Excalibur e a espada como representação do poder

Por Matheus Fiore

 

Estados Unidos – 1981

Direção: John Boorman

Elenco: Nigel Terry, Helen Mirren, Nicholas Clay, Cherie Lunghi, Paul Geoffrey, Nicol Williamson, Robert Addie, Gabriel Byrne & Keith Buckley

Sendo a espada mais famosa da história da literatura, a Excalibur já inspirou, junto ao lendário rei Arthur e ao cálice sagrado, dezenas de histórias nas mais diversas mídias. Poucos, porém, conseguiram sintetizar os elementos arturianos e utilizar a lenda para construir uma narrativa tão única e apaixonante quando Excalibur, filme de John Boorman lançado em 1981. Como o nome sugere, a trama não foca tanto em Arthur ou algum de seus cavaleiros, mas na espada, e para tal, há um tom mágico, quase onírico, que permeia toda a longa metragem do filme.

O filme dedica seu primeiro ato a construir o universo fantástico de Camelot. No meio de uma grande guerra, o rei Uther conta com o auxílio de Merlin, um poderoso mago, para conseguir a espada Excalibur, afim de vencer o combate e manter seu poder. Uther caminhava para vencer a guerra sem perdas, mas acabou se apaixonando por Igrayne, esposa de um de seus aliados. Cego por sua sede por poder, acabou fazendo um pacto com Merlin: o mago o auxiliaria a ter Igrayne se, em troca, recebesse do casal a criança fruto do relacionamento. A ganância do rei acaba conduzindo-o à sua morte, deixando o reino sem um líder e Excalibur perdida.

Anos depois, eis que Arthur, o filho de Uther que Merlin entregou para um camponês criar, acaba retirando a espada da pedra e sendo, então,  proclamado rei. Mas engana-se quem pensa que a partir daqui o filme passaria a acompanhar a trajetória do rei. A narrativa desloca-se sobre vários dos personagens, desde Lancelot à Perceval. O foco acaba sendo menos os elementos lendários arturianos e mais um enredo sobre ascensão ao poder, corrupção e queda. O poder, simbolizado pela espada, é extremamente volúvel, e nem Arthur se mostra pronto para administra-lo por longo tempo.

Há na fotografia e nos figurinos a criação tanto de símbolos nas roupas dos personagens quanto a manutenção de um tom fantástico. As vestimentas trazem muitos adereços cromados e brilhantes, que refletem feixes de luz e trazem os próprios reflexos dos personagens. Auxiliados por um véu embaçado que cobre boa parte do filme, constróem um tom onírico que não só é perfeito para a proposta do filme, mas que quando quebrados pelas cenas mais violentas e sangrentas dos combates, conseguem criar uma dualidade visual (fantasioso limpo x realista violento e sujo). Ainda na cinematografia, há o uso de uma constante luz verde que traz uma aura mágica para o filme. Curiosamente, essa luz verde só está presente enquanto Merlin está em cena. Quando o mago desaparece, no meio do segundo ato, tal recurso é reduzido, como se sua ausência deixasse o mundo mais cinza.

E falando de Merlin, há de ser enaltecida a construção do personagem. Não só pela memorável atuação de Nicol Williamson, que vai da candura ao cruel com maestria, representando as várias facetas do poderoso mago, como pelos simbolismos trazidos por sua figura. Os já mencionados adereços cromados estão presentes por todo o figurino do filme, sendo em espadas ou armaduras. Mas, em Merlin, o único adereço prateado é uma simples proteção prateada em sua cabeça, entregando que sua fome por pensar é sua espada e escudo. Merlin é, no meio de uma sociedade corrompida por ganância e racionalidade, o escapismo artístico e surrealista.

Excalibur não é um épico de proporções gigantescas como Ben-Hur ou Spartacus, mas é uma perfeita adaptação dos contos originais que, por focar sua narrativa na espada, consegue desvencilhar o ponto de vista do espectador da ótima de Arthur, Uther ou Merlin, possibilitando que o público veja a história de forma cíclica e passageira, sem apontar defeitos e julgar os personagens ou suas escolhas, mas retratando de forma fantástica uma gama de personagens, situações e elementos que são alegorias para questões civilizatórias reais. Uma obra que, por meio do fantástico e de sua estrutura narrativa, torna-se atemporal.

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