. Não há qualquer linearidade na transgressão de Funeral das Rosas.

O filme contará a história de Eddie, uma bela travesti hostess em um famoso clube noturno no submundo gay japonês. Apesar de profissional, a jovem mantém uma relação obsessiva com o proprietário do clube noturno onde trabalha, um homem que se relaciona com outra travesti que, por consequência, vive enciumada com a relação dos dois.

A proposta narrativa, ou seja, a maneira de contar tal história, apresenta flashbacks confusos não só para o espectador, mas para a personagem em questão. A intenção é clara, a confusão que sente aquele que assiste deve ser a mesma que a persona exibida. Somado a isso, Matsumoto justapõe sua habilidade documental em sua ficção transgressora em sua temática – essa é, talvez, a primeira vez que vemos de maneira tão desnuda a realidade homossexual, em especial a transgenero, no cinema – e técnica. Portanto, a confusão do espectador se amplifica à medida que, além dos confusos flashbacks, cenas documentais sobre a difícil vida no submundo homossexual de um Japão ainda tradicional. Os paradigmas devem ser quebrados, assim propõe a Nubaru bagu.

A documentação de Funeral das Rosas introduz ao filme algo que o faz estar além de uma ficção comum. Há uma metalinguagem representada por estas partes já ditas. A todo instante Matsumoto mistura de maneira excêntrica a história com o que os atores – desnudos da máscara de personagens – estão pensando da mesma.

O constante embate faz com que o novo peça passagem ao clássico. Não só o cinema japonês deve ser modificado, mas o que ele mostra. Assim, a contra-cultura de Funeral das Rosas é clara a medida que busca quebrar paradigmas tanto narrativos – em sua forma técnica de contar a história – como temáticos.

Pois bem, o que havia nos flashbacks de Eddie além de tal confusão? De maneira bastante nebulosa vemos os encontros de nosso personagem com um mundo de ausência paterna e estranhas relações com sua mãe. Contudo, Eddie guarda uma fotografia de sua família com seu pai, porém, de rosto queimado, ato feito por sua mãe. Esta memória estática guardada dentro de um livro intitulado “O Retorno do Pai”.

Dentro do livro “O Retorno do Pai” a jovem travesti guarda a foto queimada de sua família.

Um complexo de Édipo as avessas – não é atoa a semelhança do nome de nosso personagem principal. Aqui temos uma travesti desejando o retorno de seu pai, em constante conflito com a mãe. Haveria de ser, talvez, um complexo de Elektra, se não fosse o constante jogo de máscaras introduzido por Matsumoto.

“Cada homem tem sua própria máscara, a qual esculpiu durante muito tempo. (…) As pessoas sempre usam máscaras ao enfrentar as demais. Apenas veem máscaras. Mesmo que as retirem, raras vezes suas faces expõem, pois pode haver uma segunda camada de máscaras.”

A confusão dos mitos é proposital. A própria ideia do ser transgênero é a máscara mais aparente no filme. Há de se entender, porém, que a ideia de máscara não está associada ao falseamento do ser, mas da constante mudança pela qual o humano passa para introduzir-se socialmente e consigo mesmo. A máscara é, portanto, o que somos. Vestimos novas máscaras a cada dia e Eddie, em sua condição, a vestiu. Uma Édipo travesti. Ao nascer, uma coisa, ao construir sua existência uma nova máscara.

Com um humor peculiar, induzido por uma trilha muitas vezes cômica e uma plasticidade que alterna cortes abruptos e linguagem cartunesca, a mistura da história de Eddie com o Mito vai ganhando contorno. O desejo inconsciente de Eddie proferido no livro que guarda a foto da família – “O Retorno do Pai” – enfim é realizado. Não houve, porém, qualquer retorno, esteve sempre ali. Cega por não ter percebido seu pai, Eddie automutila os olhos em meio ao julgamento de outros japoneses sem identidade, vestido de máscaras sociais que moralmente julgam aquilo que Eddie construiu em sua essência. Os olhares para o agora cego pretendem aniquilar a máscara e as individualidades.

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