Barravento: a identidade nacional e o mito

Por Leonardo Carvalho

 

Brasil – 1962

Direção: Glauber Rocha.

Elenco: Antonio Pitanga, Luiza Maranhão, Lidio Silva.

“Barravento” é o primeiro longa-metragem de Glauber Rocha, um dos maiores e mais importantes cineastas do cinema brasileiro e do que conhecemos como o movimento artístico mais conhecido do Brasil, o cinema novo. Já em sua estreia, o diretor baiano já captava em seu estilo quase documental, muito próximo do anterior neorrealismo italiano, as identidades nacionais, sobretudo da Bahia.

A referencia de “Barravento” está, acima de tudo, na composição do mito através das religiões afro-brasileiras, trazidas da África em navios negreiros nas épocas do comércio de escravos. São costumes que entraram no DNA brasileiro, fazendo parte, hoje, da história do país. O nome “barravento”, embora explicado no começo do filme como uma mudança súbita na vida de um indivíduo, muito em relação às forças naturais, está ligado, também, ao ritmo acelerado da percussão, utilizado na capoeira, no candomblé e na umbanda.

A música e a temática religiosa estão em focos nacionais. O ambiente é passado na Bahia. Na história, um jovem vindo da cidade encontra seus velhos companheiros da aldeia, mas estes não o recebem da melhor forma possível, visto que não concordam com a nova forma que Firmino, o protagonista, de pensamento e vestimenta, desprezando qualquer forma de crença após refletir sobre a condição do homem negro na sociedade.

Naquela pequena aldeia baiana tudo é ditado conforme as vontades divinas. As justificativas são dadas através, por exemplo, de uma mãe de santo que diz que o santo quis que tal ato acontecesse. Isso lembra muito a narrativa de Jorge Amado em “Mar Morto”, em que as causas de tragédias marítimas para com os barqueiros, também na Bahia, são ditadas conforme a vontade de Iemanjá.

O místico é enxergado como uma forma de sabedoria por parte dos deuses, eles sabem o que fazem. Firmino, no entanto, ao voltar à cidade, ao ver a simplicidade naquela vida pacata, ao ver que tudo aquilo não está indo para frente, está estacionado no tempo, diz que o candomblé não resolve nada, é o grande empecilho à evolução daquela pequena população, o que acaba desencadeando um confronto de ideias entre o protagonista e diversos outros moradores do local.

Firmino torna-se manipulador após o contato com a cidade grande. Estaria ele certo ou errado? Glauber nos coloca em frente a diversos acontecimentos que criam conflitos: a rejeição pela religião que cria um insulto por parte dos moradores mais antigos; a justificativa por parte dos religiosos; a ideia que se deve trabalhar e esquecer totalmente a religião. Somos testemunhas de tudo o que está sendo narrado, tiramos as nossas próprias conclusões acerca do que está sendo apresentado pelos personagens. O mito seria um empecilho à mudança de vida? Ele é positivo por ser um conforto, uma crença de que as coisas vão melhorar, a afirmação de uma cultura?

Existem diálogos muito marcantes ao longo da narrativa para demonstrar tais pontos de vista pelos personagens principais, seja um Firmino, o descrente, ou um crente daquela aldeia. São frases que marcam os momentos, como o entendimento de que o pós-escravidão é apenas uma ilusão, de que o direito do homem negro é trabalhar, entre outras frases muito importantes para ditar a intenção do filme. Já em seu filme de estreia, o cineasta baiano mostra uma grande maestria em compor frases, é um grande frasista.

O que podemos ver no forro de “Barravento” é uma proposta antropológica, comum no que veríamos posteriormente em filmes do Glauber Rocha. Nesta obra, diferente, ele preocupa-se em carimbar a cultura afro-brasileira tão marcante na identidade brasileira. Saímos do samba à capoeira, da capoeira às religiões vindas da África. O Brasil, afinal, é um país de muita diversidade cultural, sendo a identidade nacional criada justamente por essas misturas, sobretudo na questão do mito.

Se em um Brasil virgem de interferências de outros continentes havia as crenças indígenas, houve, depois, a chegada dos portugueses junto ao catolicismo, e mais tarde, completando a principal tríade religiosa, a umbanda e o candomblé. Portanto, deve-se entender que dois dos três mitos citados anteriormente são de religiões migratórias misturadas à crença indígena local, uma mescla de religiões em território brasileiro.

Glauber tem a proposta de contar a história de um grupo de negros no interior da Bahia, com foco no candomblé. A construção feita por ele para demonstrar o misticismo local é excelente. Não apenas pela questão da paisagem natural ou pela utilização de atores sociais, ou seja, aqueles que vivenciam no cotidiano o que fazem na frente das câmeras, como diz Bill Nichols, mas também pela direção de “Barravento” saber criar uma atenção acerca do místico.

Quando há um ritual, por exemplo, no primeiro quarto da película, vemos que o som dos batuques vai ficando cada vez mais intenso, vemos que Glauber utiliza diversos cortes para demonstrar a intensidade nos sons e no encontro entre o humano-medium (o meio entre o plano terreno e o plano místico) e o santo que chega ao corpo com um forte impacto. A imagem carrega essa turbulência, é distorcida, justamente para captar essa ideia do místico como o além-mundo, como algo mais forte. Além disso, a utilização dos mesmos cortes rápidos e da imagem distorcida demonstra a força que a religião possui na vida daquelas pessoas.

Por fim, colocando as entidades divinas como o grande corpo do longa-metragem, como a grande força, uma força que rejeita a ideia de Firmino e garante a afirmação, pelo menos naquela aldeia, a narrativa nos oferece seu ponto mais alto, a poesia vista pelos fatores naturais. O filme, de maneira inteligente, demonstra uma natureza calma mais ao início, ela é harmônica junto à população local, mas próximo ao desfecho, o que vemos é uma natureza forte, turbulenta, maior que o homem, revoltada pelo ato imperdoável de Firmino com suas manipulações. Pensamos, então, que o homem da cidade está contaminado.

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