Murnau, Nosferatu e o Mito

Por Matheus Petris

 

Aqui Drácula chama-se Orlok, e é Nosferatu, o não-morto, aquele cujo nome ressoa como um grito de ave de rapina e que tem o poder de obscurecer as imagens. – João Bénard da Costa

 

Murnau é cinema: em pouquíssimos minutos, em apenas duas cenas, Murnau faz com que conheçamos a personalidade de dois personagens quase que completamente. O protagonista e sua amada. Ele, ingênuo e deslumbrado como aparenta, arranca flores de um jardim para levar à sua amada. Ela recebe as flores com anseio e, acariciando-as, explica: Mataste as flores. Ela sabe porque ele o fez mas, mesmo assim, sabe que suas ações são inconsequentes. Que ele a ama, é inquestionável. Há também uma cena posterior que reforça suas personalidades: quando o protagonista reconhece, junto a seu patrão – maléfico para nós desde o início -, que existe uma possibilidade de “enriquecimento” na venda de uma casa, casa essa que fica em frente a sua. Ele retorna para casa com seu natural ânimo para contar à esposa, que novamente o recebe com certo anseio, pois sabe das limitações do amado. Ele não enxerga isso ou qualquer coisa a sua volta, prefere continuar nessa ideia sugerida pelo seu patrão e, sem nem questionar, buscará o misterioso comprador da casa.

Em sua jornada, o mito estará presente desde o início, desde sua primeira parada. Em um bar, pergunta aos que ali estão se conhecem a pessoa que ele busca. Nitidamente, todos se assustam com a pergunta, tentam apartar a situação e ao mesmo tempo impedi-lo de continuar, usam do próprio mito para tentar pará-lo. Usam como argumento a noite, e os lobisomens que podem estar soltos. A própria noite sempre foi sinal de perigo. A escuridão sempre esteve atrelada à negatividade, ao mal. Em suma: sempre buscamos nos apegar aos próprios medos e superstições. Murnau usa a própria sociedade, que culpa os mitos, as superstições, o azar, tudo que conseguirem culpar para não reconhecerem seus próprios erros. Antes mesmo de conhecermos o mito que leva o título do filme – tirando os momentos das passagens dos créditos iniciais – já fomos apresentados a outros anseios humanos, que buscam esses contos como base para se justificarem.

A chegada do protagonista ao castelo de Nosferatu comprova aquilo que estava evidente na cena do bar e, mesmo assim, o protagonista, com toda sua ingenuidade, não consegue percebê-lo. Murnau insere uma gag dentro desse horror assombroso mas, nem assim, o protagonista se dá conta.

O aspecto maléfico, tanto do patrão – que na realidade é um subordinado de Nosferatu -, como de Nosferatu é evidenciado a cada momento em cena; é apenas no momento em que o protagonista vê, com os próprios olhos, que ele na verdade se trata de um vampiro, que enfim consegue perceber que sua amada corre perigo e, aqui, a preocupação não será com o terror provocado na cidade, mas será apenas com sua própria amada, algo que desde o início é reforçado: ele a ama sobre todas as coisas.

Mas o que importa em Nosferatu não é o romance, longe disso. É pura e simplesmente o cinema. É a sociedade. É o humano. É a poesia. E, consequentemente, a própria morte.

Sob o signo da peste, daquilo que tornaria o mito em realidade, em algo palatável. Nosferatu traz consigo a morte, ele o navio e a morte – que pode ser tanto ele próprio quanto a peste. Ele em breve toma conta da cidade, bem como disse Bénard: A imagem mais surreal da história do cinema? É no famoso plano em que o mar (navio, Nosferatu) entra na cidade e dela se apossa.

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