O Pagador de Promessas: Um Retrato do Povo Brasileiro entre Santa Barbara e Iansã

Por Philippe Leão

 

 

O multipremiado filme dirigido por Anselmo Duarte, O Pagador de Promessas, dialoga de forma intensa com a ideia do mito. Adaptado do livro homônimo de Gomes Dias, Anselmo Duarte traduz em imagens aquilo que é o desafio da narrativa mitológica brasileira: a multiculturalidade e o convívio de diversas narrativas distintas que constituem a nação.

O filme contará a história de Zé do Burro, um homem humilde e ambicioso por concluir uma promessa à Santa Barbara: carregar uma cruz nas costas – como Cristo – até a igreja da santa na cidade. O motivo da promessa? Seu burro fora atingido por um raio e sua recuperação rendeu a homenagem.

Ao chegar à cidade, Zé do Burro encontra sua barreira. Se em um primeiro momento o Padre permite que a promessa seja cumprida, ao descobrir uma singela peculiaridade volta atrás em sua decisão. Já anunciada por Anselmo Duarte em uma belíssima cena de abertura, ao som e dança do Jongo entrecortado por uma montagem musicalizada, Zé do Burro havia feito sua promessa em um terreiro do candomblé, à equivalente de Santa Barbara, a Rainha dos Raios Iansã – conveniente, uma vez que seu burro fora atingido por um raio.

Zé do Burro permanece sob a escadaria da igreja, faz greve de fome até que sua promessa possa ser realizada. Indignado, o humilde homem não entende o motivo pelo qual não pode concluir sua promessa. Não seria Santa Bárbara a mesma coisa que Iansã? Por qual motivo o padre não permite que sua promessa seja concluída uma vez tendo prometido a Santa Bárbara? Zé do Burro é o retrato do Povo brasileiro! Afirma ao Padre ser um homem católico, frequenta o terreiro e adora seus santos.

Sua ambição por concluir seus anseios provoca uma grande aderência popular. Zé é reconhecido como um guerrilheiro contra um poder hegemônico. A imprensa – a quem, em determinado momento é dito que todos temem – toma partido a favor de Zé.

Para o povo um profeta, para a igreja um falso cristo coberto por feitiçaria, dominado pelo demônio – afinal, para uma das matrizes desta nação, a outra é condenável, amaldiçoada. A escadaria se torna, então, um símbolo de resistência. No alto de seus degraus um poder impositor.  Abaixo, desejando ascender sob as costas de seu profeta, o Povo revoltado, a marca de uma nação miscigenada. Zé apenas quer cumprir sua promessa, mas sem querer diz o que grupos emergentes desejam falar.

Em uma nação de múltiplas narrativas, Iansã e Santa Bárbara se confundem. Ambas fazem parte do imaginário de um povo de muitas dinâmicas que influem sobre sua espacialidade e hábitos culturais. O Pagador de Promessas, apesar de muitos assim interpretarem, não é um ataque à igreja católica enquanto narrativa mitológica, mas a sua postura enquanto poder hegemônico a fim de aniquilar aquilo que é diferente. Zé do Burro, dessa forma, também não é um infiel querendo por abaixo uma das matrizes culturais provindas da Europa, mas um símbolo do que é nacional, brasileiro, uma mistura de narrativas que da voz à sua cultura.

De maneira não reflexiva, Zé é um brasileiro por excelência. Ao imaginário de diversas narrativas o herói é fruto de Santa Bárbara e Iansã, uma unidade de duas. Do alto de seu poder e conhecimento, a hegemonia não compreende o que o senso comum é capaz de produzir, a beleza em seus hábitos. Do senso surge a verdade de um Povo. Da força alienadora vem a capacidade de indivíduos que apenas identificam o que os separa e não o que os une.

Por fim, tem-se o fim do mito sob a morte de seu herói. Suas conquistas, porém, atingem níveis simbólicos de grande força imagética. A figura do profeta à brasileira encontra seu espaço ao cumprir sua promessa. Da morte de seu herói, nasce o mito de uma nação.

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