O Golem e o ser incompleto

Por Leonardo Carvalho

 

Alemanha – 1920

Direção: Carl Boese, Paul Wegener

Elenco: Paul Wegener, Lyda Salmonova, Albert Steinrück.

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A introdução de “O Golem” constrói, de maneira rápida e precisa, o início de uma maldição prevista por um sábio ao observar as aproximações e os afastamentos dos astros. Ele diz que enxerga um futuro complicado para uma pequena vila judaica, partindo, imediatamente, para uma conversa com os anciãos locais.

Essa é a primeira das duas viradas importantes para o desenvolvimento e conclusão do longa-metragem. O imperador do território anuncia que não suporta mais os modos de vida dos habitantes daquela vila judaica, portanto, acabará com os privilégios e trará punições severas ao ambiente dos judeus, uma atitude anti-semita.

Como uma afirmação de cultura e identidade, um mágico tem a ideia de construir um homem feito de barro, que através da magia pode ganhar vida e defender o seu povo através da sua força sobre-humana. Só através do poder oculto esse ser artificial consegue seu nascimento e, consequentemente, obedecer às ordens de seu dono, ainda que possa tornar-se um perigo, dependendo da configuração dos astros.

A história do longa-metragem expressionista apoia-se justamente na narrativa mais famosa sobre a criatura. Ela acontece no século XVI, em Praga, com a invocação do homem de barro para proteger a sua aldeia contra investidas anti-semitas. Alguns questionamentos sobre a criação do golem, porém, fazem com que nós tenhamos nossa dúvida de qual/quem é a verdadeira maldição àquela vila. A profecia vista pelo sábio é correta em relação ao imperador ou seria uma visão de que a própria criatura construída para a proteção se voltará contra seu povo?

É um tipo de mito diferente, muito particular da cultura judaica. Se levarmos em conta a tradição da mitologia grega ou da religião cristã, podemos ver algumas coincidências em relação ao místico, mas é discrepante do mito de fábulas e contos de fada. Aliás, ainda que possamos traçar semelhanças com religiões ocidentais, deve-se dizer que a forma de proteção e encantamento da lenda do golem é mais próxima de rituais de invocação. Já o formato da criatura, é algo distinto de tudo o que já vimos.

No interior da narrativa, percebe-se que a história mítica da profecia se apoia nas exatidão, tudo isso pela razão de o enredo tratar a astrologia como uma ciência exata na visão de um acontecimento. É um mito de proteção, mas que aos poucos vai se tornando uma construção tenebrosa e ameaçadora, uma lenda de um povo que necessitou de uma criação através de uma composição de parábolas.

Ele é um ser incompleto, uma substância sem totalidade, como dizem as definições. Perfeito, o próprio diretor no papel da criatura concede movimentos brilhantes na composição do grande centro da película. A representação dessa incompletude é ótima, com muita rigidez para gesticular-se e locomover-se. O monstro parece mesmo incompleto se comparado à fluência física do humano.

É preciso reconhecer que o figurino e a maquiagem ajudam nisso tudo, é uma caracterização ótima em termos de solidificar os membros do homem artificial. A sensação dada é de que estamos vendo claramente um ser enrijecido, de pedra, com movimentos limitados de uma figura mítica e longe da representação humana, tenebrosa aos olhos dos indivíduos daquela aldeia por sua aparência monstruosa, como mais tarde viria ser o monstro de Frankenstein.

O formato da película baseia-se em uma montagem paralela. A primeira trama é excelente, voltada aos sábios e suas preocupações proféticas, além de uma tentativa de construir um ser salvador. Ela desenvolve-se com uma fluência muito interessante no suspense, em que expectativas são criadas para saber o que e como aquilo acontecerá.

O suspense é ainda melhorado na apresentação do monstro. Nada é apressado nesse sentido; primeiro vemos o golem através de imagens e desenhos em uma parede, como o processo de criação do sábio; depois, com o passar dos capítulos da película, a criatura já está pronta, mas adormecida, então criamos ansiedade em vê-la em funcionamento; finalmente, já com vida, podemos entender a razão do título da narrativa e enxergar os efeitos no desenvolvimento da obra. É uma composição de paciência muito válida à proposta de trazer um personagem um tanto excêntrico, por isso é liberado vagarosamente.

A segunda trama, muito menos tocada pelo longa-metragem, o par de alternância das partes em que há o golem e os sábios/mágicos, está relacionada com um casal um tanto atrapalhado. A proposta do romance não funciona, apenas atrapalha a sequência dos quadros para um ritmo mais agradável e uma concentração de cenas memoráveis. Essa segunda trama é muito caricata, e ainda que traga consequências, junto à criatura, no final, é totalmente desnecessária na composição da história.

É bom que se destaque, também, a parte mais voltada ao visual da película. Em primeiro lugar, a iluminação expressionista, com detalhes de escuridão excelentes para climatizar o horror da lenda, além de haver alguns elementos mínimos que complementam a estratégia tenebrosa, como as sombras pontudas que aparecem no fundo da imagem. A utilização de closes nas expressões de pavor do velho mago e da monstruosidade do golem também são bem-vindas na intenção de provocar medo.

Continuando com a parte visual, destacam-se os efeitos especiais práticos, muito bem elaborados através dos cortes e do espaço cênico. Chega a impressionar a qualidade das imagens em relação ao poderio de magia, como uma dança de chamas e o envolvimento da invocação da criatura, em que o espectador é convidado para embarcar na história daquela lenda. Com os cortes, é proporcionado à narrativa que círculos de fogo apareçam subitamente; com o espaço cênico, os artifícios mágicos são acionados, ora com o sábio invocando as entidades espirituais com gestos teatrais, ora com o complemento da dança das chamas dita anteriormente, tudo isso trabalhado com um enquadramento mais aberto na tentativa de completar todo o ambiente com elementos místicos.

Mais ao final, temos a última, e mais forte, virada da narrativa, quando o mito do golem fica completo no momento em que a criatura se volta contra seu próprio criador devido à passagem do tempo e à mudança dos astros. Com um toque de humor, a finalização acontece, mas é preciso reconhecer que em boa parte da película o terror é encontrado, ainda mais se o espectador acompanhar o filme com uma música do expressionismo. É um expressionista pouco lembrado, mas fundamental para a evolução do cinema alemão naqueles primeiros passos do cinema.

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