HAXAN e a moral patriarcal (ou a impossibilidade de uma vida livre)

Por Fernando Boechat

 

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Em estilo semidocumental, o narrador irá construir primeiramente a defesa de seus argumentos, amparado por uma seleção de suportes​ imagéticos e enxertos textuais que favoreçam a visualização do espectador de como certas crenças foram pensadas por quem as praticava ou via estudo de especialistas. Ao longo do filme teremos a representação cênica dos fatos históricos, assim como sua posterior ruptura.

A abordagem cultural e histórica que o autor nos propõe se inicia por um viés anti religioso, onde afirma a necessidade do homem em explicar aquilo que lhe é estranho por meios místicos, criando assim um saber que cobre a lacuna de uma real ignorância sobre aquilo que se tenta explicar. Resultado de um medo em lidar com a alteridade, surgem crenças em demônios e espíritos malignos como um alerta àquilo que não pode ser compreendido por vias racionais. Ilustrações que nos são passadas pelo autor apresentam criaturas antropomórficas produzidas nas antigas culturas egípcias e persa, como símbolo de uma mistificação ancestral adotada de modo universalizante pelo homem.

A impossibilidade de um fundamento científico maduro privilegiaria a explicação mística e/ou religiosa de mundo que logo nos é centrada, ainda no primeiro dos sete capítulos, na temática da bruxaria e em todo um aparato moral assegurado pela Igreja na perpetuação de um discurso místico baseado na ignorância e no preconceito, condenando tudo aquilo que não lhe é espelho aos piores tipos de experiência, que levariam à tortura e à morte.

Os “objetos” privilegiados onde recairão a ação violenta institucionalizada são, é claro, os desprivilegiados. Isso nos remete a um evidente recorte de classe, onde os miseráveis já serão suspeitos a priori e a um evidente recorte de gênero, onde o estranhamento em relação a uma “essência” feminina (ou, se preferirem, um devir feminino) fará sangrar muitas mulheres. Cabe lembrar que os agentes dessa carnificina religiosa são todos homens e usam de seu saber moral para condenar àquilo que lhes é estranho.

Por mais que homens também sejam condenados por participações satanistas é na mulher que percebemos a figura central onde recairá essa violência e um saber que se inscreve em seus corpos. Suas supostas reuniões com outras mulheres já suscitam uma suspeita desproporcional, tomando quase como certo um encontro visando o mal, a discórdia e um uso livre de suas sexualidades, algo visto com pavor e associado a uma conjugação carnal com o próprio satanás em suas orgias rituais.

O medo frente ao desconhecido como legitimador de todas as violências. O homem em seu aspecto mais paranoico e reativo, destruindo tudo que não pode apreender e reter em sua jaula de aço. Algo distante de nós? Acho que não. Benjamin Christensen, diretor e roteirista do filme, também não enxerga essa distância e promove uma ruptura temporal que nos leva para seu tempo presente, onde tece uma crítica às instituições psiquiátricas que, agora em nome da ciência, ainda são alimentados por toda uma moral social ainda na justificação de uma violência perante aquilo que não compreende, mais um forte e evidente sinal de falta de empatia. Aqui ainda temos o papel predominante do homem enquanto juiz da moral e único possível detentor de um saber médico que clinica patologicamente (podemos ler das duas maneiras: um anseio patológico em clinicar e diagnosticar aquilo que escapa de sua apreensão normativa; e a mais simples, a de diagnosticar aquilo que lhe escapa como “patologia”) tudo que foge de sua percepção de normalidade. E a mulher? Esta é a histérica agora. Não que o fenômeno da histeria nas mulheres fosse exclusivamente um discurso, também não devemos entender como um fenômeno que se dá exclusivamente nelas. E, caso haja um predomínio de mulheres em casos diagnosticados como de histeria isso merece no mínimo duas explicações. A primeira seria o mesmo preconceito judicativo que levou inúmeras mulheres à fogueira no passado. A segunda seria reflexo de um trauma em muito estimulado pelas violências de uma sociedade ainda eminentemente patriarcal.

Momento de brincadeira em que a atriz experimenta um objeto de tortura, esgarçando a ficção dentro da narrativa.

Há então uma virada intelectual preciosa no decorrer do filme por volta de seus 20 minutos finais, que se inicia com a brincadeira que o autor faz sobre sua própria narrativa focando na representação que fez sobre o cotidiano dessas mulheres perseguidas, apresentando-as agora como atrizes, seres pensantes e ativos, seja enquanto profissionais ou como agentes de sua própria auto-representação enquanto mulher. No decorrer final temos o deslocamento da crítica da religião tomando-a como sobrevivência de um resquício de pensamento primitivo afastado da ciência para uma crítica do próprio uso da ciência como mais um dos modos de se legitimar a moral e a violência por meio de uma ignorância latente no que diz respeito à empatia: a fina sabedoria de saber se colocar no lugar do outro.

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