Crítica: Dunkirk

Por Matheus Fiore

 

Estados Unidos – 2017
Direção: Christopher Nolen
Elenco: Fionn Whitehead, Tom Glynn-Carney, Jack Lowden, Harry Styles, Aneurin Barnard, James D’Arcy, Barry Keoghan, Kenneth Branagh, Cillian Myrphy, Mark Rylance & Tom Hardy.

O Molhe, O Mar e O Céu, assim divide-se Dunkirk. Não como atos, mas como três núcleos dramáticos paralelos que, em certo ponto da trama, se entrelaçam e contam uma história de resistência, dever e sacrifício. No primeiro acompanhamos, durante o espaço de sete dias, a história de um grupo de soldados ingleses que tenta sobreviver ao ataque nazista à Dunkirk, região do norte francês. No segundo, vemos uma família britânica que é convocada pelo governo para ajudar no resgate durante um dia. No terceiro, vemos uma dupla de caças que precisa contra-atacar as investidas nazistas que tentam frustrar o resgate durante uma hora. Os diferentes lastros temporais inicialmente podem parecer confusos – e em certo momento, se tornam -, mas também são essenciais para Nolan desenvolver a trama como a pensou desde o roteiro. Para essa abordagem funcionar, a obra depende do sucesso de dois dos elementos mais essenciais da linguagem do cinema: a montagem e a edição. Se a narrativa é responsável pela união de todos os elementos técnicos em prol da forma de contar a história, o trabalho de montagem/edição é o aspecto que une e cria sentido no corte e na sucessão de planos e cenas do filme.

Em Dunkirk, vemos um leque de boas ideias do cineasta serem sabotadas justamente por esse elemento que deveria enaltece-las. Os três diferentes centros dramáticos acabam pouco entrelaçados, e pior: quando ocorre, é de maneira confusa pela falta de carinho ao distinguir ou sinalizar os diferentes períodos temporais. Mas, apesar disso, Nolan consegue extrair uma obra recheada de tensão e urgência – mesmo que, ocasionalmente, de forma simplória. Peguemos como exemplo a cena na qual dois personagens precisam correr para chegar à barca com uma maca. A trilha de Hans Zimmer impõe um imediatismo gritante. Não há, porém, qualquer relação do audio e do visual. O longa poderia estabelecer essa urgência tanto pela expressão de desespero dos personagens quanto por uma variação nos cortes, utilizando planos de duração comum  no começo da cena para, conforme o tempo se esgota, utilizar outros mais curtos, aumentando a cadência de cortes e criando um pequeno clímax que conotaria a pressa. Infelizmente, nem as atuações nem a montagem acompanham a música. Sendo apenas um retrato do filme como um todo, essa passagem deixa evidente a dificuldade do longa de manter-se no ápice por suas quase duas horas de projeção.

Diferente do que possa parecer pela análise feita acima, Dunkirk não chega a ser um mal filme – longe disso. Há inúmeros acertos. A escolha de Nolan de nunca mostrar rostos dos alemães é um ponto positivo, ajudando a desumanizar e mistificar os “vilões”. É ainda mais enriquecedor o fato de não só não vermos os nazistas, como também não há sinal dos líderes políticos e militares que comandam os ingleses, o que ajuda a retrata-los como um grupo que também é antagonista das tropas, além de funcionar para criar a ideia de isolamento dos personagens presos na praia de Dunquerque. A fotografia também contribui muito para a criação do ambiente isolado do Molhe, principalmente pelo uso de planos gerais que ressaltam o vazio que cerca as tropas britânicas. A paleta de cores, que varia apenas do cinza para o azul, também traz visualmente a escassez de recursos e de possibilidades que cria o desespero nos personagens. O uso de lentes teleobjetivas também ajuda a criar uma distância entre os militares e o mar, o que fortalece o isolamento e também faz a água parecer um muro entre eles e seu lar, que os aguarda do outro lado do oceano. Com a junção de todos os elementos, o sentimento de desorientação é implícito nos rostos perdidos dos personagens.

Se há algo que merece palmas e indicações na temporada de prêmios, é o trabalho de som. Por não vermos os rostos alemães enquanto seus caças atacam as tropas presas em Dunquerque, a sonoplastia é essencial para criar a imponência das aeronaves nazistas que atacam os protagonistas. E a equipe responsável pelo som escolhe um barulho estrondosamente rasgado para acompanhar as descidas ofensivas alemãs, tornando a situação sempre muito opressora por, assim como os personagens britânicos, não termos noção de o que acontecerá. Notamos ainda que, quando as aeronaves que se aproximam são as inglesas, o som presente não é tão agressivo e agudo, pois ali, não há ameaça. O som que acompanha os caças alemães são, além de um  desenho ameaçador para potencializar o vilão, uma forma de mostrar como sua presença impacta na mente dos ingleses.

Já a trilha de Hans Zimmer alterna entre altos e baixos. Quando acerta, constrói temas que retratam perfeitamente cada situação sem mastigar as cenas, como quando os personagens percebem a chegada do resgate e, pela primeira vez, a trilha abre mão dos temas densos para utilizar acordes mais melódicos e abertos. Também é notável a criatividade de Zimmer ao utilizar temas com grandes pausas abafadas para cenas onde alguém luta para não se afogar, tornando a situação ainda mais imersiva. Zimmer, porém, erra em alguns momentos, demonstrando pouca sensibilidade ao não trabalhar o silêncio, que muitas vezes potencializa a tensão mais do que qualquer música. O resultado é um trabalho musical que funciona quando desenha alívio e heroísmo, mas que decepciona quando deveria ceder lugar à paranóia e ao medo.

Próximo ao ato final, Dunkirk começa a pesar. Escolher fazer uma obra onde o clímax e a tensão são constantes é algo possível e válido. Há, porém, de se quebrar esse ritmo em algum momento do longa, como é feito de forma brilhante em Mad Max: Estrada da Fúria. Aqui, porém, mantém-se a mesma potência durante as quase duas horas de projeção. É compreensível a escolha de Nolan, que visa estabelecer um tom de insegurança e desespero constantes, mas há de se ressaltar que, apesar de ser uma ideia válida, prejudica o ritmo do filme por não conseguir impactar o público. Também prejudica na identificação do espectador o enorme distanciamento entre nós e os personagens. Mesmo que Nolan insista em criar planos que nos insiram entre os soldados, não temos espaço para ver suas emoções, nem no texto, nem nas imagens.

O roteiro também não ajuda, pois sugere diversos conflitos nos personagens que não são explorados. O militar traumatizado vivido por Cillian Murphy, por exemplo, é encontrado à deriva e nunca tem sua mente perturbada devidamente aproveitada (há apenas uma citação sobre como a guerra o mudou, que apesar de estabelecer seu estado, não cria nem desenvolve um arco). Mesmo que não explorar seu passado seja uma forma de alimentar a imaginação do espectador, espera-se que vejamos mais do impacto da guerra em seu personagem além de um olhar perdido. O mesmo vale para Mr. Dawnson, o personagem do premiado Mark Rylance, que a todo momento demonstra insegurança em suas escolhas por temer pela vida de seu filho, mas escolhe atender ao chamado do exército por uma noção de dever. Não há, porém, espaço para que vejamos o desespero ou o conflito surgirem em Dawson, com exceção de curtas cenas onde ele precisa tomar decisões importantes em questão de segundos. Fica um claro vácuo a ser preenchido pelos efeitos das escolhas e atos dos personagens, o que torna a obra fria.

Mesmo que peque como escritor, o talento de Nolan para dirigir é inquestionável. Aqui, o posicionamento e a angulação da câmera sempre são precisos. Quando filma as passagens rasantes das aeronaves alemãs, por exemplo, o diretor opta por deixar a câmera entre os personagens, assistindo tudo de baixo e fazendo com que a câmera se movimente da mesma forma que os rostos desesperados dos soldados ingleses, o que não só nos imerge na situação de desespero, como também torna os caças alemãs extremamente imponentes. O cineasta ainda utiliza ângulos distintos para retratar as cenas em que o exército é “engolido pelo mar”, tornando as cenas mais sufocantes e intimidadoras. Com toda sua técnica, Nolan consegue retratar os nazistas quase como seres mitológicos, sempre um passo a frente dos heróis, o que torna ainda mais intensa a sensação de insegurança que permeia o filme.

Ao final da projeção, é justo dizer que Nolan entrega o que promete. Em Dunkirk vemos a marca do diretor nos proporcionar uma experiência apavorante e imersiva. Sua capacidade de administrar diferentes núcleos funciona: a divisão em Molhe, Mar e Céu é eficiente para nos mostrar as relações de desespero do primeiro que levam ao senso de dever e empatia do segundo e do terceiro. Uma pena que o script seja tão básico e mecânico. Não que um bom filme precise de um grande roteiro, mas Nolan acerta mais ao retratar a guerra de um ponto de vista macro do que micro, o que acaba sendo um show técnico que, em certo ponto, torna-se oco. Como resultado, a obra impacta mais pela escala visual, não desenvolvendo praticamente nenhum arco de seus personagens e se esquecendo o mais importante elemento de qualquer guerra: o impacto dela na psique humana. Justamente o elemento que faria o elo entre seu filme e o público.

★★★

2 comentários em “Crítica: Dunkirk

  • 1 de agosto de 2017 em 00:37
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    Ótima crítica. Durante a sessao o tempo todo eu pensava que era um belo filme pelos aspectos técnicos, mas tremendamente falho do ponto de vista narrativo. Os personagens sao rasos e nao há qualquer motivo pra se importar com o destino de cada um. Na minha avaliaçao, o filme mais fraco do Nolan (entre os que eu assisti).

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    • 1 de agosto de 2017 em 00:52
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      Obrigado, Renato.

      Sem dúvida a fase dele é “preocupante”. Seus três últimos são, na minha opinião, seus três piores (o 3º Batman, Interestelar e Dunkirk). Temo que ele entre numa fase meio “Shyamalaniana” e se distancie cada vez mais de bons projetos como O Grande Truque. Passados sete dias da sessão de Dunkirk, a impressão que ficou é que é um filme tecnicamente cheio de valores, mas frio e calculado demais, sem nenhuma humanidade.

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