A Sociedade vista pela Ótica de Kuroneko

Por Matheus Petris

CONFIRA A REVISTA CINEPLOT

O Japão sempre foi conhecido por seus mitos, lendas e superstições; tais elementos ultrapassam gerações e até hoje possuem forte apelo popular e social na nação nipônica. Dentro da área das artes, isso sempre influenciou os artistas e, obviamente, com o cinema não é diferente. Quando se fala em lendas, um dos primeiros nomes que podemos pensar é Kaneto Shindô. Shindô sempre esteve preocupado em falar sobre a sociedade, os mitos e o ser humano – retratando-o da forma mais verdadeira possível.

Kuroneko tem como estrutura uma antiga lenda japonesa. Com a leitura e interpretação de Shindô, temos uma análise da sociedade Japonesa – clássica e contemporânea ao mesmo tempo -, que nos faz repensar os próprios seres humanos que ali habitam, suas ações e particularidades.

Mais do que a lenda, a “presença” do ser humano na sociedade é o ponto chave de Kuroneko. Notamos desde o princípio do filme que a guerra trouxe e evidenciou suas piores características possíveis, resultou naquilo que o ser humano tem de pior. As “necessidades“, mostram a verdadeira faceta de alguns, que permitem que eles ultrapassem barreiras e mostre seu verdadeiro eu, algo que sem a guerra não seria possível, pois em teoria somos “regidos” por leis. O que para alguns pode ser a verdadeira vontade humana, no final das contas nos torna como outros animais. Animais estes diante dos quais tentamos a todos custo provar nossa superioridade. Logo em uma cena introdutória, Shindô faz com que conheçamos a sociedade em sua relação naturalista: Os samurais invadem a casa, se alimentam de toda comida que alcançam e, sem pestanejar, estupram e matam as duas mulheres que ali vivem. Fazem-no como ritual, como se estar vivendo uma guerra os permitisse. A presença do gato, seus miados, o fogo que toma conta da casa inserem o elemento mítico, a lenda. O gato preto pode ressoar para alguns como a culpa, o que contradiz a própria maldade do ser humano e enaltece sua fajuta superioridade.

A guerra também traz consigo outros problemas: tira de suas famílias homens que não estão e nunca estiveram preparados para matar – como é o caso do protagonista. A guerra muda-o, faz com que sua percepção do mundo seja alterada, mas o baque principal ocorre quando descobre que sua mãe e esposa foram mortas durante a guerra – nunca explicitamente. Seu triunfo como guerreiro samurai é como uma redenção perante a guerra, mesmo que isso não acalme seu coração calejado. Suas inúmeras recusas em assassinar os demônios, como foi ordenado, mais que pelo apelo sentimental. Através do apelo humano, há sempre uma questão social embutida, como a demonstração de insignificância dos camponeses, que são toda a base da sociedade feudal japonesa. Shindô consegue criticar tudo isso, e o faz utilizando uma lenda como base, como mencionei noutro momento. Como muitos poderiam pensar, ele não é pessimista ou cruel, ele lida com a realidade.

Existem também momentos de demonstração de afeto, como o sacrifício da esposa do protagonista, apenas em prol de estar com ele durante alguns dias. O amor também existe. Ao mesmo tempo que a crítica está presente o tempo todo, também existem resquícios do que podemos ler como esperança. Esse é o cinema de Shindô, ele retrata o mundo como é. E o faz da maneira mais visceral e verossímil possível. Pode ser uma forma de mostrar sua própria esperança, ou no mínimo tentar resgatar os lados positivos de nossa sociedade. Criticar e focar no lado negativo pode ser tão proveitoso quanto enaltecer o pouco de bondade que nos resta, e essa é a máxima do cinema de Shindô.

Shindô também fez assim em Onibaba. Utilizou de um mito para mostrar problemas bem maiores, mais complexos, mostrou o quão cruéis nós seres humanos podemos ser – ou somos? Se em Onibaba Shindo mostrou como a sociedade pode vir a se tornar, em Kuroneko ele a mostra tal como realmente é.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *