Onibaba e a demonização do desejo sexual

Por Matheus Fiore

Japão – 1964

Direção: Kaneto Shindo

Elenco: Nobuko Otawa, Jitsuko Yoshimura & Kei Sato

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O sexo é tratado como tabu em boa parte das culturas ao redor do mundo. Na sociedade ocidental, o tema tem sua discussão travada principalmente graças aos valores judaico-cristãos que ditam a moral da maioria da sociedade. No Japão há a mesma censura, e a liberdade sexual e o prazer (principalmente femininos) acabam sendo transformados em demônios intocáveis que devem ser temidos. Em Onibaba, o diretor Kaneto Shindo trata do tema por meio de uma trama simples mas recheada de alegorias e banhada por uma brilhante fotografia. Em um período não especificado, durante uma grande guerra, duas mulheres vivem em uma mata, caçando os homens que por lá passam para matá-los e vender seus pertences. A dupla é composta por uma jovem que aguarda o regresso de seu marido, Kichi, que desapareceu na guerra, e a mãe do próprio Kichi. Certo dia, a dupla recebe a visita de Hachi, que informa à mãe que seu filho morreu em combate. A esposa, então, começa a se aproximar de Hachi, o que irrita sua sogra, pois ela teme a possível perda de sua companheira de roubos.

Onibaba sabe trabalhar a construção do desejo. A aproximação de Hachi e a viúva, por exemplo, é muito orgânica. Começa quando o rapaz vê a moça trabalhando na beira do lago e acaba observando uma abertura na roupa que o permite ver parte do corpo dela. A cena alterna a câmera subjetiva que passeia pelo corpo da jovem e demonstra como Hachi passa a deseja-la, enquanto no contra-plano temos o olhar do personagem enquanto ele se apoia em sua lança e a segura como se fosse um pênis ereto, representando sua excitação. Ainda embeleza o filme a lindíssima cinematografia de Kiyomi Kuroda, que utiliza as luzes para desenhar os contornos dos personagens, que dão um visual digno dos mangás japoneses e conseguem ajudar na construção da mise-en-scene, que poderia ser prejudicada pelo excesso de tomadas externas noturnas.

A direção de Shindo é inteligente ao retratar a relação entre os três personagens. Enquanto Hachi passa a desejar a viúva, que por sua inocência demora a perceber, vemos a mãe de Kichi mudar seu posicionamento no quadro gradualmente, percebendo o desejo de Hachi. Em certo momento, a vemos entre os outros dois personagens, com olhares de lado desconfiados que nos contam sua vontade de manter o rapaz longe de sua nora. Em certo ponto do filme, porém, é inevitável que a paixão se torne uma relação carnal. Resta à senhora, então, tentar separá-los de qualquer jeito. O curioso é que o medo da Mãe ao ver o florescer do amor entre Hachi e a Viúva vai além da possibilidade de ficar sozinha, mas é justificado também pela enorme inveja que a senhora expressa pela juventude de sua nora. Ao ver Hachi se aproximar da jovem, por exemplo, a Mãe tenta intervir e seduzir o moço. Quando rejeitada, então, decide utilizar o medo para impedir que a dupla de jovens se torne um casal.

Entra em cena, então, um samurai que, fugindo da guerra, perdeu seu rumo e pede para a senhora ajudá-lo. Utilizando uma máscara de Oni que o faz parecer um demônio, o guerreiro é enganado pela Mãe e acaba morto. Entra aqui outro elemento que torna Onibaba um filme único: a alegoria da máscara que se torna o rosto. Enquanto caminhava pela mata com a idosa, o samurai afirmou que não mostraria seu rosto por este ser muito bonito. Mas, quando morto, a personagem vai até seu cadáver e, ao remover a máscara, encontra um rosto totalmente deformado e queimado. É como se a máscara de demônio que o rapaz vestiu na guerra tivesse se tornado sua própria face, diante de todos os horrores que ele viveu e proporcionou em combate.

E se a máscara de demônio tornou-se o rosto do samurai, era lógico que o mesmo aconteceria com a Mãe a partir do momento que ela passa a usar a mesma máscara para assustar sua nora. Em suas tentativas de encontrar Hachi, a Viúva sempre era impedida pelo “demônio” que assombrava a mata, que na verdade era apenas a Mãe fantasiada. Mas, aqui, o mais interessante é ver como mesmo diante de algo que a jovem acredita ser uma entidade maligna, a personagem persiste na busca por seu amor e consegue enganar a Mãe. A montagem insere planos que trazem a mata sendo soprada pelo vento enquanto a moça corre em direção ao seu amado, nos mostrando como o amor é uma força instintiva, natural, que supera as barreiras do medo e do tabu.

Onibaba entrou para a história como um filme de terror, mas seu grande mérito é retratar o uso do medo para tira a liberdade sexual, a construção do mito do pecado supostamente presente no desejo sexual, ao mesmo tempo que, de forma poética e sutil, consegue acrescentar à narrativa a força do amor que transcende os julgamentos e medos. Um filme com uma narrativa extremamente poética pela forma lúdica como é fotografado e pelo peso do som da natureza presente principalmente nas cenas de amor entre a Viúva e Hachi, estabelecendo a força natural da paixão vivida pelo casal. Uma obra seminal no estudo da formação dos tabus sexuais.

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