Pele de Asno: Jacques Demy e a Fábula

Por Matheus Petris

 

O mundo de Demy (o meu também, suponho) é melancolia instantânea. Não há mundo perdido, nenhum ideal que se foi, nenhum estado prévio pelo qual nos lamentamos. – Serge Daney

 

Sob o prisma da fábula contida em Pele de Asno, notamos um Demy que pensa o passado pelo viés do presente. Mistura os tempos. Eles se completam, falam entre si. Enquanto o “passado” possuía os valores pitorescos – numa visão contemporânea -, o futuro deles traria o “conhecimento”, o amadurecimento social; esse conceito paradigmático é visto através da personagem da “Fada Lilás” (La Fée des Lilas). E mesmo que Peau d’âne esteja longe de ser um musical, é possível enxergar diversos aspectos que poderiam muito bem ser retratados num típico musical Demyniano.

Os planos iniciais do filme corroboram o conto épico, eles nos transportam àquela ambientação fabulesca que é também relacionada a reis, rainhas, princesas e castelos. Os créditos podem soar metalinguísticos, o que seria como uma auto-afirmação de estarmos prestes a assistir um mito, um conto de fadas. A morte está também presente, é um elemento inicial, que fará com que a narrativa do filme flua e, mesmo que usada melancolicamente, a verossimilhança fica nítida com relação a família presente. E, também, algo que sempre se repete em contos, fábulas e seus derivados: a promessa. A palavra como força motriz que o fará o rei ser ou buscar aquilo que prometeu. A promessa do Rei à Rainha a princípio pode ser interpretada como fútil, assim como num diálogo rápido um dos conselheiros do rei afirma isto a ele. Mas não. A força da promessa e a busca pelo quase inalcançável é que fazem com que o conto exista, e não a “futilidade” da beleza em si.

A busca por uma nova rainha é como a escolha de uma peça de roupa, de um objeto qualquer. Através de quadros que retratam as mulheres, o rei busca pela beleza superior; ele insiste em cumprir a promessa feita a sua falecida esposa. A mise-en-scène é como a essência deste filme e, principalmente nesta cena, podemo-lo notar com total clareza. O controle de Demy sobre os corpos denota a insatisfação de todos, as idas e vindas do Rei, os constantes retratos jogados em cena, até o momento em que ele encontra e, como pára em cena, a vida para ele também pára: irá conseguir cumprir a tão dificultosa promessa. Mas o choque é inevitável, a mulher mais bela que sua esposa é sua própria filha. Eis que surge o conflito, estaria ele disposto a casar-se com a própria filha? O plano em que ele a observa pela janela, de longe – em um plano geral – e que aos poucos fecha o quadro, enquanto a música tocada no piano ressoa, nos mostra que ele estará sim disposto a casar com ela – mas seria em prol da promessa?

[…] O cineasta investiga o relacionamento amoroso, baseando-se no conflito entre o amor sonhado, idealizado, romântico, de príncipes encantados e de princesas virginais que seus personagens tanto anseiam, e o amor real, possível, com encontros e desencontros, amarguras e incertezas. […]

– Paulo Ricardo de Almeida

Abdicando de seu reino, conforto e comodidade, a princesa (Catherine Deneuve) se torna uma criada sob o disfarce da pele de um asno – fugindo do desejo incestuoso do pai. O amor também pode habita Demy, e assim acontece: uma paixão visceral, real e instantânea, bem como as descrições fabulescas.

E se o fim é tão típico quanto, no qual a felicidade impera e todos alcançam seus objetivos, Demy não se contenta com isso, volta a relacionar todos os tempos, quando a Fada Lilás chega nas festas finais de helicóptero. Tudo se auto-completa. Nas palavras de Inácio Araújo: Para Jacques Demy, uma princesa, um poema, um helicóptero são todos entes imaginários.

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